CONFLITO

Ação perversa, reação explosiva, controle da mídia... – Por Mouzar Benedito

Se eu concordo com o Hamas? Não! Se sou antissemita? Muito menos! O Estado de Israel, sim, vejo com um certo mal-estar

Gaza.Créditos: Reprodução/Redes Sociais
Escrito en OPINIÃO el

Mineiro não costuma se reunir com a turma que gosta em salas de visitas. Pelo menos eu penso assim, e costumo agir assim. A cozinha é o ambiente preferido, seja em volta de uma mesa com bebidas e comidas ou à beira de um fogão a lenha, para quem tem o privilégio de ter um.

Numa república em que morei, na Vila Madalena, havia uma sala bem grande e uma cozinha um pouco grande. Bebíamos, comíamos e jogávamos baralho e dominó, e contávamos causos na cozinha. A sala era usada para receber visitas chatas. Tínhamos um sofá bem desconfortável com assento cheio de altos e baixos, e ele era destinado a essas visitas como se fosse o melhor lugar para se sentar. Logo ela ia embora.

Na minha infância, a casa em que eu morava tinha uma sala pouquíssimo usada. Só visitantes formais eram recebidos nela. Não tinha nenhum sofá, sentava-se em cadeiras em volta de uma mesa razoavelmente grande. Mas meus pais não tinham a ideia de provocar desconforto nos visitantes. Visitas informais e mais animadas eram na cozinha, mas as formais eram recebidas com todo respeito na sala.

Estou me lembrando disso por causa de uma coisa que parece não ter nada a ver, por exemplo, com algumas explosões de violência de grupos que vivem sob repressão, como é o caso dos palestinos da Faixa de Gaza.

Uma vez, minha mãe recebeu uma mulher e um filho da minha idade, uns 6 ou 7 anos, não me lembro bem. E fui convocado para a recepção na sala. Fiquei sentado ao lado do moleque, que era um pentelho. Enquanto nossas mães conversavam, ele me dava chutes na canela achando que ninguém via. Eu desviei um pouco a canela, mas ele continuava. Chegou a um ponto que eu me levantei e dei um tapa na cara do pentelho. Minha mãe se espantou, ficou brabíssima, perguntando se eu fiquei louco de vez (era considerado só meio louco). Mas a mãe do pentelhinho mostrou-se muito correta. Disse à minha mãe: “Eu vi que o meu filho estava dando chutes no seu, por baixo da mesa. Meu filho é que é culpado...”.

Aí é que está onde penso que isso serve como uma parábola para a questão da Faixa de Gaza, onde vive um povo inteiro reprimido, levando mais do que chutes por baixo da mesa. Sofre agressões de todos os tipos, sua população não tem direitos, é reprimida com violência, vive num regime de terror, e de vez em quando explode. E quando isso acontece, não tem a “mãe” do agressor enrustido para defendê-lo. É o culpado, e pronto!

Se eu concordo com o Hamas? Não! Se sou antissemita? Muito menos! Aliás, destaco sempre que semitas não são só judeus. Árabes também são. Então, um antissemita não é só contra os judeus. E eu não sou contra judeus nem contra árabes. Tenho admiração pelos dois povos. Os árabes têm uma longa história de civilização, e os judeus também.

O Estado de Israel, sim, vejo com um certo mal-estar.

Vi recentemente um vídeo de um pretenso imparcial professor de História “explicando” o conflito na região. Começa dizendo que os judeus foram os primeiros a ocupar aquela região. Totalmente falso. Na própria Bíblia, consta que quando Moisés e seu povo foram expulsos do Egito, em busca da “Terra Prometida”, tiveram que passar quarenta anos antes de entrar nela. É que a tal terra, onde corria leite e mel, segundo disseram a eles, era habitada. Tinha muita gente morando lá. E o Deus dos judeus, que também é dos católicos e dos muçulmanos, lhes informou então que tinham que tomar aquele território à força. Daí isso de passar quarenta anos aumentando a população, formando e treinando um exército para derrotar os ocupantes da tal Terra Prometida.

Pois é. Tomaram a região e ficaram lá, até sofrerem diásporas, causadas pelos romanos. Espalharam-se pelo mundo e mantiveram seus costumes, sua cultura e sua religião. Fato admirável.

