Fórumcast #19
03 de março de 2015, 00h15

Uma equação que não fecha: fantasia versus realidade

Japoneses estão vivendo um conflito existencial que implica, dentre outras coisas, o que a mídia japonesa chama de ‘síndrome do celibato’. De acordo com o Centro Populacional do Japão, 45% das mulheres e 25% dos homens com idade entre 16 e 24 anos não estão interessados ou desprezam o contato sexual

Japoneses estão vivendo um conflito existencial que implica, dentre outras coisas, o que a mídia japonesa chama de ‘síndrome do celibato’. De acordo com o Centro Populacional do Japão, 45% das mulheres e 25% dos homens com idade entre 16 e 24 anos não estão interessados ou desprezam o contato sexual

Por Breno Rosostolato, na Adital

Os japoneses estão vivendo um conflito existencial que implica, dentre outras coisas, uma crise sexual. A mídia japonesa tem até um nome pra isso, ‘sekkusu shinai shokogun’ ou, em tradução livre, a ‘síndrome do celibato’.

Desde 2006, as japonesas reclamam dos ‘soshoku danshi’ ou ‘homens herbívoros’. São aqueles que não têm interesse pelo sexo oposto ou desejo carnal. De acordo com o Centro Populacional do Japão, 45% das mulheres e 25% dos homens com idade entre 16 e 24 anos não estão interessados ou desprezam o contato sexual. Fora isso, mais da metade dos japoneses são solteiros.

Um grupo masculino surge com estilos de vida e comportamentos bastante peculiares. Estes são os ‘Otakus’, uma geração de ‘nerds’ que gosta de literatura mangá, anime, computadores e de um jogo que simula relacionamentos amorosos: o Love Plus, da Nintendo. Estas ‘namoradas’ virtuais fazem muito sucesso entre os Otakus, mais até do que a prática do sexo em si.

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Se, logo após a Segunda Guerra Mundial, uma geração de homens foi responsável pelo orgulho e renascimento do Japão como uma grande potência, os Otakus são bem diferentes. Não fazem o gênero ‘macho alfa’. Mais introspectivos e tímidos, esses homens não interagem com as mulheres reais.

A questão é tão curiosa, que as taxas de natalidade do Japão começaram a diminuir. Isso ocorreu uma vez que a população está envelhecendo e conta com poucos nascimentos. Ainda com base nas estatísticas japonesas, uma projeção é bastante significativa: mulheres entre 20 e 25 anos têm 25% de chance de nunca se casarem e 40% de chance de nunca terem filhos. Os números de japoneses que não almejam um relacionamento amoroso, casamento e filhos crescem exponencialmente.

A desigualdade entre os sexos também exige muito das mulheres. Espera-se que elas se casem cedo, tenham filhos e vivam, exclusivamente, para a família. Para isso, são obrigadas, até mesmo, a se demitirem dos empregos para cumprir tais funções, impossibilitando independência financeira e autonomia. Por isso, muitas jovens escolhem dedicar-se ao trabalho, carreira e o futuro profissional e rompem com padrões sociais. Sofrem resistência da sociedade e são conhecidas como ‘oniyome’ ou ‘esposa do diabo’.

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Além das implicações sociais e comportamentais, a economia japonesa começa a declinar, pelos mesmos motivos. A equação está formada: uma mistura arrebatadora, uma realidade de rigidez social. Multiplica-se pelo desrespeito às mulheres, soma-se a uma crise masculina, baseada em expectativas que homens não sustentam mais. Eleva-se à segunda potência, por conta da tecnologia. Resultado: a fantasia virtual que possibilita uma fuga da realidade, uma válvula de escape. E que vem muito bem a calhar, diga-se de passagem.

 Foto de capa: Reprodução

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