MUNDO

A agenda global e as discussões político-econômicas na China – Por Alessandro Golombiewski

O Brasil se exclui e está sendo excluído de qualquer discussão relevante que busque soluções globais aos temas apresentados, pois sua contribuição quando não é negativa, não agrega em nada para encontrar as soluções

Fórum econômico com participação de chineses.Créditos: Fórum Econômico Mundial/Reprodução
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As mais importantes discussões político-econômicas chinesas compreendem, em geral, os meses de março, abril e maio. É nesse período que acontecem as chamadas “duas sessões” nas quais políticos chineses se reúnem em sessão do partido comunista para discutir temas relevantes para a China e elaborar propostas a serem debatidas e aprovadas pelo Congresso Nacional do Povo.

Logo após, são realizados os três mais importantes fóruns de discussão econômica da China. O primeiro é o “Fórum de Desenvolvimento da China” no qual o governo em conjunto com os setores acadêmico e privado, além de convidados internacionais debatem os principais pontos do desenvolvimento da nação.

A seguir, temos o “Fórum Internacional Financeiro” ou F20, no qual o debate gira em torno de questões financeiras chinesas e internacionais. Nesse fórum, estão presentes tanto o setor financeiro chinês quanto o setor financeiro internacional, representado por diversos bancos centrais das principais nações do mundo, além de várias instituições financeiras.

O terceiro fórum, que também ocorre nesse período, é o “BOAO Forum for Asia”. Cabe destacar que, antigamente, esse fórum reunia todas as economias asiáticas, porém, ampliou suas fronteiras ao abranger países dos cinco continentes. Diferente dos anteriores, este fórum é dedicado a agenda político-econômica do continente asiático como um todo, o que lhe permitiu ganhar relevância internacional, visto que a economia asiática representa, hoje, cerca de 40% do PIB global.

Esses três fóruns existem há mais de 20 anos e representam, coletivamente, o ingresso da China e da Ásia como protagonistas no cenário internacional. Ainda que, tradicionalmente, eu participe deles como membro da academia chinesa — visto que sou professor titular do departamento de Políticas Públicas da Universidade de Tsinghua, em Pequim —, oportunamente participei como convidado da CGTN, maior rede de comunicação estatal chinesa, para ser o comentarista internacional das “duas sessões”.

Agora, os meus caros leitores devem estar se perguntando: o que esses encontros políticos, econômicos e financeiros nos trouxeram para este ano de 2022? Ou, dito de outro modo, o que é que a nação chinesa está dialogando com o mundo?

Pois bem, eu lhes digo: a agenda de discussão girou em torno de questões atuais que convergiram em todos os eventos. Primeiro, é claro, foi a questão da Covid-19 e seu impacto sobre as economias chinesa e global. Ficou claro que o coronavírus só será derrotado mediante um trabalho em conjunto entre todos os países, sobretudo com a adoção de medidas preventivas, tais como testes, uso de máscaras, dedetização de locais públicos, bem como as vacinas por todos. Deixar de lado a cooperação tenderá a criar mais zonas de exclusão, elevando o número de vítimas fatais. Crer que a pandemia acabou é mero engodo.

Outro aspecto econômico impactado pela Covid-19 é a amplificação de sérios problemas econômicos, pairando inclusive sobre as nações mais desenvolvidas como os Estados Unidos, caracterizados pelo forte retorno da inflação, a diminuição da demanda mundial, a fragmentação das cadeias produtivas globais, o desemprego, o aumento da pobreza e o aumento das dívidas públicas. Se adicionarmos a atual guerra entre Rússia e Ucrânia, o cenário torna-se ainda mais degradado, comprometendo por completo a recuperação econômica que se iniciava. Portanto, a queda da demanda mundial, a desaceleração da China e dos Estados Unidos obrigará os organismos internacionais a reduzir ainda mais a expectativa de crescimento econômico do mundo e o qual, dependendo da duração dessa guerra, poderá não mais existir.

O terceiro assunto compreende a urgência na aceleração de ações voltadas para a agenda de sustentabilidade. Ficou claro durante esses encontros que estamos longe de atingirmos os compromissos assumidos no acordo de Paris e, se não trabalharmos juntos, não conseguiremos nem chegar perto das principais metas estabelecidas no acordo.

O quarto assunto foi direcionado ao impacto das transformações digitais e da economia digital na sociedade como um todo. Mais uma vez, um dos pontos centrais foi que se de um lado as transformações digitais impactam de forma positiva, de outro lado, ela pode levar a criação de uma sociedade excludente, em que uma minoria tem acesso a nova sociedade digital, enquanto a maioria viverá às margens dessas transformações.

A abrangência dessas questões em todos os eventos tornou evidente que muitos dos desafios de nossa agenda global dependem de soluções que passam pela cooperação mundial. Infelizmente, ela também demonstrou que carecemos de lideranças globais e que o nosso sistema de governança multilateral, principalmente aquele que deveria responder às crises globais, é excludente e muito insuficiente.

Por fim, ficou claro, mais uma vez, que o Brasil se exclui e está sendo excluído de qualquer discussão relevante que busque soluções globais aos temas apresentados, pois sua contribuição quando não é negativa, não agrega em nada para encontrar as soluções.

Nesse sentido, confio que teremos mudanças significativas no próximo ano e que poderemos voltar a ser protagonistas no cenário internacional, oferecendo alternativas para termos um mundo mais inclusivo e que enfrente as questões globais.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.