OPINIÃO

Jornada de 4 dias de trabalho sem redução de salário? Por que defender essa ideia, por Fábio Santos

Recente fala de ministro do Trabalho, Luiz Marinho, colocou em destaque debate sobre redução de jornadas com manutenção de salários. Experiências em outros países mostram que a ideia representa um ganho inestimável para a sociedade como um todo

Ministro do Trabalho defende redução da jornada.Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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A proposta apresentada pelo senador Paulo Paim (PT-RS) por meio da PEC 148/2015, que busca gradativamente diminuir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas e, posteriormente, para 36 horas, com turnos de 6 horas diárias, é um passo significativo na busca por um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos trabalhadores. A recente manifestação do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, durante sessão na Comissão de Direitos Humanos no Senado, nesta segunda-feira (9), em favor da redução da jornada de trabalho sem a correspondente diminuição salarial, coloca em destaque a importância desse tema para o cenário laboral brasileiro.

 

“Eu acredito que passou da hora de discutir. Não tratei disso com o presidente Lula. É minha opinião, não do governo. Mas tenho certeza de que o presidente Lula não iria bloquear um debate, em que a sociedade reivindique que o Congresso analise a possibilidade de redução da jornada de trabalho. Sem redução dos salários, evidentemente”.
Luiz Marinho, ministro do Trabalho.

 

Países como Bélgica, Islândia, Escócia, Portugal e Japão já adotaram esse modelo, obtendo resultados notáveis tanto para a economia quanto para a saúde mental dos trabalhadores. Estudos indicam que a produtividade aumentou em muitos desses países, contrariando previsões iniciais de queda. Além disso, observou-se uma redução significativa nos índices de estresse e esgotamento profissional, promovendo uma maior qualidade de vida para os trabalhadores.

O modelo 100-80-100, que preconiza o recebimento integral do salário, trabalhando 80% do tempo e mantendo 100% da produtividade, é uma inovação que merece destaque. Ele desafia a noção tradicional de que uma jornada mais curta implica em menor eficiência, mostrando que é possível alcançar resultados expressivos em menos tempo. A implementação bem-sucedida desse modelo em diversas empresas ao redor do mundo reforça a viabilidade e o potencial benéfico dessa abordagem.

Michel Foucault, filósofo e teórico social, oferece uma perspectiva crítica valiosa sobre a exploração do trabalhador. Em sua obra, Foucault destaca como o poder se manifesta de maneira difusa e sutil, infiltrando-se nos sistemas de produção e no controle da força de trabalho. Ele argumenta que as estruturas disciplinares modernas, ao impor normas rígidas e vigilância constante, muitas vezes resultam em uma forma de sujeição e exploração dos trabalhadores. Sob esse prisma, a redução da jornada de trabalho se torna uma questão de resistência contra esse aparato de controle, permitindo aos trabalhadores um espaço para a autonomia e o desenvolvimento de suas próprias vidas, em contraposição a uma submissão cega às demandas da produção.

No Brasil, já existem empresas que adotam a semana de trabalho de quatro dias, como a "4 Day Week". Os resultados positivos dessas experiências não podem ser negligenciados. Aumentos na satisfação dos funcionários, maior retenção de talentos e até mesmo um incremento na produtividade foram observados. Isso demonstra que a redução da jornada de trabalho não é apenas uma utopia, mas sim uma realidade palpável e proveitosa para o ambiente corporativo. Mais do que uma questão econômica, a redução da jornada de trabalho representa um avanço crucial para a saúde mental dos trabalhadores. A exaustiva jornada de trabalho tem sido associada a uma série de problemas de saúde, desde o estresse crônico até distúrbios psicológicos mais sérios. Ao oferecer mais tempo para o lazer, a convivência familiar e o cuidado pessoal, o trabalhador se torna mais saudável, equilibrado e, consequentemente, mais produtivo no longo prazo.

Em suma, a proposta de redução da jornada de trabalho para quatro dias, sem redução salarial, é um tema de grande relevância e impacto para o panorama laboral brasileiro. Os exemplos positivos de outros países e as experiências bem-sucedidas de empresas que já adotam esse modelo corroboram a viabilidade dessa iniciativa. Além disso, a potencial melhoria na saúde mental dos trabalhadores representa um ganho inestimável para a sociedade como um todo, reforçando a importância e a urgência desse projeto.

* Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.