o colunista

por Cleber Lourenço

18 de junho de 2019, 06h00

O Colunista conversa com Alexandre de Santi, do The Intercept Brasil

Em entrevista a Cleber Lourenço, editor do The Intercept Brasil diz: “Eu acho que eles (Moro e Dallagnol) estavam muito convictos de que eram intocáveis, que nunca seriam pegos no contrapé em uma situação dessas, mas foram”

Foto: The Intercept Brasil

Esta semana conversei com Alexandre de Santi, deputy editor (equivalente a editor adjunto aqui no Brasil) do The Intercept Brasil. Pontual e sempre com uma opinião na ponta da língua, conversamos sobre o furacão que a Vaza Jato trouxe para o judiciário brasileiro, suas consequências e o que pode estar por vir.

Abaixo, transcrevi os principais pontos da entrevista e, ao final do texto, você pode conferir a entrevista na íntegra em áudio, tanto para ouvir no player quanto para download.

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O Colunista: Como você enxerga o jornalismo brasileiro? Há muita “publicidade” disfarçada de jornalismo?

Alexandre: Eu acho que tem. Houve uma cultura muito grande tanto dos jornais quanto das TVs de emplacar veículos nacionais de grande abrangência (…) Então, nesse negócio delas serem muito grandes. Elas tinham a necessidade de agradar muita gente. Agradar grandes anunciantes, diferentes e vários tipos de governos, vários partidos diferentes (…).

A imprensa brasileira, por muito tempo, nessa grandiosidade, porque o Brasil é um país continental, gigantesco, os caras tinham que conciliar muitos interesses.

Não acho que seja uma publicidade disfarçada, é mais um jogo de palavras (…) O que acho é que é mais uma estratégia de negócio, mais que jornalística de tentar agradar muita gente ao mesmo tempo.

(…) Meio que tenta agradar todo mundo e meio que não agrada ninguém ao mesmo tempo.

O Colunista: Nos vazamentos há algo que de fato possa comprometer a Rede Globo? Por isso o pânico da emissora em desmerecer os vazamentos?

Alexandre: Eu não poderia dar nenhum detalhe sobre isso. Mas o que eu posso dizer é que eu, pessoalmente, não vi nada que comprometeria a emissora, em absoluto.

Mas como o pessoal já disse (Glenn e Leandro Demori), o material é muito vasto (…) A gente já encontrou conversas de repórteres conhecidos nossos lá. Gente que a gente conhece. Tiveram conversas com os procuradores e aparecem lá. Então, é possível que exista alguma coisa.

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Mas é preciso esclarecer isso, o arquivo é muito grande, né? A gente não conseguiu ler nem uma fatia relevante de tudo. As histórias que a gente encontrou, a gente encontrou, pois nós usamos métodos para tentar focar dentro de assuntos e datas.

Mas isso não significa que conseguimos mergulhar fundo e ter uma boa noção de tudo que tem lá dentro. Então, no futuro pode aparecer de tudo mesmo.

O Colunista: Talvez você possa nos ajudar com um enigma lançado pelo Noblat. Ele disse em seu Twitter que o próximo pacote de mensagens reveladas será em conjunto com outro grande portal. Você poderia nos dar uma pista sobre isso? Ou é muita especulação?

Alexandre: Não, não… A declaração tem algum sentido sim. Como o arquivo é muito grande, a gente está considerando buscar parceiros que possam nos ajudar. Porque depender apenas da equipe do The Intercept para vasculhar isso tudo pode demorar muito tempo. Então, isso está no horizonte, mas os detalhes eu não posso fornecer evidentemente.

Faz parte da nossa estratégia tentar enxergar se existem parceiros possíveis de a gente conseguir confiar neles.

Quem está liderando este processo, além do (Leandro) Demori, é o Glenn, que já teve uma experiência dessas com o arquivo Snowden. Então, não é novidade para ninguém que ele já trabalhou com esse tipo de parceria. Seria algo parecido.

O Colunista: Alguns pontos criticados por Moro e Deltan sobre os vazamentos são defendidos nas “10 medidas contra a corrupção”. São eles o teste de integridade e provas adquiridas de forma ilícita. Qual a sua opinião sobre esse contraste gritante de posicionamentos?

Alexandre: Eu acho que são duas coisas… Primeiro, muitas das ações deles são anteriores às notícias do suposto hack (…) A tese do hack dá a eles a desculpa que eles precisam para poder dizer que… Sei lá… Que o conteúdo seja forjado… Mas isso tudo é muito recente… Então, no passado, eles falaram muito sobre a possibilidade de uso de prova ilícita, defenderam vazamento… Entendeu?

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O Moro, até dia 9 de abril, estava no Bial dizendo que: “Não importa como foram conseguidas as provas, a gente tem que focar no conteúdo”.

Então, até dia 9 de abril o cara estava batendo nessa tecla. No passado, o que eu posso dizer é que eles fizeram esse tipo de avaliação, tomaram esse tipo de opinião pensando já numa ideia de que eles tinham muito poder e jamais iriam ser pegos em uma situação dessas. Eu acho que eles estavam muito convictos de que eram intocáveis.

Então, eu acho que essa falta de coerência se deve muito a essa sensação de que eram meio intocáveis, que nunca seriam pegos no contrapé em uma situação dessas, mas foram.

E outra coisa que eu acho é que a defesa deles, desde domingo passado, está muito errática (…) pra pessoas que são do meio jurídico, né? É até surpreendente porque o mínimo que você imagina quando está envolvido numa situação dessas é que combine as versões. Ou liga para elas, fala com seus advogados. Eles foram dando mais de uma versão numa única nota oficial e depois publicavam uma ou duas, três notas oficiais acrescentando novas versões.

O que me bate é que assim. Eles dizem que não reconhecem, o que é diferente de dizer que é forjado. Acho que só o Carlos Fernando (ex-procurador envolvido na Vaza Jato) chegou a dizer claramente que acha que os diálogos são forjados.

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Isso que é importante para as pessoas. Que fique claro para as pessoas o que que é forjado, onde foi forjado e de que forma foi forjado. A acusação é deles! O ônus da prova é deles, eles que estão acusando o suposto hacker ou a nossa fonte de ter forjado alguma coisa. Então, o ônus da prova é deles! Eles que têm que dizer exatamente onde, como isso foi feito e por que aquele discurso foi manipulado… Pra gente entender o que que é. Essa obrigação não é nossa, pois a gente confirma que os diálogos são verdadeiros.

O Colunista: Como está sendo sua rotina e a rotina do The Intercept com esse furacão?

Alexandre: A nossa redação é pequena, eu posso dizer que 70% da redação estava envolvida nisso direto por umas duas, três semanas antes de a gente publicar a primeira matéria. Então, estava bem caótico. Eu, por exemplo, tive mais reunião com advogado do que sobre jornalismo.

Tinha muita coisa pra ser pensada e resolvida. Procedimentos de segurança que tomamos antes, procedimentos para poder garantir a integridade desse material.

Há pelo menos dois grupos: um de gente especulando quais são as estratégias do The Intercept em publicar as matérias assim, uma a cada dois dias e qual a estratégia por trás disso.

E outra são as pessoas que estão meio assim, cobrando agilidade no sentido de dizer assim: “Aaaaah! Tem que publicar tudo de uma vez! Não pode deixar o país nessa expectativa! (…) Por que demoram tanto?!”

A questão é o seguinte, a gente está publicando na velocidade máxima que a gente consegue. A nossa estratégia é publicar tudo o mais rápido que a gente pode, né? E a velocidade que a gente consegue é essa.

Gostou? Confira a entrevista na íntegra logo abaixo:

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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