Rodrigo Perez Oliveira

18 de junho de 2019, 23h07

O principal intérprete da crise brasileira

Rodrigo Perez Oliveira: “Lula disse que Moro estava sendo diretamente comissionado pelo Departamento de Estado dos EUA, interessado nas riquezas energéticas brasileiras. Será que os arquivos do Intercept sustentam essa interpretação?”

Foto: Divulgação

Já há duas semanas que o debate político brasileiro gira ao redor dos vazamentos da comunicação privada entre os operadores da Lava Jato, que vêm sendo organizados pelo site Intercept, liderado por Glenn Greenwald, renomado jornalista norte-americano.

Até agora, o material vazado traz à luz do dia a conspiração entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, entre o juiz e o acusador que atuaram na condenação de Lula. A conspiração, em si, não é novidade para quem acompanhou o processo com alguma atenção. Por várias vezes ficou claro que Sérgio Moro não agia como juiz imparcial.

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Ainda assim, a revelação de documentos que comprovam a conspiração é fato político de primeira importância, pois torna público o alto grau de corrupção de nossas instituições. É impressionante que Lula ainda esteja preso. O mínimo que deveríamos esperar de um judiciário sério e honesto seria a imediata libertação de Lula, nem que fosse provisoriamente, até que o caso fosse julgado por uma junta técnica formada por profissionais de fato imparciais.

Não aconteceu. Lula ainda não foi solto. Mas o Intercept promete mais vazamentos, “material bombástico”, nas palavras do próprio Greenwald. Todos aguardamos com ansiedade a próxima divulgação, quase sem prestar a devida atenção nas movimentações de Bolsonaro, que ao demitir Santos Cruz e Joaquim Levy sinaliza uma ainda maior radicalização à direita.

Bolsonaro começa a se livrar dos assessores moderados, dos técnicos que estavam, de alguma forma, constrangendo seus movimentos. Ao que parece, o olavismo venceu a disputa interna pelo governo, que vem sendo travada desde antes da posse.

Mas tudo isso está um tanto ofuscado pela esperança de que o Intercept puxe da manga a grande cartada, a bomba capaz de virar jogo e refundar a relação de forças.

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O site adotou como estratégia publicar os documentos aos poucos, em doses homeopáticas, levando os envolvidos a caírem constantemente em contradição. Greenwald já ganhou o Pulitzer, o prêmio Nobel do jornalismo. Deve saber o que faz.

Da minha parte, fico meio desconfiado se essa estratégia é adequada ao Brasil, caso único no mundo no que se refere ao monopólio da comunicação. Desde que veio a público o primeiro vazamento, o departamento de jornalismo da Rede Globo está criminalizando os vazadores, abrindo espaço para Moro e Dallagnol se defenderem, dizendo que esse tipo de tratativa entre juiz e procurador é normal. Nas entrelinhas, há ainda outra justificativa: se os dois agiram de forma, digamos assim, pouco ortodoxa, é porque o crime organizado exige a flexibilização dos procedimentos. Os fins justificariam os meios.

Receio que a estratégia de liberar o material aos poucos tenha efeito contrário ao esperado e as pessoas acabem se acostumando com esse tipo de notícia, naturalizando os desvios denunciados. A crise brasileira é atravessada por um conceito restrito de corrupção: corrupção é só roubo de dinheiro público. Fraudar processo legal não é lido socialmente como ato de corrupção.

Mas, enfim, repito: Greenwald e seus colegas são jornalistas experimentados, premiados. Sabem o que fazem, espero.

Mas nem é essa estratégia o tema central deste ensaio. Quero mesmo é discutir o método de divulgação do material.

Até agora, o modus operandi foi sempre o mesmo: a documentação divulgada é precedida por um editorial, onde o jornalista analisa o material, pautando o leitor.

Trata-se de procedimento bem diferente daquele que caracterizou o tão conhecido escândalo do Wikileaks, quando o material foi publicado em estado cru, para consulta pública, sem qualquer mediação editorial. O próprio Greenwald já disse que “não somos o Wikileaks”, o que sugere que até o esgotamento do material, a divulgação será feita sempre sob o estrito cuidado da equipe editorial do Intercept.

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Não é questão menos importante, de simples procedimento, como se a forma de divulgação não alterasse o conteúdo vazado. Somente pessoa muita ingênua poderia acreditar em tamanha desvinculação entre forma e conteúdo. Tive um grande mestre que dizia ser a ingenuidade o pior defeito a ser identificado em pessoa adulta.

Enfim.

Quando o Intercept, periodicamente, publica seu material em perspectiva editorial, ele está fazendo algo mais do que simplesmente reportar. Está formulando uma interpretação da crise, agindo de modo semelhante aos historiadores, que se debruçam sobre fontes primárias, recortam o material e o utilizam, sempre, seletivamente.

É essa natureza seletiva do uso das fontes primárias que permite algo muito comum na ciência histórica: dois ou mais historiadores se debruçam sobre o mesmo acervo de fontes e desenvolvem interpretações diferentes do mesmo conjunto de fenômenos.

A diferença é que o material manipulado pelos historiadores, pelo menos em teoria, está sempre disponível para a consulta pública. O historiador é obrigado pelos ritos da comunidade científica a referenciar suas fontes, permitindo ao leitor a possibilidade da checagem. O mesmo não acontece com o arquivo do Intercept, pois o jornalismo tem a prerrogativa de não revelar sua fonte, de proteger o seu arquivo. Dois ofícios diferentes, com exigências diferentes.

Cabem a nós, leitores e leitoras, acreditarmos, ou não, na interpretação que vem sendo feita pelo Intercept. Não estou duvidando, que fique claro, da veracidade do material vazado. Nem mesmo os envolvidos o fizeram, já que ainda não entregaram seus aparelhos telefônicos para a perícia e nem vieram a público munidos dos originais das conversas para contraditar os editoriais. Há poucas dúvidas de que o material vazado pelo Intercept não seja verdadeiro.

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O que estou problematizando é a interpretação feita pelo site, uma interpretação que, no limite, é impossível de ser confrontada por interpretação alternativa, pois somente os jornalistas têm acesso direto às fontes.

Segundo essa interpretação, Moro e Dallagnol são os grandes vilões da crise, os Mefistófeles tropicais que nas sombras conspiraram contra a democracia brasileira, fraudando as eleições de 2018, ao retirarem Lula da disputa.

Moro e Dallagnol seriam os cérebros por detrás do golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff?

Moro e Dallagnol, juntos, teriam liderado o desmonte da infraestrutura brasileira, ao levar à falência as empresas, os “campeões nacionais”, com expertise no ramo?

Seriam Dallagnol e Moro os idealizadores da farsa chamada “Lava Jato” que pauta a política brasileira há cinco anos?

Ou eles não passariam de operadores a serviço de forças muito mais poderosas?

Lula, por exemplo, em mais de uma ocasião disse que Moro estava sendo diretamente comissionado pelo Departamento de Estado dos EUA, interessado nas riquezas energéticas brasileiras. Será que os arquivos do Intercept sustentam essa interpretação?

Não sabemos, pelo menos não com o conteúdo vazado até aqui. Se por algum motivo desconhecido, o Intercept quiser esconder essa informação, jamais conheceremos a verdade, a não ser que alguém vaze o vazamento.

Nos restou apenas a narrativa do Intercept, que, hoje, é o principal e mais influente intérprete da crise brasileira.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.