Raphael Silva Fagundes

06 de julho de 2019, 15h16

O homem que engravidou Maria

Raphael Fagundes: “Francisco percebeu que a sua pesquisa, embora houvesse tomado proporções inimagináveis, ainda podia ser concluída e que deveria fazer isto em nome de seu amigo que se decompunha perante seus olhos”

Foto: Reprodução

O ano era 2050. O arqueólogo mais conceituado do Brasil, Francisco Prado Jr., em parceria com o professor de Ciência da Religião, Charles Pecheux, descobriu um artefato que abalou a estrutura do cristianismo. Eles trouxeram a público o homem que havia engravidado Maria, mãe de Jesus Cristo.

Era Atronges, um líder religioso e revolucionário que atuou entre o ano 2 a.C. e 6 d. C. Atronges se dizia descendente direto do rei Davi e, junto a seus irmãos, liderou exércitos contra os romanos com o objetivo de libertar toda a Jerusalém do domínio estrangeiro.

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Após um simpósio temático, no qual Francisco havia apresentado detalhes da vida do verdadeiro pai de Jesus, o arqueólogo se encontrava no aconchego de seu lar, reeditando um texto no qual explicava que suas revelações não se tratavam de uma traição de Maria, mas de um acordo entre ela, José e Atronges em prol da causa dos judeus. Foi quando três homens armados invadiram o seu apartamento para capturá-lo.

Aos 40 anos, Francisco ainda era ágil o suficiente para driblar os móveis de sua casa e fugir pela janela dos fundos. Mas parte de sua pesquisa havia ficado para trás, inclusive os documentos originais de sua descoberta, uma carta de amor de Maria e um pergaminho de Atronges, que revelava a sua legítima unção ao trono de Jerusalém.

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Grande parte de sua pesquisa estava salva em nuvem. Mas as fontes encontradas na Judéia ainda não haviam sido digitalizadas. Ou seja, a única prova que se tinha estava agora nas mãos daqueles invasores.

Os telões das ruas do centro cosmopolita que se tornara o Rio de Janeiro anunciavam o seu rosto. Ele estava sendo caçado.

A pesquisa de Francisco e de seu amigo era extremamente ousada em termos de Brasil, já que os políticos eram, em grande parte, pastores de igrejas neopentecostais, ou praticantes de alguma seita protestante. Um fundamentalismo de direita estava impregnado no governo, prejudicando os diversos níveis das liberdades democráticas.

O presidente era considerado um mito, e em seu nome havia a palavra “Messias”. O problema era que Atronges, além de pôr fim à santidade que envolve o nascimento de Cristo, era também um messias nacionalista, contrário à dominação romana. O Brasil de então era dominado pelas multinacionais estadunidenses, e dezenas de regiões estratégicas do país foram cedidas aos Estados Unidos. Nestes locais, estava proibida a entrada de brasileiros.

Ou seja, a descoberta de Francisco poderia desenvolver na população um sentimento nacionalista, mantendo a santidade de Cristo (quanto à santidade de Maria não importava mais, já que o catolicismo havia se tornado minoria há 25 anos) decorrente da de seu verdadeiro pai, Atronges.

Francisco se escondia nos becos e se esgueirava pelos lugares mais escuros da cidade poluída. O excesso de gases tóxicos presenteou o centro urbano com uma neblina que facilitava os propósitos de qualquer fugitivo.

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O arqueólogo procurado resolveu ir até o apartamento de seu parceiro de pesquisa, pois ligara várias vezes sem obter respostas. Ao chegar ao corredor do andar onde se localizava o apartamento de Charles, Francisco topou com uma poça de sangue que escorria pelo vão da porta. Ao abrir, viu o corpo de seu amigo.

“Que absurdo!”. “Esses malditos covardes!”. Francisco percebera que, se tivesse escolhido ficar na França, seu amigo ainda estaria vivo. Mas foi o próprio Charles que insistiu em vir para o Brasil apresentar aquelas descobertas aos jovens universitários.

Francisco entendeu que, definitivamente, aqueles brutamontes não estavam de brincadeira. Ligou a TV e se sentou ao lado do corpo de seu amigo. Notícias sobre sua procura pipocavam na tela. Os jornais o chamavam de herege, comunista, antipatriótico, anticristo etc. Acreditou que os homens não voltariam ao apartamento de Charles, já que estava todo revirado, portanto, não havia mais nada a fazer ali.

De repente, o sol já estava a iluminar a cidade novamente. Perguntou-se como conseguira dormir em meio a toda aquela aflição. O corpo de seu amigo, ao seu lado, já estava duro. Pela janela, avistou um batalhão de drones que o procuravam. Lá embaixo, em meio ao Largo da Carioca, um palanque foi montado no maior estilo medieval. Um homem de capuz preto segurava o pergaminho encontrado por Francisco e seu amigo. Uma cruz foi erguida no meio da praça, onde pregaram o texto, tido como diabólico. Uma fogueira foi acesa.

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De longe, foi possível observar a presença da TV, de diversos repórteres e de uma multidão com a camisa da seleção brasileira de futebol. O presidente, o ministro das Relações Exteriores e o ministro da Educação estavam presentes. Vestiam uma túnica preta. E foi exatamente no momento em que colocaram o capuz que cobriam os seus rostos que a fogueira foi acesa.

Aquele ato obscurantista havia sido o ápice de uma tirania que dominava o país há 20 anos. As pessoas estavam ensandecidas. Era uma verdadeira caça às bruxas.

Contudo, quando o auge daquele ato cênico acabara de começar, um pequeno grupo que se intitulava Sicários Vermelhos passou de carro e lançou bombas naquele cenário, que mais parecia um ritual macabro do Santo Ofício medieval. Conseguiram recolher partes do pergaminho e deram início a uma luta nacionalista de esquerda.

Foi então que Francisco percebeu que a sua pesquisa, embora houvesse tomado proporções inimagináveis, ainda podia ser concluída e que deveria fazer isto em nome de seu amigo que se decompunha perante seus olhos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.