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As novas relações entre Brasil e Israel - Por Ana Beatriz Prudente Alckmin

Tendo em vista que Lula e Bolsonaro são completamente diferentes, muitos episódios que observamos na relação entre Brasil-Israel durante o último governo dificilmente se repetirão no novo

Lula em visita a Israel no ano de 2010.Créditos: Ricardo Stuckert
Escrito en OPINIÃO el

Nos últimos meses os Estados Unidos da América têm recebido um número significativo de cidadãos brasileiros bolsonaristas, entre eles o próprio ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e membros da alta cúpula de seu governo. 

O presidente dos EUA, Joe Biden, condenou os ataques terroristas em Brasília ocorridos no último domingo, 8 de janeiro, e em pronunciamento afirmou que a situação do Brasil é “ultrajante”. Com esse tipo de reação do presidente norte-americano, a escolha dos EUA como reduto bolsonarista, especialmente na Flórida, pode vir a mudar.

No dia 9 de janeiro, após o atentado, a Casa Branca emitiu uma declaração conjunta com o presidente Joe Biden, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, em que condenam os ataques e reforçam seu apoio ao presidente Lula.

Soma-se a isso um lobby que tem ocorrido no congresso americano, feito pelos democratas, para que não haja apoio a nenhum refúgio ao ex-presidente Bolsonaro ou a qualquer um de seu grupo, que seja intimado, indiciado ou processado pelas autoridades brasileiras. Com estas ações ficou muito nítido que os EUA não serão um apoio internacional ao bolsonarismo e, então, surge em ambientes da esquerda brasileira uma narrativa de que talvez Israel seria essa força internacional que apoiaria o ex-presidente brasileiro nesse momento de crise.

Porém, é importante lembrar que esta narrativa possui uma carga de antissemitismo estrutural que tende a colocar os judeus e até Israel como agentes conspiradores. Quando surge essa falácia em alguns ambientes da esquerda brasileira, é fundamental sinalizar um viés antissemita. Há uma porção da esquerda que olha com desconfiança para Israel por conta do uso abusivo da bandeira israelense pelas forças bolsonaristas, e que hoje acha que Israel daria apoio ao retorno de Bolsonaro para a vida política brasileira.

Ainda falando da esquerda brasileira, existe uma fatia que é antissionista, por confundir o sionismo com colonialismo europeu e acreditar que todo sionista apoia o governo de Israel cegamente: todavia, o sionista é o que mais analisa o governo israelense com olhar crítico, é aquele que mais produz críticas qualificadas a respeito do cenário político em Israel.

O atual governo brasileiro, presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, tem um desafio profundo pela frente. Para ser sincera, tem muitos desafios complexos, mas um em especial gera muitas dúvidas nos expectadores do novo governo e exigirá muito jogo de cintura, que será ressignificar as relações internacionais brasileiras.

Veja bem, o governo Bolsonaro era abertamente contrário aos direitos humanos, contrário às pautas ambientais, extremamente conservador nas pautas de costumes, sendo muitas vezes até chamado de reacionário. Ainda trouxe para dentro do seu universo de trabalho a religião (talvez um cristianismo neopentecostal), como se fosse um governo teocrático.

A conexão imagética do bolsonarismo com Israel e símbolos judaicos foi meticulosamente construída pelo marketing político do governo Bolsonaro. Compreender as características religiosas de Bolsonaro e seu governo são questões importantes para entender os caminhos perigosos que esse governo percorreu e como usou e abusou de símbolos nacionais de Israel.

Segundo o Jornal Extra de 12/10/2022, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, que frequenta cultos evangélicos, participou no feriado de 12 de outubro de 2022 das celebrações católicas para Nossa Senhora Aparecida, que ocorreram no Santuário Nacional de Aparecida e levantaram novamente a pauta sobre sua religião e a identidade religiosa de seu governo. Frequentemente a pauta sobre a fé do ex-presidente vem à tona, muitos acreditam que ele seja evangélico, apesar de se autodeclarar católico.

