Zélia Duncan: “O que eles mais têm medo é do nosso desejo”

Em entrevista exclusiva ao canal Todo Tanto, a artista falou sobre resistência, feminismo e sua trajetória artística; assista

Reprodução/YouTube
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Por Guto Alves Uma resistente do presente que tem medo do futuro, mas acredita na esperança. Assim, podemos definir a Zélia Duncan que se apresenta nesta entrevista, em que fala sobre música, invisibilidade lésbica a força do feminismo em sua vida. Atenta às discussões e urgências políticas do país, Zélia se expõe ao “risco” do ódio que tem consumido a internet ao se posicionar, sem medo, em defesa da arte e da luta por igualdade de direitos, emprestando sua visibilidade para expor uma realidade. Além dos vídeos que tem gravado com suas visões e posicionamentos, que agora repercutem amplamente, lançou recentemente os álbuns “Tudo é um”, que contou com um verdadeiro manifesto político no lançamento no Circo Voador (RJ) em 2019, e “Eu sou mulher, eu sou feliz”, que encabeça, ao lado de Ana Costa, um time de cantoras, trabalho feminista por natureza, que apresenta também textos das escritoras Marcia Tiburi, Eliane Brum e Vilma Piedade. “O meu grito é feminista. O grito da mulher que canta é em direção a outra mulher. Não por eu ser gay, mas por eu ser mulher”, enfatiza Zélia. Segundo a artista, o feminismo passou a ser um tema central graças à escritora Marcia Tiburi. “Eu sou grata a ela pra sempre. Por tudo que ela me fez ver. Perceber o machismo, como eu percebi, veio junto com a percepção da luta das mulheres. Então você se sente acompanhada”, relata. Invisibilidade Lésbica Se hoje Zélia se manifesta abertamente e se expõe ao posicionar-se, não foi sempre assim. Talvez por uma questão geracional, explica a cantora. “Eu acho que a minha geração foi extremamente reprimida. Eu, minhas amigas, a gente carrega isso. E é muito triste”. Essa repressão, no entanto, é revertida com o amadurecimento e o conato com novas gerações.  O contato com mulheres jovens durante as filmagens de um curta em que participa como atriz (Uma paciência selvagem me trouxe até aqui, de Érica Sarmet) fez Zélia sentir-se mais à vontade para falar, por exemplo, de temas como a invisibilidade lésbica. “Participando do curta, eu vi que aquelas meninas estavam falando sobre uma coisa muito séria para a minha vida: a invisibilidade lésbica. Como ela nos faz mal, como ela fere. A gente tem que gostar de quem a gente é, tem que achar o lugar de se colocar e se esconder o mínimo possível”, relata Zélia. Isso não significa, no entanto, que até então o tema fosse invisível a ela e outras de sua geração, mas que a maneira de se expressar era diferente. “Cassia (Eller) não falava sobre isso e contribuiu de uma maneira absurda. Ela era tímida, não queria elaborar nada. Porque ela era, ela já era aquilo. É um exemplo que eu amo dar, não só por ser uma amiga querida, uma pessoa do meu coração, mas porque ela contribuiu pelo fato dela ser”. “O que eles mais têm medo é do nosso desejo” Sempre em defesa da arte como um antídoto, Zélia Duncan acredita nesta potência contra o obscurantismo que odeia a cultura brasileira. Acredita que não somente sua voz, mas também o corpo seja um instrumento de resistência. “O corpo da mulher já é isso. O corpo como artista, então, não tem como não ser”. Por isso, posiciona-se sem medo de críticas e ataques, apenas exige respeito. “Eu aprendi a me expor do meu jeito. Aprendi que não quero me calar. Não precisa pensar igual a mim, mas não vai entrar na minha rede pra me ofender”, conta a cantora, que bloqueia aqueles que reagem com ódio e ataques. Com medo do futuro, diz não se arrepender por não ter sido mãe ao olhar para o mundo. Mas acredita na esperança, que pode haver uma saída para uma transformação. “Eu tenho esperança de que o Brasil melhore, então eu vou pra rua. Já que ele está piorando, que um dia ele pare de piorar pra gente conseguir melhorar. Mas a gente vai estar aqui, né? Mercado de música acabou, mas a gente não acabou. A gente está aqui”. Apaixonada pelo que faz, enxerga o palco como momento sublime de encontro com as pessoas. “Quando sinto a minha música tocar, quando estou muito integrada à plateia, é uma sensação de ‘valeu a pena’. E vale a pena”, diz. “Eu canto por causa das palavras. As palavras, para mim, são mais importantes que tudo. Quando estou cantando, quando estou atuando, é o bom e velho palco que está lá e a gente em cima dele tentando dar sentindo pra a vida”. Questionada se prefere o desejo ou a vontade, sem hesitar, uma doce e generosa Zélia escolhe o desejo – e faz questão de explicar. “O desejo é a força da vida”, diz ao refletir sobre a força de realizar, lutar e perseverar, revelando a potência da luta e da percepção feminina da mulher que carrega em si grandes marcas do passado, lindas lutas no presente e longos caminhos que se abrem. “Acho que (desejo) é a palavra mais aterrorizante que existe, porque ela é tão maravilhosa e assusta tanta gente. Os homofóbicos, os misóginos, essa gentalha que saiu dos bueiros de Brasil. O que eles mais têm medo é do nosso desejo. Eles não se conformam, porque o nosso desejo fareja nossa liberdade. E encontra”, deseja Zélia. Assista ao vídeo da entrevista no Canal Todo Tanto: https://www.youtube.com/watch?v=Q1CGIe_oeBg&feature=youtu.be