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24 de outubro de 2011, 13h51

Usineiros não são heróis

A Rede Social de Justiça e Direitos Humanos trabalha junto com sindicatos rurais e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) na luta por direitos dos trabalhadores. A coordenadora da Rede, Maria Luísa Mendonça, considera que a monocultura é prejudicial tanto do ponto de vista ambiental como social. O uso de insumos químicos, as queimadas e a superexploração dos trabalhadores são os principais motivos pelos quais ela questiona a aposta no etanol como energia limpa

Por Anselmo Massad

 

Fórum – Quais são os impactos da cana-de-açúcar para o meio ambiente?
Maria Luísa Mendonça – Os impactos são muito sérios. O primeiro e menos lembrado é que os insumos químicos aplicados destroem as reservas de água potável. Adubos e fertilizantes contaminam o solo, atingem lençóis freáticos e rios. Em áreas de declive onde se planta cana, como ocorre com freqüência no Nordeste, os poluentes escorrem, com a chuva, para os rios. Além disso, a prática da queimada ainda é muito freqüente. Embora se alegue que a prática vem diminuindo, na época da colheita na região de canaviais do interior de São Paulo os problemas respiratórios são constantes. Em julho e agosto de 2005, foi decretado estado de alerta por causa das queimadas que reduziram a umidade relativa do ar em níveis baixos, e situações como essa se repetiram em outros anos. A queimada ainda destrói a camada superior de microorganismos do solo, contribuindo para seu esgotamento.

Fórum – As queimadas estão diminuindo?
Mendonça – O INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] defende uma moratória de queimadas. A expansão da área cultivada dificulta inclusive a fiscalização. A prática ainda é muito utilizada em todo o país.

Fórum – E do ponto de vista humano?
Mendonça – É trágico. O trabalho de corte é realizado em condições sub-humanas. Em São Paulo a cobrança por produtividade é elevada, há denúncias de sindicatos rurais de falta de controle na pesagem do que foi cortado e as lesões tanto com a faca quanto por esforço repetitivo são recorrentes. Muitos trabalhadores recorrem a medicamentos e drogas ilícitas para suportar a dor.

Fórum – A geração de emprego é apontada como um dado positivo da cadeia. Esses postos de trabalho no campo não são importantes?
Mendonça – Esse raciocínio é falso, porque a monocultura da cana é baseada no latifúndio. A concentração da terra por usineiros gera desemprego em outros setores da economia. O trabalhador temporário das colheitas está sem emprego porque não tem acesso à terra, concentrada nas mãos dos grandes proprietários. Na Zona da Mata, em Pernambuco, por exemplo, estudos apontam 40 mil famílias de camponeses expulsos. Dos 5 milhões de hectares, apenas 20% são de pequenas e médias propriedades. O trabalhador do interior paulista é imigrante do Nordeste e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Nesta região, para burlar a fiscalização nas rodovias, são organizadas “excursões” para levar os trabalhadores. Distantes de seu local de origem e sem condições de voltar nem de ter acesso à terra, se submetem às condições sub-humanas. Há casos registrados por fiscais do trabalho de gente que chegou endividada com os custos da passagem. Muitos foram flagrados em regimes análogos à escravidão.

Fórum – Como a senhora recebeu a declaração do presidente Lula que coloca os usineiros como heróis?
Mendonça – É uma ofensa para os trabalhadores. A superexploração do trabalho provocou 17 mortes na safra 2005/2006 no interior de São Paulo. O motivo foi a exaustão, pois o salário é calculado por quantidade de cana cortada e não por horas trabalhadas. O trabalhador dá, em média, 30 golpes de faca por minuto e corta 10 ou 12 toneladas por dia. No Nordeste o índice é menor, mas o esforço é o mesmo, porque o terreno normalmente é íngreme e dificulta o corte. Os canaviais não são administrados por heróis. Os usineiros seguem utilizando práticas destrutivas para o meio ambiente, para a saúde pública e violando leis trabalhistas.


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