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07 de março de 2019, 06h06

“O momento exige uma oposição intransigente às medidas do governo”, diz Juliano Medeiros

Presidente nacional do PSOL afirma que “é preciso um enfrentamento radical à agenda de ataques aos mais pobres. Se depender do partido, o governo só colecionará derrotas no Congresso Nacional. Mas, para isso, precisaremos também de muita mobilização popular nas ruas”

Foto: PSOL Nacional/Divulgação
Para o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, há um importante debate na esquerda sobre qual a melhor tática para enfrentar o governo Bolsonaro, diante da perda de direitos que a agenda bolsonarista pretende levar adiante. “Esse é um debate muito legítimo, que precisa ganhar espaço na esquerda, porque ninguém tem uma ‘fórmula mágica’ para derrotar o projeto de retrocessos representado pelo bolsonarismo. No entanto, nós do PSOL, estamos bastante convencidos de que o momento exige uma oposição intransigente às medidas do governo”, reflete. Isso, explica Juliano, não tem nada a ver com “torcer contra o Brasil”. “Por uma razão...

Para o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, há um importante debate na esquerda sobre qual a melhor tática para enfrentar o governo Bolsonaro, diante da perda de direitos que a agenda bolsonarista pretende levar adiante.

“Esse é um debate muito legítimo, que precisa ganhar espaço na esquerda, porque ninguém tem uma ‘fórmula mágica’ para derrotar o projeto de retrocessos representado pelo bolsonarismo. No entanto, nós do PSOL, estamos bastante convencidos de que o momento exige uma oposição intransigente às medidas do governo”, reflete.

Isso, explica Juliano, não tem nada a ver com “torcer contra o Brasil”. “Por uma razão simples: se o projeto de Bolsonaro se viabilizar, o povo brasileiro será o maior derrotado, porque vai perder direitos, aumentará o desemprego, a violência e o sofrimento da maioria.”

Essa projeção se baseia no fato de que o projeto do governo é elitista por natureza. “Por isso, é preciso evitar que ele se consolide, com um enfrentamento radical à agenda de ataques aos mais pobres. Se depender do PSOL, o governo só colecionará derrotas no Congresso Nacional. Mas, para isso, precisaremos também de muita mobilização popular nas ruas”, avisa.

Diferenças

Juliano reconhece que esse caminho não será fácil, pois há, entre os partidos de oposição, diferenças importantes.

“Especialmente no que diz respeito à tática para enfrentar o governo Bolsonaro, como ficou evidente na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Enquanto PT, PSOL, PSB e Rede buscaram uma demarcação clara com Rodrigo Maia, candidato de Bolsonaro, outros partidos optaram por apoiá-lo”, relembra.

Contudo, em sua avaliação, essas diferenças não devem ser empecilho para travar os grandes enfrentamentos que seguirão.

Nas duas principais batalhas que estão por vir – a reforma da Previdência e o pacote de ampliação do Estado Penal apresentado por Sérgio Moro – Juliano observa que o nível de unidade é bastante grande.

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“É claro que pode haver diferenças táticas, por exemplo, sobre a conveniência de estabelecer uma negociação com o ministro Paulo Guedes na perspectiva de mitigar os ataques aos direitos dos aposentados, mas isso a gente vai acertando durante a caminhada”, afirma.

“Acho, portanto, que as diferenças vão continuar existindo, que às vezes elas até poderão provocar algumas disputas no campo da esquerda, mas que no final vai predominar a responsabilidade histórica de barrar os ataques de Bolsonaro e seu governo ao povo brasileiro”, aposta.

Instabilidade

Em relação aos dois primeiros meses de governo Bolsonaro, o presidente do PSOL tem a impressão de que há muita instabilidade e certa dificuldade de estabelecer prioridades.

“Embora o sentido geral da agenda governista esteja mais ou menos claro – uma agenda autoritária e conservadora nas políticas sociais e ultraliberal na economia – até agora não há uma única medida que tenha provocado um impacto positivo na opinião pública”, destaca.

