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02 de fevereiro de 2012, 09h48

Um ator não é apenas um repetidor de falas

No saguão, um sino desperta a atenção de todos que ali aguardam. Uma mulher abre a porta do teatro: “A Companhia do Latão agradece a presença de todos. Por favor, sigam-me”. Entramos. À frente do palco há uma espécie de véu branco. Passamos por ele e fomos convidados a sentar numa pequena arquibancada montada sobre o fundo do palco. Damo-nos conta de que estamos sobre o palco – talvez indicando que somos todos atores (agentes) no espetáculo que está para acontecer. Assim começa o Auto dos Bons Tratos, uma minuciosa exposição das relações de poder num incipiente Brasil do século 16.

O espetáculo “foi construído”, segundo Sérgio de Carvalho, um dos diretores, “como um aprendizado sobre o início do capitalismo que definiu os contornos deste país”. Isso revela o essencial do trabalho da Companhia do Latão, aquilo que a diferencia no atual cenário do teatro nacional. Enquanto muitos grupos investem nas emoções do público, procuram envolver as pessoas nos dramas dos protagonistas, a Companhia do Latão faz do teatro um meio de provocar a reflexão sobre os problemas políticos do país, compreender as contradições do capitalismo, que condicionam os atos e as posturas de cada indivíduo – atores, público ou personagens. Essas contradições são focalizadas, isoladas no palco, tornadas evidentes, sem ser resolvidas, “porque no fundo sua resolução pede uma ação social coletiva, e não somente ação estética individual”, diz Sérgio.

Em 1996 a companhia montou seu primeiro espetáculo – Ensaio para Danton – ainda com características de “teatro de elenco, e foi antes um trabalho de encenador interessado na coletivização dos meios de produção da cena que uma experiência de invenção coletiva”. O projeto coletivo, que identifica e dá sentido ao grupo, veio logo depois, a partir de idéias surgidas nesse processo, quando em 1998 o Latão venceu o edital de ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Esse projeto, a um só tempo estético e político, é levado às últimas conseqüências sobretudo no processo de criação, que é radicalmente coletivo, avesso à especialização alienante. Um ator não é apenas um repetidor de falas, mas também um criador e um agente político pensante, participa da construção da dramaturgia e da encenação, da composição das músicas, dos debates. Nesse sentido, a companhia considera como o seu primeiro trabalho, com uma proposta mais clara de grupo, o Ensaio sobre o Latão, baseado no ensaio A Compra do Latão, de Bertolt Brecht (donde o nome da companhia). Além das montagens teatrais, o grupo publica a revista Vintém (“teatro e pensamento político”), promove e participa de debates e realiza oficinas.

Não por acaso, a companhia aproximou-se de diversos grupos populares organizados. Desde 1999, mantém contato com o MST, apresentando suas peças em encontros de integrantes do movimento e debatendo com eles. Sérgio de Carvalho diz que “o diálogo com as platéias de sindicatos ou do movimento social mais importante do Brasil, o MST, modificou nossos interesses no teatro. Hoje estudamos tanto o teatro de intervenção política direta, como as experiências estéticas mais radicais, aquelas que, sem deixar de tomar partido crítico, apresentam a complexidade humana da vida popular”. João Pedro Stedile diz que eles “conseguem colocar a cultura e a arte a serviço da conscientização de nossa sociedade”.

As discussões também são levadas à universidade. Participar de festivais de teatro universitário e de debates com críticos como Iná Camargo Costa e José Antônio Pasta Jr., ambos professores da Letras/USP, é prática freqüente entre os integrantes do grupo. Além disso, pesquisadores e pensadores da cultura e da política brasileiras são abordados na revista Vintém.

Esteticamente, o grupo tem como principal referência o teatro épico do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. “Sua obra permanece até hoje para nós, como um modelo, que portanto precisa ser atualizado, reinventado.” Das peças de Brecht, a companhia já montou Santa Joana dos Matadouros. Mas o principal é que os membros do grupo partem de alguns princípios brechtianos ligados à “aplicação do materialismo dialético (marxista) à forma teatral”. Dentre esses recursos, destacam-se a introdução de um olhar histórico na própria peça, muitas vezes representado pela figura do narrador, e o uso de diversos recursos de “distanciamento”, que não permitem ao espectador envolver-se emocionalmente a ponto de alienar-se de sua consciência crítica, de sua atividade intelectual. Para Sérgio, esse “continua sendo o caminho mais avançado de politização da cena”.

O teatro de Brecht, como o da Cia. do Latão, lança-se para fora do palco. Quando o dramaturgo alemão propõe romper a “quarta parede”, quer também derrubar a porta do teatro e eliminar o isolamento entre o “mundo mágico da cena” e a “vida real”. Não mais um teatro catártico (aristotélico, no dizer de Brecht) que purga as angústias e faz o cidadão esquecer de seus problemas e ser levado pelas aventuras e desventuras de heróis e heroínas. Em vez disso, um teatro crítico, que tematiza os problemas sociais, a luta de classes e propõe ao espectador problemas em vez de soluções. Um teatro que procura expor a sociedade do avesso, mostrar suas vísceras, seu funcionamento. Um teatro contra a hipocrisia.

A Companhia do Latão está comemorando um ano de ocupação do Teatro Cacilda Becker, da prefeitura de São Paulo, com uma série de leituras dramáticas de textos e adaptações de Brecht, Marx, Engels, Eisler, Márcio Marciano e Sérgio de Carvalho, a partir de 28 de setembro. E há muito trabalho pela frente. “Nosso próximo projeto pretende estudar a fabricação contemporânea das imagens, na imprensa, nas mídias. Aquilo que se chama de ‘cultura’. As ideologias disfarçadas em forma. De algum jeito, vamos tentar encenar a ‘cultura’. Se isso é possível, vamos ver. Mas ao certo não é trabalho para um espetáculo só, mas para muitos anos.”

Para saber mais www.companhiadolatao.com.br 

Pequeno glossário Bertolt Brecht (1898-1956)
Dramaturgo e diretor alemão, formulador de uma poética moderna de teatro épico e dialético, teatro de atuação política.

Distanciamento
Nome dado por Brecht ao efeito obtido por recursos cênicos que, sem eliminar a emoção, mantém vivo o espírito crítico de espectadores e atores.

Quarta parede
Parede imaginária situada em frente ao palco e que no teatro realista isola metaforicamente os atores do público. 

Teatro épico
Forma teatral não-ilusionista, em que a crítica aos temas abordados é incorporada à cena através de diversos recursos cênicos. 

Teatro não-ilusionista
Procura deixar transparecer sua teatralidade, i.e., em que, por exemplo, os atores mostram explicitamente que estão representando, sem dar a entender que “encarnam” os personagens.


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