Há 8 anos, em 2015, em uma rede social, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro declarou em um post que é católico, mas que seus filhos frequentam igrejas evangélicas. A que mais demonstra acompanhar a religião evangélica é a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

No ano seguinte, enquanto ocorria o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, Bolsonaro estava em Jerusalém, batizando-se no Rio Jordão, pelo Pastor Everaldo. Conforme apurado pelo Jornal Extra do dia 12/05/2016, a assessoria de imprensa do parlamentar confirmou a celebração da cerimônia religiosa. As imagens do batismo de Bolsonaro foram compartilhadas em redes sociais.

Um levantamento de pesquisa, divulgado pela Genial Quaest, mostra um pouco das dúvidas sobre a fé de Bolsonaro: 50% dos religiosos evangélicos dizem que ele é evangélico, e 16% acreditam que ele seja católico; para os católicos, 32% consideram que ele seja evangélico e 17% acreditam que ele seja de fato católico.

Independente de ser evangélico, católico ou de qualquer outra denominação religiosa, o fato é que todo o marketing político do governo Bolsonaro e do bolsonarismo se apossou de símbolos judaicos e da bandeira de Israel, gerando dor de cabeça para o movimento sionista. Seja qual for a linha religiosa do Bolsonaro ou do bolsonarismo, o fato é que houve um sequestro de símbolos judaicos.

Durante o governo bolsonarista e em atos antidemocráticos, nas mais diversas situações, houve pessoas do próprio governo ou da sua base de apoio usando a bandeira de Israel e outros símbolos ligados à cultura e à história judaicas.

Citando exemplos destes momentos, podemos lembrar de quando Michelle Bolsonaro usou uma camiseta com a bandeira de Israel no primeiro turno das eleições 2022. Outro exemplo mais atual foi durante os atos terroristas que aconteceram no domingo (08/01/2023), em que golpistas seguravam a bandeira israelense enquanto rasgavam uma cópia da Constituição Federal Brasileira de 1988.

Tudo isso cria uma falsa narrativa, intensamente fortalecida nos últimos 4 anos, de que Israel apoia atos antidemocráticos, posturas extremistas ou excessivas de Bolsonaro, ou até mesmo que apoia o terrorismo do bolsonarismo, sendo que isso não é real.

Quando Lula assumiu em 1º de janeiro de 2023, o Estado de Israel reconheceu a vitória, assim como também reconheceu a vitória de Bolsonaro em 2018. Não podemos deixar que a bandeira de Israel, tão preciosa para os cidadãos israelenses e para toda a comunidade judaica, seja confundida com símbolos antidemocráticos.

Israel manteve com o Brasil uma relação saudável, mas nunca houve um apoio formal de Israel às atitudes antidemocráticas bolsonaristas ou contra os direitos humanos no Brasil. E, possivelmente, o erro estratégico de Israel tenha sido esse, ter observado a sua bandeira sendo usada ostensivamente em contextos extremamente negativos e não ter se posicionado.

É importante esclarecer que a comunidade judaica é formada por pessoas com todos os tipos de perfis. Nas últimas eleições houve judeus que votaram no Bolsonaro, aqueles que votaram no Lula, aqueles que votaram em outros candidatos ou mesmo os que não votaram em nenhum candidato.

Bolsonaro nunca foi o político oficial da comunidade judaica, isso nunca aconteceu. As principais entidades judaicas do Brasil, as mais respeitadas na comunidade, nunca se posicionaram a favor de Bolsonaro ou de qualquer outro governo brasileiro. Muito pelo contrário, houve uma defesa da pluralidade judaica para que cada judeu se sentisse à vontade para se posicionar como quisesse.

Mas é fato que a comunidade judaica esteve presente em um dos momentos mais ultrajantes da carreira de Bolsonaro, a presença dele no Clube Hebraica, onde fez um discurso abertamente racista no feriado de 3 de abril de 2017. O ponto a ser esclarecido é que no Brasil existem aproximadamente 120.000 judeus, e esses judeus não estavam na sua totalidade no Clube Hebraica, bem como muitos que estavam neste episódio se sentiram constrangidos. Este clube é um espaço tradicional da comunidade judaica brasileira, entre os seus sócios estão professores da Universidade São Paulo e cientistas. Desta maneira, não podemos afirmar que o Hebraica é um reduto da extrema direita brasileira.

