Outrofobia

10 de abril de 2014, 12h37

o peso da história: a escravidão e as cotas

a história é uma bola de ferro que bisnetos e bisnetas das vítimas da escravidão ainda arrastam pelos tornozelos. seus efeitos nocivos continuam se fazendo sentir todos os dias.

eu (nascido em 1974) cursei o ensino fundamental no colégio santo agostinho (um dos melhores da cidade), o médio na escola americana do rio de janeiro (na época, a mais cara do brasil) e, depois, história no ifcs/ufrj (turma de 1999) porque meu pai cresceu em botafogo, fez o ensino médio no colégio andrews (tradicionalíssimo) e se formou bacharel em economia (turma de 1970) pela mesma ufrj.

meu pai (nascido em 1946) estudou na ufrj porque meu avô estudou engenharia no instituto eletrotécnico de itajubá, atual universidade federal de itajubá (turma de 1938) e trabalhou durante muitos anos para a chesf (companhia hidro-elétrica do são francisco), inclusive nas obras do complexo hidrelétrico de paulo afonso.

meu avô (1909-1989) foi engenheiro porque meu bisavô (1876-1965) saiu do mato grosso (onde seu pai, veterano do paraguai, estava servindo desde a guerra) pra estudar no colégio militar do rio de janeiro, onde foi comandante-aluno de 1897 (ou seja, tirou dez em tudo e foi imortalizado numa plaquinha), formou-se engenheiro militar, participou do episódio dos 18 do forte de copacabana e reformou-se coronel.

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em 1888, com 12 anos de idade, meu bisavô estudava na capital do império, em um dos melhores colégios públicos do país, com bolsa integral, soldo e emprego garantido após a formatura.

se, ao invés disso, nesse mesmo ano, ele tivesse sido libertado (leia-se posto pra fora de casa) com a roupa do corpo, analfabeto e despreparado, sem conhecer pai e mãe, desprovido de qualquer poupança ou bens*, teriam seus filhos e netos e bisnetos estudado nas melhores escolas e universidades do país e feito parte da elite brasileira?

sem esse capital socioeconômico e cultural acumulado pelo meu bisavô em 1888 (para não irmos mais longe), onde teria ido parar a cadeia de acontecimentos que desembocou na minha vida? estaria eu, nesse momento, sadio e medindo 1,80m, cursando um doutorado no exterior e escrevendo essas linhas? dentre minhas realizações, quantas são exclusivamente por mérito meu e quantas são consequência direta da vida privilegiada que eu e meus antepassados levamos? que tipo de dívida eu tenho com as pessoas que não tiveram tanta sorte? será ético simplesmente dizer “sorte minha, azar deles, e foda-se, hoje já nivelou tudo e no vestibular todos têm chances iguais”?

dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos bisnetos e bisnetas das vítimas diretas, não é tarde demais para serem indenizadas pelo estado.

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e as cotas são um bom começo.

cotas raciais ou cotas sociais?

ser a favor de cotas raciais não quer dizer ser contra cotas sociais. aliás, não conheço nenhuma pessoa que defenda cotas raciais e que seja contra cotas sociais.

o problema é que quando se aplicam só cotas sociais (por renda, para pessoas oriundas de escolas públicas, etc), o que se vê são pessoas brancas se beneficiando delas desproporcionalmente mais do que negras ou indígenas.

o objetivo das cotas é corrigir distorções: se apenas fizermos cotas para corrigir as distorções sociais, corremos o risco de aprofundar ainda mais as distorções raciais.

precisamos corrigir todas.

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um link: por que as cotas raciais deram certo no brasil

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*riqueza [wealth] é um indicador mais importante de desigualdade racial do que renda pois, ao ser transmitida de uma geração a outra, acaba reproduzindo injustiças históricas ao longo do tempo. por exemplo, nos estados unidos hoje, enquanto a renda dos negros é 75% da dos brancos, sua riqueza líquida é de somente 18%. (telles, 116, mills, 37-38)

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