Na avaliação de Juliano, isso explica a discrepância entre a aprovação do governo (39%) e a aprovação do presidente (57%), como demonstra a pesquisa divulgada pela CNT/MDA. Como é natural, o presidente recém-eleito ainda desfruta de popularidade, mas seu governo provoca muita insegurança.

“Isso se deve à ausência de medidas práticas para enfrentar os grandes problemas do país, como o desemprego ou a precariedade dos serviços públicos, mas também ao desgaste promovido pelas denúncias contra Flávio Bolsonaro, Gustavo Bebianno e agora contra Luciano Bivar (presidente do PSL) e Marcelo Álvaro Antônio (ministro do Turismo)”, acrescenta.

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Para Juliano, o panorama sinaliza para um governo que toma medidas impopulares. “Nem o decreto que flexibiliza a posse de armas caiu no gosto da maioria da população. Além disso, há muitas denúncias. Se a incompetência e corrupção que estão sendo revelados nesses primeiros dois meses chegarem a Bolsonaro, sua capacidade de liderar o governo será severamente comprometida”.

Ministros

Boa parte dos ministros de Bolsonaro faz do Brasil motivo de piada internacional, como Vélez Rodríguez, Damares Alves e Ernesto Araújo. No entanto, Juliano faz um alerta.

“É claro que essa turma gera bons memes, mas não podemos tratá-los apenas como piada. Vejo que o governo tem quatro núcleos de comando, sem um líder forte o bastante para controlá-los: o núcleo econômico, liderado pelo Paulo Guedes; o núcleo da Lava Jato, liderado pelo Sérgio Moro; o núcleo militar, onde o general Heleno dá as cartas; e o núcleo político-ideológico do bolsonarismo, onde estão esses ministros.”

Juliano diz que, apesar de atrapalhados, eles têm uma função ali: “manter os vínculos do governo com os valores mais atrasados da sociedade brasileira que, infelizmente, ainda é muito machista, homofóbica, racista, e desinformada, o que favorece a disseminação de absurdos como ‘kit gay’ ou ‘URSAL’. Por isso, embora me divirta com os absurdos que eles produzem, estou entre aqueles que pensam que é preciso entender melhor a mentalidade desse Brasil profundo que elegeu Bolsonaro e tratar com seriedade os ataques que esse trio pode produzir”.

Tutela militar

Uma das características mais marcantes do governo Bolsonaro é a presença de um grande número de militares. “Eles compõem um dos núcleos do governo. Conhecem o Brasil, tem uma visão estratégica de como enfrentar certos problemas e transitam na máquina do Estado como poucos”.

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Esses fatores, para Juliano, ganham mais força pelas limitações políticas, intelectuais e até físicas de Bolsonaro para liderar o próprio governo.

“Eles servem de anteparo às crises institucionais que podem se aproximar do governo, exercendo uma espécie de ‘tutela militar’ permanente. Lembremos como o comandante do Exército, general Villas-Boas, agiu no episódio do julgamento da prisão em segunda instância no STF, que poderia impedir a prisão de Lula. Por isso, estou certo de que a oficialidade das Forças Armadas compartilha de uma visão muito conservadora de sociedade e está bastante comprometida com o projeto de Bolsonaro. É muito preocupante”, resume.

Venezuela

Para o presidente nacional do PSOL, a participação do governo brasileiro no episódio Venezuela é um fiasco completo. “Nenhum governo sério, independente do alinhamento ideológico, poderia legitimar a farsa montada por Trump em torno da ‘autoproclamação’ de um deputado da Assembleia Nacional como presidente da Venezuela”, diz.

“Depois de participar dessa palhaçada, reconhecendo Juan Guaidó, o governo brasileiro ainda se envolveu na ridícula tentativa de envio de ‘ajuda humanitária’ à Venezuela, enquanto os EUA bloqueiam U$ 30 bilhões do governo venezuelano, que seriam fundamentais para mitigar os efeitos da crise econômica”, explica.

Juliano completa, relembrando que por essas questões o PSOL aprovou uma posição categórica, condenando a interferência dos EUA na crise venezuelana e a participação do governo brasileiro nessa operação, e defendendo uma saída pacífica, democrática e constitucional para o impasse.

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