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27 de janeiro de 2020, 16h58

Vanessa Nakate é tão imprescindível quanto Greta, mas você não sabe disso porque ela é africana

Talvez o problema não esteja somente no corte na imagem, já que, provavelmente, em quase todo o mundo, as pessoas só descobriram quem é Vanessa Nakate por causa desse episódio, e talvez o racismo envolvendo a sua exclusão vá muito além dessa foto

Reprodução/Twitter

Uma das principais notícias do fim de semana foi a foto das ativistas do clima durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, cortada pelo racismo de um editor da Associated Press, que excluiu a ativista ugandense Vanessa Nakate, deixando somente as brancas e loiras, entre elas a famosa adolescente sueca Greta Thunberg.

Mas talvez o problema não esteja somente no corte na imagem, já que, provavelmente, em quase todo o mundo, as pessoas só descobriram quem é Vanessa Nakate por causa desse episódio, e talvez o racismo envolvendo a sua exclusão vá muito além dessa foto.

Aliás, mesmo depois do que aconteceu em Davos, não são muitos os meios que aproveitaram a deixa para apresentar a jovem negra ao mundo. Aqui fazemos um resumo, porque é muito difícil encontrar mais dados sobre ela nos meios tradicionais: Vanessa Nakate nasceu em Kampala, capital de Uganda, em 1996. Aos 23 anos, ela é recém-formada em Administração e Marketing pela Universidade de Makerere, em seu país.

Também em 2019, iniciou um protesto solitário em Uganda pela crise climática, inspirada no movimento de Greta Thunberg. Assim como a colega sueca, Nakate foi uma manifestante solitária em frente ao parlamento ugandense durante meses, até que alguns compatriotas passaram a acompanhá-la, e logo outras iniciativas se reproduziram em outros países africanos.

Se levantou como líder da luta pela justiça climática em seu continente ao lançar o movimento Juventude pela África do Futuro. Além do encontro em Davos, ela também esteve presente como palestrante na Conferência do Clima de Madri, em dezembro de 2019.

Em uma entrevista com a jornalista Amy Goodman, para o programa estadunidense Democracy Now!, Nakate explicou suas motivações para protestar pelos problemas climáticos que Uganda, a África e o mundo enfrentam: “Meu país depende, em grande medida, da agricultura, portanto, se nossas granjas e fazendas são destruídas pelas inundações, ou pelas secas, e a produção e ou o cultivo são menores, isso significa que o preço dos alimentos vai subir, e só os mais privilegiados poderão comprar alimentos. E curiosamente só os maiores emissores de gases do nosso país serão ricos o suficiente para sobreviver à crise alimentar, enquanto a maioria das pessoas que vivem em povos e comunidades rurais enfrentarão problemas para obter alimentos devido aos altos preços e ao desabastecimento. Tudo isso levará à fome e à morte de muita gente. Na minha região, a falta de chuva já significa fome e morte para os menos privilegiados”.

Esta e outras declarações mostram que o ativismo de Nakate é muito mais carregado de consciência social que o de Thunberg, o que não é um demérito da sueca – que não é uma alienada, apenas não conhece as realidades que sua colega tem mais presentes –, e mostra o quão importante é a presença da africana neste debate, especialmente quando surgem discursos de criminalização da pobreza e do próprio ativismo climático, como os de Paulo Guedes e Donald Trump.

Não é de hoje que os negadores do colapso ambiental do planeta tentam rotular a luta dos ativistas do clima como um movimento de riquinhos mimados – o que é muito eficaz para distanciar a maioria dos trabalhadores dessa luta. Com seu discurso, Nakate aposta pelo contrário, que é a conscientização desses trabalhadores, operários e camponeses, e não que ela seja uma Thomas Sankara do clima, apenas ajuda a difundir argumento tão simples como: a crise do clima gerará problemas econômicos, fome e miséria, e os mais pobres, que deverão enfrentar os maiores problemas, deveriam reagir a isso.

Cortar Vanessa Nakate da foto foi um caso clássico de racismo, assim como dar a ela, constantemente, menor cobertura do que às brancas que são ativistas do clima também é. Mas o desconhecimento geral sobre quem é a líder africana também passa pelo fato de que seu discurso é ainda mais perigoso para as grandes corporações e para os grandes milionários, que todos os anos são os que pautam Davos.

Bom seria, portanto, se os meios progressistas entendessem a importância de mostrar mais sobre o trabalho de Vanessa Nakate. Que este artigo seja o primeiro de muitos mais sobre ela em português.


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