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10 de novembro de 2016, 14h22

Trump, Temer, capitalismo financeiro e a volta da concentração de renda

Thomas Piketty, economista francês, em seu best seller O Capital no Século XXI, ainda em seu primeiro capítulo, dá a tônica sobre o momento histórico: a desigualdade de renda no mundo hoje é similar somente ao que foi no pré Primeira Guerra. E tende a aumentar

Por Luiz Henrique Dias*

Thomas Piketty, economista francês, em seu best seller O Capital no Século XXI, ainda em seu primeiro capítulo, dá a tônica sobre o momento histórico: a desigualdade de renda no mundo hoje é similar somente ao que foi no pré Primeira Guerra. E tende a aumentar.

A análise dos dados apresentados por Piketty reforçam a tendência natural do mercado – quando livre e liberto para agir – de concentração dos recursos em uma pequeníssima parcela de endinheirados, uma elite rentista, gerando um efeito, ao longo dos anos, de proporções alarmantes que, coincidentemente, ou não, se estancam depois grandes desastres sociais históricos, como crises e guerras mundiais.

Causadas as destruições e os efeitos colaterais da ganância rentista, como as milhões de refugiados e mortes produzidas pelas guerras e das legiões de desempregados e de famintos, saldo das crises financeiras, o abismo de renda tende a diminuir, iniciando um período de aparente melhora nos números e gerando uma falsa sensação de controle do sistema capitalista financeiro.

Cabe dizer que tal diminuição nunca ocorre com uma subida efetiva da base, mas com uma leve queda do topo.

Mesmo depois de as forças trabalhadoras e os mais pobres terem experimentado momentos de melhora em seu padrão de vida – um placebo, digamos – o topo da pirâmide do capital chegou à alturas inéditas, jamais sonhadas nem pelos magnatas do século XX.

Para sair da crise por ele mesmo gerada para e dar a volta por cima, o capitalismo precisa produzir um ambiente de esperança nas massas trabalhadoras.

Boa parte dessa sensação surge com a entrada de grandes volumes financeiros das nações para “salvar” o mercado: o mesmo ente que, nos tempos de farra, usa todas as suas armas ideológicas para forçar a diminuição do aparato estatal, o acusando sempre de robusto e gastador, exigindo superávits primários – para pagar juros de dívidas duvidosas – e queda nas políticas sociais. Afinal, para o mercado, política social vai contra a meritocracia e a concorrência por labor, necessárias para garantir a extinção de direitos e baixos salários.

É aí que Keynes deixa de ser um erro e passa a ser uma solução, mesmo sendo seus ensinamentos utilizados de forma torta e promíscua, e o mercado prega o argumento de intervenção, com a destinação de grande volumes financeiros para sanear o capital especulativo e nada pode atentar contra isso.

Os países que tentam mudar tal lógica e direcionar parte de seus recursos para a distribuição de renda e para a melhoria da infraestrutura e elevação da produção com alto teor nacional, na busca por um receituário de saída ou amenização das crises por meio da elevação da renda dos mais pobres, segurança social, melhoria de serviços básicos – o que também ameniza a vida das massas – e da garantia de direitos, devem ser rapidamente atacados ideologicamente e, indiretamente, em sua democracia.
Isto está ocorrendo na América Latina, principalmente na Venezuela, na Bolívia, no Equador, na Argentina e há pouco no Brasil, onde um golpe velado, orquestrado pela direita derrotada e pela banca rentista insatisfeita, levou à Presidência o ilegítimo Michel Temer.

Para isso, é preciso consolidar um discurso, uma lógica que legitime a retomada do poder pelo mercado e pelos rentistas, sejam eles internacionais ou nacionais, quando estes não querem integrar um projeto nacional de desenvolvimento, e pelos conglomerados de comunicação, como foi bem explicitado pela analista Débora Medeiros, no artigo Das periferias à maioria (a derrubada da quarta parede), citando a PEC 241 como “um escancarar da principal contradição da luta política neste novo ciclo: uma elite financeira (e suas subsidiárias) – uma ínfima minoria – se apropria desavergonhadamente do Estado e lança ao sacrifício a maioria dos brasileiros”.

No entanto, a mais forte ação do mercado em uma economia acorreu nesta semana, justamente no país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump. Acima da figura folclórica, ele é um representante legítimo do capital (mais que Hillary Clinton poderia até ser) e uma versão turbinada do preconceito com o povo pobre, trabalhador e oprimido.

A constatação de ser o novo presidente americano xenofóbico, homofóbico, neurótico com a presença de latinos, machista, etc é apenas a ponta do iceberg.

Uma análise de suas propostas mostra o quanto está alinhado com a ganância, querendo rever tratados de redução das emissões climáticas, armar ainda mais os americanos e financiar novas ofensivas fora de seu território, adquirir novos arsenais nucleares e, no campo social, acabar com um dos principais avanços do Governo Obama: a política de acesso universal à saúde, o chamado Obamacare. Segundo Trump, os “princípios do livre mercado” irão voltar a gerir a saúde dos americanos.

Voltando ao que podemos aprender com Piketty e seus números, mesmo sendo eles de análises dos casos europeus, e fazendo humildes prognósticos para outras partes do mundo, em especial à América, ao que parece, esse será o período da história em que o capital e sua concentração atingirão patamares ainda mais assustadores, quando comparados ao início do século passado.

Viveremos em tempos sombrios para a maior parte das populações.

O capitalismo, desta vez com um aparato ideológico que o fundamenta e com o agravante do viés fascista, parece ter aprendido a viver a era da comunicação em massa e criou uma onda conservadora, não humanista, e avança contra os direitos. O combate, portanto, é primeiramente ideológico e de construção – ou desconstrução – de um discurso.

*Luiz Henrique Dias é professor e coordenador do Projeto A São Paulo que Queremos. No Twitter @LuizHDias


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