O problema é que esse sequestro frequente de símbolos judaicos feito pelo bolsonarismo realmente criou uma imagem equivocada de que Bolsonaro é uma figura amada na comunidade judaica, que era o candidato dos judeus. Isso ainda persiste, e acredito que levaremos anos para desfazer esse mal-entendido. Será um processo demorado, pois por parte do bolsonarismo existe um esforço para dar a entender que há este forte laço com Israel, mas conseguiremos desfazer este equívoco.

Várias entidades judaicas estão fortalecendo a pluralidade judaica, a diversidade judaica e a defesa dos direitos humanos através de esclarecimentos públicos.

Isso ao longo dos anos ajudará a desfazer essa imagem distorcida que o povo brasileiro passou a ter da comunidade judaica e que foi erroneamente moldada pelo bolsonarismo nos últimos quatro anos.

Todo país tem a sua marca no exterior, o seu brand, que traz sua história, seus valores e sua cultura. A impressão que dá é que no Brasil houve uma total distorção da marca Israel, que sempre se orgulhou de ser uma democracia no Oriente Médio; então, será necessário um rebranding, um reposicionamento da marca Israel no Brasil.

Após a declaração condenatória do primeiro-ministro israelense Netanyahu, em 10 de janeiro de 2023, sobre terrorismo no Brasil, reforçando que “não há espaço para protestos violentos em uma democracia” e a reafirmação da soberania dos resultados das eleições no Brasil, o clima de dúvidas sobre um possível apoio de Israel a Bolsonaro foi amenizado.

Tendo em vista que o governo Lula e o governo Bolsonaro são completamente diferentes, muitos episódios que observamos na relação entre Brasil-Israel durante o governo Bolsonaro dificilmente se repetirão no governo Lula. Um exemplo disso ocorreu em dezembro de 2019, quando o ex-presidente sinalizou estar dialogando com líderes árabes sobre seu desejo de mudar a embaixada brasileira de seu local em Tel Aviv para Jerusalém, algo que é fortemente contra o desejo de países islâmicos, já que a cidade de Jerusalém é reclamada por palestinos e judeus como local sagrado e assim está no centro de confrontos e disputas entre os mesmos. No caso da embaixada estadunidense em Israel essa transferência ocorreu em dezembro de 2017, no governo do ex-presidente Donald Trump. A abertura de um escritório do governo brasileiro em Jerusalém foi um possível primeiro passo para essa transferência que era pretendida pelo governo Bolsonaro.

De qualquer maneira, há um consenso entre conservadores e progressistas brasileiros de que é muito importante um fortalecimento da parceria entre Brasil e Israel nas áreas de inovação, tecnologia e investimentos, e todos esperamos que o governo Lula caminhe para o fortalecimento destas parcerias.

Neste momento, há um novo ministro das relações exteriores, Mauro Vieira, que será o grande arquiteto da nova diplomacia brasileira. E quem é o ilustre chanceler? O novo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Luiz Lecker Vieira, tem 71 anos, é carioca e bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense. Acumula em seu currículo uma longa carreira como diplomata (formado pelo Instituto Rio Branco), já foi o representante do Brasil em diversos países. No ano 2000 foi admitido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso à Ordem do Mérito Militar no grau de Oficial especial, sendo posteriormente promovido ao grau de Comendador em 2001. Durante os vários governos brasileiros, Vieira foi embaixador do Brasil na Argentina, EUA, Croácia e foi nomeado pelo ex-presidente Michel Temer como representante permanente do Brasil na Organização das Nações Unidas. No discurso de posse, o chanceler reforçou a posição do governo brasileiro com o apoio da criação de dois estados para os dois povos, israelense e palestino, postura que reconhece a autodeterminação seguindo a Resolução 181 da ONU.

A retirada do embaixador do Brasil nomeado pelo presidente Bolsonaro em Israel foi chamada por muitos progressistas brasileiros de "desbolsonarização" das relações entre Brasil-Israel. Gerson Menandro Garcia de Freitas, o ex-embaixador, não é diplomata de carreira e chegou a ser gerente de Relações Institucionais e Governamentais da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) antes de ser nomeado embaixador do Brasil em Israel.

Entretanto, Mauro Vieira já sinalizou que o governo Lula manterá a posição de neutralidade e foi emitida pelo Itamaraty uma nota com uma crítica à visita do ministro de Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, à Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, e com defesa aos acordos internacionais que tratam da administração dos lugares sagrados muçulmanos e o status quo da localidade.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum