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15 de março de 2018, 11h56

O golpe mata. Viva Marielle!

As elites e seus braços armados ficam cada vez mais ousados, a ponto de eliminar, sem receios, quadros da esquerda com muita visibilidade pública

Por Julian Rodrigues*

Quem ainda está vivo não diga: nunca!
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados”  
Brecht

Executaram Marielle.

Vereadora carioca, eleita com 46 mil votos. A quinta mais votada na última eleição para Câmara de Vereadores – novidade espetacular. Mulher de esquerda, preta e feminista, defensora dos direitos humanos. Uma jovem intelectual que dedicou sua vida a enfrentar a brutalidade do Estado e defender o povo preto e pobre –  e as mulheres, e a juventude.

A sangue frio foi morta. A tiros. Mataram também o motorista do seu carro e feriram gravemente a assessora que a acompanhava. Marielle Franco não se calava. Não estava na política por acaso. Não foi eleita vereadora para fazer número. Denunciava todos os dias os abusos e a violência (letal) da Polícia Militar nas favelas. Sobretudo em Acari, na zona norte.

Foi simplesmente eliminada na noite dessa quarta-feira, 14 de março, no centro do Rio de Janeiro, ao voltar de um evento com o tema: “jovens negras movendo as estruturas”.

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A barbárie avança, e avança muito. Sem pudor.

Trucidaram uma parlamentar do PSOL. O golpe é assim: vai tirando direitos e liberdades, aos poucos. E vai sinalizando que tudo é permitido. Colocam o Exército na rua para criar um factoide e reforçar as ideias mais conservadoras e autoritárias. A aposta, de novo, é na criminalização da pobreza.

Reparem. No último dia 24 de janeiro pistoleiros executaram Márcio Matos na frente de seu filho de seis anos. O Marcinho: um jovem baiano, conhecido nacionalmente, dirigente do MST e do PT. Agora, simplesmente alvejam Marielle Franco, a preta corajosa, inteligente, carismática, vereadora do PSOL no Rio.

Não é novidade o assassinato de lutadores e lutadoras do povo, sobretudo no campo. O Brasil tem altos índices de execução de defensores de direitos humanos.

Mas é preciso considerar a mudança de cenário político. O novo clima que impera no país.  O golpe funciona como uma espécie de “licença pra matar”. As elites e seus braços armados ficam cada vez mais ousados, a ponto de eliminar, sem receios, quadros da esquerda com muita visibilidade pública.

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Lembremo-nos que o imbecil fascistoide tem quase 20% das intenções de voto para presidente. E conta com um forte apoio em setores da juventude.

Não se faz uma intervenção do Exército impunemente. Não se exacerba o ódio e a intolerância sem consequências. Não se fortalece o Estado penal, o punitivismo e o moralismo hipócrita a troco de nada.

Os golpistas se preparam para prender o maior líder do país, nosso maior ícone popular. A temporada de caça à esquerda está aberta. E eles acham que tudo podem.

Não vamos aceitar, nem nos calar.  Os tempos são de guerra.  Preparemo-nos. Sem ilusões – as classes dominantes não têm compromisso nenhum com a pluralidade, com a democracia e nem mesmo com valores civilizatórios.

Vamos resistir e reagir. Antes que matem mais dos nossos.

Viva Marielle!

Marielle, presente!

*Julian Rodrigues é socialista.  Defensor dos direitos humanos, ativista LGBT e militante do PT-SP.