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16 de janeiro de 2019, 22h59

ONG ligada à ministra Damares levou malária a indígenas isolados e foi acusada de extrair mogno

Roteiro de missionários incluiu construção de pistas de pouso clandestinas, contrabando de sementes e viagens sem autorização em busca das etnias a serem convertidas; na guerra de propaganda, valeu até fraude em documentário

Divulgação/Jocum
Por Leonardo Fuhrmann, no De Olho Nos Ruralistas Em seu diário, o missionário Nivaldo Oliveira de Carvalho, da Jocum, contava sobre viagem feita em 1995 rumo a territórios de indígenas isolados no Alto Rio Piranha, na Amazônia. “O diabo não esta satisfeito em perder terreno para nós e vai tentar o que estiver ao alcance para nos fazer recuar, voltar atrás”, escreveu. “Mas em nome do Senhor Jesus Cristo continuaremos até o tempo determinado pelo Senhor. Neste local, certamente nem a Funai, nem a Polícia Federal poderá nos encontrar”. Terão sido republicanas as iniciativas da Jovens Com Uma Missão (Jocum),...

Por Leonardo Fuhrmann, no De Olho Nos Ruralistas

Em seu diário, o missionário Nivaldo Oliveira de Carvalho, da Jocum, contava sobre viagem feita em 1995 rumo a territórios de indígenas isolados no Alto Rio Piranha, na Amazônia. “O diabo não esta satisfeito em perder terreno para nós e vai tentar o que estiver ao alcance para nos fazer recuar, voltar atrás”, escreveu. “Mas em nome do Senhor Jesus Cristo continuaremos até o tempo determinado pelo Senhor. Neste local, certamente nem a Funai, nem a Polícia Federal poderá nos encontrar”.

Terão sido republicanas as iniciativas da Jovens Com Uma Missão (Jocum), a ONG à qual pertence a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves?

A presença de missionários da organização tem sido apontada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) nos últimos anos como uma ameaça à preservação cultural, à integridade do território e à própria vida dos indígenas Suruwahá, que vivem no sul do Amazonas, na região do Médio Purus, próximo da divisa com Rondônia.

O Ministério Público Federal tenta, desde 2003, expulsar o grupo evangélico do local, sem sucesso. A presença dos religiosos é apontada como causa de surtos de gripe e malária, doenças que não haviam atingido este povo. A população Suruwahá, que já é pequena, está em queda: de 145 pessoas, em 2004, para 137.

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E tem mais: os missionários são acusados de escravizar indígenas, extração ilegal de sangue, contrabando de sementes (inclusive de mogno, uma das madeiras mais nobres da região) e construção de pistas de pouso clandestinas.

O roteiro da fé ganha toques de aventura, com utilização de radioamador pirata e missões secretas em busca de novos povos isolados. Três jovens missionários foram flagrados pela Funai em 1995 quando tentavam fazer uma expedição ilegal para tentar estabelecer contato com o povo isolado Hi-Merimã.

ONG foi acusada de retirar mogno de terra indígena

A Jocum se aproveitou de uma picada que havia sido feita pela Funai em 1983, ano do primeiro contato oficial dos brancos com os Suruwahá. Criticado por ter aberto um varadouro desde o Rio Cuniuá – habitado pelos ribeirinhos – até o centro das malocas, o coordenador da expedição, Sebastião Amâncio, alegou que fizera contato com um grupo missionário que se estabeleceria na região. A Jocum chegou lá dois anos depois.

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Há informações da presença deles junto aos indígenas desde a década anterior. A primeira denúncia de furto de madeira data de 1988, quando 284 toras retiradas da área indígena Deni foram avistadas boiando no Rio Cuniuá. O responsável pelo desmatamento seria um missionário chamado Kelk, da Jocum (inicialmente identificada como Jovum), e Zena de Oliveira Lopes, o Zena Alecrim. Naquela época, a Funai já identificara quatro pistas de pouso dos missionários dentro de territórios indígenas.

No início dos anos 2000, uma nova denúncia contra a Jocum partiu da Associação Jupaú, do povo Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. Segundo os indígenas, os missionários estavam comercializando ilegalmente sementes de mogno no exterior. A Jocum alegou que as operações faziam parte de um convênio com a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), que não se manifestou sobre o assunto.

As denúncias de que os missionários tentavam abordar (e converter) indígenas isolados veio na década de 1990. Os diários de Nivaldo Carvalho, aquele do “nem a Polícia Federal poderá nos encontrar”, e de outros missionários foram apreendidos quando eles foram flagrados em território dos Hi-Merimã. Legalmente, a abordagem aos grupos isolados só pode ser feita pela Funai.

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Os missionários do grupo já haviam sido flagrados na cabeceira do Rio Branco tentando fazer contato clandestino com os Hi-Merimã no início dos anos 1990. Uma correspondência interna da Funai mostra que os missionários tinham se instalado junto a essa etnia em meados dos anos 1980, sob o argumento de que não necessitavam de autorização porque a área indígena ainda não estava demarcada.

A Jocum alegou na ocasião que buscava os indígenas porque um grupo deles havia saído da mata e feito contato espontâneo com os ribeirinhos. Teriam chegado a morar com uma família, que teria assassinado todos os adultos do grupo, e permanecido com as crianças. Os missionários alegam que foram buscar o contato com os Hi-Merimã para reaproximar os órfãos do grupo.

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