HERÓI DESCONHECIDO

Que venha o Estádio Capitão Sérgio – Por Cid Benjamin

O plano de explodir o gasômetro, sequestrar e jogar em alto mar cerca de 50 líderes políticos, em 1968, foi abortado pela coragem do capitão Sérgio

O projeto do novo estádio do Flamengo no Gasômetro.Créditos: Divulgação
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Caso vá adiante a ideia, o estádio que o Flamengo pensa em construir na área hoje ocupada pelo Gasômetro na região da Leopoldina, no Rio, deveria levar o nome de Capitão Sérgio de Carvalho. Sérgio, chamado pelos amigos, carinhosamente, de Sérgio Macaco, é mais um desses heróis a quem o Brasil deve uma enormidade.

No dia em que formos uma verdadeira democracia, sua história será estudada em todas as escolas do País – em especial nas escolas militares.

Em meados de 1968, em meio a grandes manifestações de rua contra a ditadura, a chamada linha dura – que assumiria o poder em 13 de dezembro daquele ano, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5) – já urdia tenebrosas transações.

Uma delas, e talvez a mais macabra, era a explosão do gasômetro de São Cristóvão na hora do rush. Os próprios terroristas – militares ligados à linha dura - calculavam que morreriam cem mil pessoas no atentado. O plano era responsabilizar a esquerda pelo ato terrorista e, em seguida, desencadear um vasto massacre contra opositores da ditadura.

Além da explosão do gasômetro, aqueles militares planejavam ainda sequestrar e jogar em alto mar cerca de 50 líderes políticos. Entre os alvos estavam o ex-presidente Juscelino Kubitschek, o arcebispo dom Hélder Câmara, o líder estudantil Vladimir Palmeira e o ex-governador do estado da Guanabara Carlos Lacerda, um dos líderes do golpe de 64, àquela altura rompido com o regime.

O plano foi abortado pela coragem do capitão Sérgio. Ele enfrentou seus superiores, de cuja boca ouviu o relato dos planos criminosos, e os denunciou, o que lhe custou a carreira militar

Integrante de uma unidade de elite da Aeronáutica, o Para-Sar, especializada em salvamentos na selva, na época Sérgio tinha 37 anos. Era paraquedista, com 900 saltos e quatro condecorações por bravura. Chamado pelos indígenas de “nambiguá caraíba” (homem branco amigo), era admirado pelos irmãos Villas-Boas, pelo médico Noel Nutels e pelo antropólogo Darcy Ribeiro.

O patrono da Aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes, uma das pessoas que Sérgio procurou para denunciar os planos criminosos, confirmou a veracidade das denúncias e ficou ao lado do capitão. Isso, provavelmente, salvou a sua vida.

Em 1992, anos depois de terminada a ditadura, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que Sérgio fosse promovido a brigadeiro, posto que teria alcançado se tivesse permanecido na Aeronáutica. A decisão, porém, não foi cumprida. O presidente Itamar Franco a protelou até depois da morte de Sérgio, vítima de câncer no estômago, em 1994.

Sua família foi impedida pelos militares de enterrá-lo com a bandeira do Brasil sobre o caixão. O corpo foi coberto com uma bandeira do Flamengo, seu time de coração.

Se o estádio do gasômetro, então, for construído, nada mais justo, que ganhe o nome do Capitão Sérgio.

Não ignoro que a proposta não tem viabilidade prática agora, pois a atual diretoria do Flamengo é bolsonarista e, no momento, está fazendo gestões junto ao governo federal e à Caixa Econômica Federal, proprietária do terreno, para a sua cessão.

Ainda assim, a ideia é oportuna. Caso vá adiante o projeto do estádio, ela precisa ser transformada numa campanha em larga escala. Assim, estará sendo homenageado um grande brasileiro, cuja história tem ligação com o gasômetro.

O que hoje parece algo inacessível, poderá então se transformar em realidade.

Afinal, da mesma forma como a ditadura militar acabou e o genocida que hoje governa o país vai embora daqui a pouco, os bolsonaristas não estarão para sempre à frente do Flamengo.

Amanhã será outro dia.

Viva o Capitão Sérgio.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.