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20 de outubro de 2013, 10h44

Wallerstein: os exércitos no poder

Exércitos no poder significam quase sempre uma má notícia. No Egito, o Exército tem sido a força decisiva desde 1952

Exércitos no poder significam quase sempre uma má notícia. No Egito, o Exército tem sido a força decisiva desde 1952

Por Immanuel Wallerstein, tradução de Luis Leiria para Esquerda.net

Exércitos no poder significam quase sempre uma má notícia. No Egito, o Exército tem sido a força decisiva desde 1952. A recente destituição do presidente Mohamed Morsi pelo Exército egípcio não foi um golpe de Estado. Não se pode desferir um golpe de Estado contra si mesmo. O que aconteceu foi simplesmente que o Exército mudou a forma de governar o país. Durante um curto período, o exército autorizara a Irmandade Muçulmana a tomar algumas limitadas decisões de Estado. Quando começou a sentir que as ações do governo de Morsi poderiam levar a um aumento significativo do poderio da Irmandade Muçulmana à custa do Exército egípcio, o general Abdel Fattah al-Sisi decidiu que já chegava. E atuou de forma brutal para aumentar o poder quotidiano do Exército.

Os exércitos no poder são em geral altamente nacionalistas e autoritários. Tendem a ser forças muito conservadoras em termos da economia-mundo. Além disso, os oficiais veteranos não só permitem que o exército tenha um papel empresarial direto, como também tendem a usar o seu poder militar como uma forma de enriquecimento pessoal. Foi sem dúvida o que aconteceu na maior parte do tempo desde que o Exército egípcio assumiu diretamente o poder desde 1952 – ou, melhor dito, pelo menos desde 1952.

o Exército egípcio assumiu diretamente o poder desde 1952 (Foto http://en.wikipedia.org/wiki/Riad_Shehata)

É possível que os exércitos desempenhem um papel progressista nas políticas nacional e mundial? Sim, certamente. Por vezes, o nacionalismo do exército leva-o a abraçar uma linha anti-imperialista na geopolítica e um papel populista no apoio às necessidades das classes mais baixas. Foi este o papel inicial de Gamal Abdel Nasser. Mas o nacionalismo progressista não é natural nos exércitos, que encontram dificuldades para envolver-se no processo de negociação interna. E o populismo progressista leva a uma disposição de impor os pontos de vista do Exército aos países vizinhos, minando assim precisamente o que fora progressista nas suas posturas geopolíticas. Isto foi verdade no caso de Nasser e já o fora antes com Napoleão.

O que é interessante na ofensiva do Exército egípcio contra a Irmandade Muçulmana é a reação que provocou dentro e fora do país. Lembrem em primeiro lugar que antes de ter começado o levante inicial na Praça Tahrir em 2011, a Irmandade Muçulmana tinha conseguido obter um papel limitado na vida política (uma pequena minoria de lugares na legislatura e alguns limites à repressão sobre ela) através de um acordo tácito com o regime de Mubarak, o que quer dizer com o Exército.

Assim, quando o povo começou a afluir à Praça Tahrir a exigir a mudança, nem o Exército nem a Irmandade Muçulmana deram muito apoio. Contudo, quando o levante popular pareceu estar descolando, tanto o Exército quanto a Irmandade Muçulmana decidiram apressadamente aderir a ele, de forma a domesticá-lo, apropriando-se dele. E quando a segunda volta das primeiras eleições presidenciais reduziram a escolha a Morsi e à ex-principal figura do regime Mubarak, tanto a esquerda laica quanto os eleitores do centro e o Exército escolheram Morsi, permitindo que este ganhasse por uma pequena margem.

Quando Morsi decidiu avançar para uma nova Constituição com uma inclinação decididamente muçulmana, os eleitores laicos voltaram à Praça Tahrir para denunciá-lo. O Exército apoiou-os de novo para controlar a situação. E os eleitores laicos aplaudiram então o mesmo Exército que tinham denunciado dois anos antes.

A situação política é muito clara. Tanto a Irmandade Muçulmana quanto a direita egípcia (as forças que há muito apoiavam Mubarak) influenciam eleitores suficientes de forma a que qualquer eleição razoavelmente honesta vai permitir que um ou outro vençam. As forças laicas – os múltiplos partidos socialistas e os centristas de classe média cuja figura principal, de momento, é Mohamed el-Baradei – são muito poucos em número. No final, têm de juntar forças uns com os outros, porque não querem nem a direita nem a Irmandade Muçulmana. E os salafistas egípcios entraram na coligação anti-Morsi, esperando dessa forma fortalecer-se entre os ativistas muçulmanos.

No resto do mundo, os que apoiam com entusiasmo as ações do Exército formam um estranho grupo: Israel, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, a Rússia, a Argélia e Marrocos, e provavelmente Bashar al-Assad. Os descontentes são o Hamas, o Ennahda na Tunísia, a Turquia e o Qatar. Quanto aos Estados Unidos (tal como a Europa ocidental), perdem com quem quer que ganhe e tornaram-se irrelevantes.

Para Israel, Morsi representava uma ameaça, enquanto o Exército egípcio irá preservar uma distensão relativa. Para a Arábia Saudita, a irmandade representava os seus maiores rivais no mundo árabe. Para al-Assad, a Irmandade era um grande apoio ao Exército Sírio Livre. Tanto Argélia quanto Marrocos têm um enorme trabalho para conter as forças islamitas, e a queda de Morsi merece portanto o seu aplauso. Para a Rússia, a queda de Morsi provavelmente garante que não haja grandes inflexões na geopolítica da região, que é o que Moscovo quer.

Para a Turquia (assim como para o Ennahda na Tunísia), a queda de Morsi enfraquece a defesa de um governo islâmico “moderado”. Para o Qatar, a queda de Morsi enfraquece a sua luta contra a Arábia Saudita.

O governo dos EUA quer acima de tudo estabilidade na região. Estava pronto para trabalhar com Morsi, se fosse necessário. Há muito que tem os laços mais próximos possíveis com o Exército egípcio. Tentou oscilar entre os dois, melindrando ambos, assim como os neocons e os defensores dos direitos humanos nos Estados Unidos.

O único suposto fator de influência dos EUA no Egito – a sua ajuda financeira, da qual 80% vai para o Exército – não pode ser usada. Por um motivo, a Arábia Saudita e os Emirados já enviaram mais dinheiro que os Estados Unidos têm dado. E, em segundo lugar, o governo dos EUA precisa do Exército egípcio mais do que este da Casa Branca. O Exército egípcio gosta de comprar o seu equipamento dos Estados Unidos. Mas se lhe cortarem o acesso, pode encontrar equipamento semelhante noutros lados. O governo dos EUA precisa do Exército egípcio para direitos de sobrevoo, apoio em matéria de informações, garantias de distensão com Israel, e muitas outras coisas, para as quais não há substituto. Assim, Obama está reduzido a fazer gestos simbólicos, sem dentes para mostrar.

A direita egípcia venceu, a esquerda egípcia perdeu (mesmo que ainda não tenha consciência disso), e a Irmandade Muçulmana irá para a clandestinidade, da qual ainda pode regressar, fortalecida.


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