EXPRESSÕES

Palavras, expressões e tecnologias que odeio! - Por Mouzar Benedito

Da moda de usar gerúndios aos "influencers", passando por "atacarejo" e, em tempos de pandemia, "positivar". Confira a lista de palavras e expressões que "ferem os ouvidos ou a consciência" do Mouzar

O colunista, jornalista e escritor Mouzar Benedito.
Escrito en OPINIÃO el

De vez em quando pego raiva de algumas palavras ou expressões, que me ferem os ouvidos ou a consciência. A moda dos gerúndios está passando (ói ele aí), ou “vai estar passando”, para ser mais de acordo com a fala desse pessoal do telemarketing e de atendimentos telefônicos em geral.

Um pessoal da área de treinamento de pessoal era especialista em criar certas expressões muito bestas. Houve uma época em que não se podia dizer que “o fulano falou”... Usar o verbo falar nessas circunstâncias era chamar esse pessoal pra briga. Tinha que ser “o fulano verbalizou”. E tem muitas outras mais, mas fiquemos nas coisas dos dias de hoje, umas entre as muitas que eu nem registrei, pois foram “canceladas” (ói outra modernidade aí) da minha memória.

Uma coisa que me irrita na televisão é propaganda de uma porcaria qualquer, apresentada geralmente por alguma moça, mas às vezes também por apresentador famoso que ganha milhões e não precisava fazer isso... mas não é a propaganda em si que me incomoda, é como ela termina, com uma chamada para a pessoa comprar já (eles me lembram um pregador religioso, gringo, que terminava sua fala com a chamada “ligue djá” para engrossar o seu rebanho ou sei lá o quê). Falam como que cobrando: “Tá esperando o quê?”. Fico irritado só de ouvir isso. Se estivesse cara a cara com quem fala isso, diria: “Tô esperando você ir pra PQP!”.

Ah, mas antes disso, falando dos seus produtos “maravilhosos” e comprável por qualquer pessoa que possa gastar seus últimos tostões nisso, informam que é por preço que “cabe no seu bolso”. Ora, vai pros quintos dos infernos! Vixe, que expressão mais ultrapassada!

E falando em vender, tenho uma ojeriza pela palavra atacarejo. O conceito até que não é ruim: estabelecimentos que vendem por atacado e no varejo, teoricamente por preços melhores. A palavra atacarejo me incomoda, acho feia, e comecei a pegar raiva dela depois de ver que seguranças de uma loja dessas entregaram para serem assassinados sob tortura, em Salvador, dois homens que furtaram uns bifes. A loja, como em todos os casos semelhantes, afirmou que não aprova isso etc. e tal, mas uma adolescente de 15 anos já tinha sido torturada antes por seus seguranças, e denunciado, por ter furtado alguma coisa.

Depois disso, numa loja desse tipo (não me lembro se usava o nome “atacarejo”), em Limeira, estado de São Paulo, um homem negro foi obrigado pelos seguranças a tirar toda a roupa para provar que não estava levando nada roubado. Viram o cara fazer alguma coisa? Não! A grande suspeita era porque ele era negro. Mas, claro, a loja também se desculpou e disse que não aprova atitudes racistas.

Continuo falando de coisas relacionadas ao dinheiro... Esta ouço sempre se relacionando a “influenciadores digitais” (“influencers”, como preferem os que lamentam não serem gringos). Por falar neles, tenho a impressão que um montão de brasileiros não faz nada na vida a não ser ficar grudado nos celulares o dia inteiro acompanhando “influenciadores” e (não sei como, pois se não fazem mais nada, como ganham dinheiro?) comprando o que eles mandam. Aparecem aos montes pessoas que dizem ter 500 mil seguidores, 200 mil seguidores, um milhão de seguidores... Ora, são milhares deles (e delas).

Fazendo as contas, eles têm, somando tudo, uns 3 bilhões de seguidores ou mais. Como o Brasil tem pouco mais de 210 milhões de habitantes, boa parte disso crianças, boa parte velhos, e boa parte jovens ou adultos que não têm o hábito de ficar acompanhando essa gente, inclusive porque trabalham de verdade (sem contar os desempregados que não têm dinheiro nenhum), sobram quantos “seguidores”? Uns 50 milhões? Se são isso, cada um, em média segue no mínimo 60 influenciadores! Sobra tempo para alguma coisa?

Mas o que eu queria falar dos “influenciadores” é que eles “monetizam” o que fazem, quer dizer, transformam em dinheiro cada fala ou sugestão que apresentam. Vivem disso, utilizam suas aparições e falas como fonte de rendimento, e admiro que pagam por isso. Ah... Mas de vez em quando alguém perde essa fonte de renda, e para isso já existe o verbo “desmonetizar”.

E tem uma coisa mais: na hora de monetizar (ou em outras circunstâncias) eles têm que “precificar” as coisas. Precificar! Isso me lembra, não sei porquê, aquelas pessoas que dizem que todo mundo tem um preço. Horrível.

Agora um verbo dos tempos de Covid. Eu poderia dizer que peguei a maldita duas vezes, mas digo que ela me pegou duas vezes. Mas ouço dizer é que o “fulano positivou”. Errado? Não sei. Mas acho feio.

Ia parar por aqui, mas me lembrei de um modismo que não tem nada a ver com o uso da linguagem, palavras ou expressões que a gente pode achar feias ou desagradáveis. É acharem que todo mundo tem a obrigação de ter computadores e celulares programados com tudo quanto é aplicativo. Vejo isso agora em alguns laboratórios de análises clínicas. Você faz um exame de sangue e te dão um papelzinho indicando como retirar os resultados pela internet. Poderia dizer que não uso internet (é obrigatório?), mas tudo bem... Só que alguns têm uns programas que usam aplicativos muito complicados.

Acabo de tentar pegar os resultados de um exame de sangue que fiz num laboratório, para ver como andam algumas sequelas da Covid. Entrei no site do laboratório, coloquei os dados que me pediram, incluindo senha, e mandaram clicar duas vezes no adobe não sei quê. Cliquei, mandaram instalar, segui todos os passos e o resultado foi uma tela preta, sem nenhuma informação. Telefonei para o laboratório contando isso e o que ouvi da moça foi: “O problema é o seu computador”. Quer dizer: sou culpado por não ter um computador ultramoderno. Reclamei e ela me disse: “Pode retirar pelo celular”. Tentei retirar, mesma coisa.

Ah... Pedi socorro a um amigo vizinho e ele, que tem computador com tudo quanto é aplicativo e entende disso, pegou os resultados pra mim! Viva! Mas e se eu não tivesse vizinho assim?

Velho ranheta! Ultrapassado! Acho que não falam mas pensam isso. E eu fico aqui resmungando sobre isso tudo, contra certas modernidades da linguagem e, pior ainda, da tecnologia que julgam ser de uso obrigatório: “Que tempos de merda!”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum 

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