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09 de março de 2019, 06h42

O sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado

Ao contar a história que a história não conta, a Mangueira desfilou com um dos maiores sambas de todos os tempos

Foto: Reprodução
Estar no lugar certo na hora certa ajuda. Saber dizer o que todos precisam ouvir também. Mas, nada disso bastaria não fosse o talento. E isso a Estação Primeira de Mangueira tem de sobra. Seu enredo deste ano, com o significativo nome de “História pra ninar gente grande”, parte de um princípio simples, repetido e gasto, mas que, como diversas obviedades, esconde por trás uma enorme grandeza: a história que nos contam na escola não é a que viveram nas ruas nossos antepassados e, muito menos, a que nós vivemos e presenciamos. A partir disso, o samba exige logo de...

Estar no lugar certo na hora certa ajuda. Saber dizer o que todos precisam ouvir também. Mas, nada disso bastaria não fosse o talento. E isso a Estação Primeira de Mangueira tem de sobra. Seu enredo deste ano, com o significativo nome de “História pra ninar gente grande”, parte de um princípio simples, repetido e gasto, mas que, como diversas obviedades, esconde por trás uma enorme grandeza: a história que nos contam na escola não é a que viveram nas ruas nossos antepassados e, muito menos, a que nós vivemos e presenciamos.

A partir disso, o samba exige logo de saída: “Mangueira, tira a poeira dos porões, Ô abre alas pros teus heróis de barracões”. A referência à palavra “porões” evoca de maneira épica não só os dos navios negreiros, como também os da ditadura e os das delegacias espalhadas pelo país afora.

Com coragem pouco comum de dizer o que deve ser dito em espetáculo de tamanha grandeza, a Mangueira escancara e questiona os heróis e os vilões de sempre, vistos do “avesso do mesmo lugar”, em uma reviravolta genial. No seu lugar, os heróis dos barracões.

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“Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra”

A troca de tratamento (meu nego, meu dengo) inverte interlocutores e os aproxima de maneira íntima, deixando claro que fala para os que estão ao lado, para os íntimos e muito próximos.

A letra, com isto, segue rasgando livros com versos secos e diretos: “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento”, exalta.

O insulto à história oficial segue em crescendo vertiginoso até atingir o seu ápice e seu verso chave que expõe de modo fundamental a crueldade oficiosa:

“Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado”

Quem seria o tal herói emoldurado? Quantos retratos em salas de escola e repartições não passam pela cabeça do ouvinte espectador neste momento? Os heróis do samba, no entanto, são outros, a começar pelo Dragão do Mar de Aracati, o lendário Francisco José do Nascimento, o negro líder dos jangadeiros que disse: “neste porto não embarcam mais escravos”.

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A partir daí, um desfiar de heróis que foram “aço nos anos de chumbo” são citados na canção, que partiu de jamelão e Leci Brandão para chegar nas “Marias, Mahins, Marielles, malês”.

O samba, composto por Danilo Firmino, Deivid Domênico, Mamá, Márcio Bola, Ronie Oliveira e Tomaz Miranda é daqueles que bate o seu carimbo na história não só pelo conteúdo, mas também pela forma. Repleto de breques elaborados, ao menos dois refrãos de grande força e melodia rica daquelas que chamam para os grandes sambas da história, “História pra ninar gente grande” é um daqueles capítulos escritos para ficar nas história do carnaval brasileiro.

A história, como diz o samba, do avesso do mesmo lugar. Aquela que a história não conta.

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