PERIGO À VISTA

Com medo da derrota eleitoral, Bolsonaro prepara o golpe – Por Raimundo Bonfim

É preciso conter o golpe em curso. Os movimentos populares estão mobilizados, mas é preciso que a sociedade civil não subestime este risco

Bolsonaro se sustenta nos militares e no Congresso comandado pelo Centrão.Créditos: Presidência da República
Escrito en OPINIÃO el

Diante da possibilidade cada vez mais concreta de derrota eleitoral em outubro, o presidente Jair Bolsonaro voltou a sinalizar com um golpe para se manter no poder. O fato não é novo. Desde o início do governo, Bolsonaro indica que o objetivo estratégico do movimento neofascista que lidera no Brasil é a mudança de regime político para uma autocracia, com poder concentrado nas suas mãos, com apoio dos militares.

Mas essa conjunção entre escalada autoritária, processo eleitoral e piora na vida do povo pode tornar imprevisíveis os desdobramentos, o que exige das forças democráticas, dos partidos de esquerda e dos movimentos populares uma resposta imediata. 

O cenário não poderia ser pior para as classes populares. A tendência é de que mais da metade da população brasileira termine o ano empobrecida por conta dos efeitos pós-golpe de 2016 e as políticas econômicas nefastas comandadas por Paulo Guedes.

Enquanto mais de 12 milhões de brasileiros se encontram desempregados, 19 milhões passam fome e outros 120 milhões não conseguem sequer fazer três refeições ao dia. A concentração de renda e a superexploração do trabalho crescem no governo Bolsonaro, o que tem garantido a ele apoio da base empresarial e dos donos do capital para seus intentos.

E, vendo que boa parte do eleitorado está mais atento e informado em relação à identificação de fake news e outros métodos que foram utilizados em 2018, Bolsonaro vem tentando esticar a corda ao máximo, em uma tentativa desesperada de mostrar força e reunir algum argumento plausível para convencer o eleitorado de que merece se manter no poder a qualquer custo. O medo do fracasso em outubro faz com que ele não esconda as intenções golpistas, preparando o terreno para situação semelhante à tentativa de Trump nos EUA, no início de 2021. 

Na última semana, aproveitando o feriado, o presidente, sem o menor pudor, afrontou uma decisão judicial do STF ao conceder perdão presidencial ao deputado federal Daniel Silveira, que havia sido condenado a 8 anos e nove meses de prisão por diversos crimes contra a democracia.

Este ato desencadeou uma crise institucional e serviu para mostrar a sua real intenção: se tornar um autocrata. Para tanto, precisa implodir o sistema de freios e contrapesos existente entre Executivo, Legislativo e Judiciário, que sustenta o regime democrático.

Mais do que a cortina de fumaça para esconder o desastroso governo que deixa mais da metade da população brasileira empobrecida, segundo estudo da Tendências Consultoria, o indulto concedido a um criminoso julgado e condenado causou preocupações em amplos segmentos da sociedade civil e dos movimentos populares, especialmente pelo viés político e o risco da insegurança com relação ao respeito para com o resultado das eleições em outubro.

Este indulto é uma afronta à decisão judicial. Se o presidente da República não mais respeita uma decisão judicial, como garantir que qualquer outra pessoa não se sentirá encorajada a fazer o mesmo? E, a bem da verdade, se alguém merece indulto são as pessoas condenadas por furtos famélicos, que estão passando fome, e não bandidos de colarinho branco, que se escondem atrás de seus mandatos para benefício próprio.

Jair Bolsonaro se sustenta nos militares e no Congresso comandado pelo Centrão e seu orçamento secreto, pavimentando o caminho para uma nova tentativa de quartelada, como aconteceu em 7 de setembro do ano passado.

Os militares são parasitas, não produzem nada, ganham altos salários e vivem fazendo gastos desnecessários com dinheiro público como, por exemplo, a compra superfaturada de Viagra. O mais incrível de tudo isso é ver que as Forças Armadas, com medo de perder os mais de 6 mil cargos comissionados no governo federal e o poder que ganharam pelas mãos de um presidente que já foi expulso dos quadros militares por insubordinação, parecem endossar as intenções golpistas do presidente.

Essa preocupação foi exposta, inclusive por Luís Roberto Barroso, ministro do STF, que teme que elas, sedentas de uma volta ao poder quase 40 anos depois da luta popular ter colocado um ponto final na Ditadura que assombrou e quebrou o Brasil entre 1964 e 1985, se aliem ao presidente da República para uma nova tentativa de golpe, com o único propósito de levar à frente o projeto ultraneoliberal e conservador, seguindo com as privatizações das empresas públicas e dos recursos naturais, além da destruição dos direitos e do meio ambiente.

Às forças populares, no entanto, não basta a mera torcida para que as instituições funcionem e detenham o ímpeto golpista em marcha. Precisamos de organização e luta popular para reverter as contrarreformas neoliberais e evitar um novo golpe, agora com inspiração fascista.

Devemos agir desde já para evitar uma piora dessa crise anunciada, conjugando a luta eleitoral com organização e mobilizações de rua que garantam a efetividade do que expressaremos em outubro nas urnas. A esquerda, as frentes e movimentos populares precisam mostrar sua força para alertar a população brasileira da real dimensão da crise no atual cenário político. 

É preciso garantir as eleições, vencê-las e conter o golpe em curso. Por isso, os movimentos populares estão mobilizados e atentos a qualquer movimento de Bolsonaro e seus apoiadores, mas é preciso que a sociedade civil, de um modo geral, não subestime este risco. Devemos nos somar numa batalha para preservar a frágil e combalida democracia brasileira.

Que o primeiro de maio, dia de luta da classe trabalhadora, seja um novo passo na construção de um movimento de massa que responda às ameaças golpistas de Bolsonaro, que conta com apoio de importantes frações da burguesia. A hora é agora. O momento é já. Não ao golpe!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.