Raphael Silva Fagundes

27 de maio de 2019, 19h41

O nível máximo da insanidade: em defesa do mercado e de um Executivo forte

Raphael Fagundes: “As classes dominantes fazem de tudo para que as pessoas não entendam a política. Por isso, nos períodos em que esse conhecimento se torna mais acessível, as corporações se mobilizam em prol das ideias mais insanas para ludibriar a população e conter a sua explosão consciente”

Foto: Reprodução/Buzz Feed News

“Democracia é a arte de impedir o povo de se interessar por aquilo que lhe diz respeito…, mas que, ao mesmo tempo, obriga as pessoas a decidir sobre o que nada entendem”. Essa frase de Paul Valéry resume bem o que vemos nas passeatas em defesa do governo.

É lógico que as pessoas que ali estavam pensam muito mais por meio de princípios ideológicos, moralistas etc., que por meio da prática. Para muitos, escolher entre cortar recursos da educação e cobrar impostos das igrejas, a primeira opção seria muito mais viável para o progresso do país. Escolher entre retirar direitos trabalhistas e aumentar a tributação das grandes fortunas, seria intragável concordar com a última proposta.

Eles não se interessam pela educação ou pela saúde e ampliar o acesso a essas grandezas iria ferir a forma como entendem sobre aquilo que não entendem.

Grande parte ali é massa de manobra de empresários leigos e religiosos que pagam por meio de moedas materiais e espirituais. E se a esquerda tem seus “idiotas úteis”, a direita teve o prazer de exibir os seus.

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Contudo, todos esses movimentos têm um lado. Nenhum está a favor do povo. Até porque, “povo” é uma palavra vazia que qualquer um que a usa pode dar o sentido que bem entende. Existem interesses práticos. Os professores e os estudantes defendem a educação, os trabalhadores uma previdência justa. Os manifestantes deste domingo (26) defendiam os interesses empresariais que, por sua vez, clamam pela reforma, por investimentos estrangeiros, menos Estado e mais força ao Executivo.

Os professores e estudantes querem a ação do Estado, investimentos públicos. Já os bolsonaristas querem, de forma contraditória, um Executivo forte e um Estado fraco para que prevaleça o livre-mercado. Essa mistura é a mais perigosa que pode haver na política se pensarmos, evidentemente, na perspectiva da população desamparada. Um Executivo que se sobreponha ao Legislativo e ao Judiciário já é ruim. Imagine se as corporações tiverem mais força que esses dois últimos?

Curiosamente, somente a democracia permite que alguém defenda uma mistura tão insana e tóxica para a população. É a maneira mais radical de impedir ao “povo” que tenha o direito de defender o que é de seu interesse.

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As classes dominantes fazem de tudo para que as pessoas não entendam a política. Por isso, nos períodos em que esse conhecimento se torna mais acessível, as corporações se mobilizam em prol das ideias mais insanas para ludibriar a população e conter a sua explosão consciente. Vivemos no vórtice desse período! As manifestações que presenciamos na atualidade representam cada lado dessa moeda política: de um lado, os que adquiriram um certo grau de consciência política prática; de outro, os que servem para conter essa explosão de consciência. A retirada da faixa em defesa da educação em frente ao prédio da UFPR pelos manifestantes, deste domingo (26), é a prova do que estamos querendo descrever aqui.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.