Mas eram minorias em todos os lugares e, como acontece nessas situações, acabavam levando a culpa por tudo de ruim que acontecia onde moravam. Até doenças, pragas... Lembro-me de ter lido em algum lugar que até a Peste Negra, que assolou a Europa, matando boa parte da sua população, foi atribuída por fanáticos aos judeus. E, para provar, relatavam que entre os judeus essas mortes eram em muito menor proporção, o que provaria que a peste era coisa do diabo e que os judeus tinham ligação com ele.

Acontece que os judeus tinham certos hábitos de higiene que o restante da população não tinha, por isso eram menos sujeitos a serem atingidos pela peste.

Bom, assim foi indo...

A Igreja fortaleceu durante séculos os preconceitos contra os judeus, culpando-os pelo assassinato de Jesus Cristo. E em certas situações queimavam muitos deles por “heresia” ou expulsavam dos locais onde moravam. Aconteceu na Espanha, com os badalados reis Fernando e Isabel de Castela. E em Portugal, que aceitou a permanência ali desde que renunciassem à sua fé e adotassem o cristianismo. Surgiram aí os cristãos novos, judeus convertidos ou que fingiam ser convertidos na marra. Mas muitos foram para a Inglaterra, por exemplo, levando o ouro e as riquezas que tinham acumulado. Essa política burra acabou por fortalecer e desenvolver a Inglaterra enquanto Portugal empobrecia e se tornava progressivamente mais atrasado.

Aqui no Brasil, quando os holandeses dominavam parte do Nordeste, os judeus eram bem aceitos, tanto que fundaram em Recife a primeira sinagoga das Américas. Mas quando a região voltou ao domínio português, os judeus de lá se mandaram para os Estados Unidos, principalmente Nova York, ajudando a promover seu desenvolvimento.

Faço um parêntese para lembrar que muitos intelectuais dos mais admiráveis (gostem deles ou não) eram de origem judaica. Por exemplo: Marx, Freud, Einstein, Kafka, Proust... Contribuíram para mudar o mundo (para melhor, na minha opinião), e acredito que nenhum deles defenderia a existência de um Estado judeu segregacionista, com um regime de Apartheid, como é Israel hoje. E muitos e muitos judeus dos dias de hoje também são radicalmente contra tudo isso.

A criação do Estado de Israel

Na Europa, os judeus continuaram sendo apontados como culpados pelos problemas que havia lá. Por exemplo: o povo alemão foi muito injustiçado depois da Primeira Guerra, por causa das restrições e determinações dos vencedores da guerra. Hitler soube explorar isso, mas apontou como culpados de tudo não os opressores, e sim o povo judeu. E promoveu uma perseguição progressiva contra os judeus – inicialmente com apoio dos judeus ricos, que se julgavam imunes a isso e apoiaram o nazismo.

Resultado: violência absurda, proibições, campos de concentração... e seis milhões de judeus mortos, até o fim da Segunda Guerra! E os nazistas tinham um plano para acabar de vez com os judeus: a “solução final”, que era matar todos, absolutamente todos. Tivessem vencido, talvez conseguissem isso, pelo menos na Alemanha.

O clima de comoção mundial e de apoio aos judeus depois disso justificou a criação de um Estado para eles, o que aconteceu numa assembleia-geral presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha. Muitos judeus, seguindo um movimento iniciado no século XIX, chamado sionismo (nome inspirado no Monte Sião, em Jerusalém), já tinham se mudado para a região, onde pretendiam “restaurar” um Estado judeu independente.

Mas a grande maioria da população dessa área, então conhecida como Palestina, era de palestinos, obviamente. Isso não foi muito levado em conta. O certo é que os atuais israelenses, com apoio internacional, já tinham um exército forte e, logo no primeiro dia de instalação de seu país, expulsaram de suas casas e suas terras cerca de 700 mil palestinos.

O “professor de História” pretensamente imparcial, na sua “aula”, disse que países árabes não aceitaram a instalação do Estado de Israel, sem falar nada desse fato. O que eles deviam ter feito? Aceitar que agora a terra e a casa em que moravam foi dada a terceiros (por quem não era dono delas) e tinham que se virar, abandonar tudo passivamente?

O tal “professor” continuou sua “aula”, falando da Guerra dos Seis Dias e outras em que Israel foi anexando novos territórios. E justifica: “Israel disse: vocês que começaram a guerra, nós vencemos e vamos ficar com o que conquistamos”.

E o que fizeram e fazem a ONU e a “comunidade internacional”? Nada de prático. Não houve, por exemplo, nenhum impedimento a essas coisas praticadas por Israel, que continua livre, leve e solto para praticar violências e violentações de normas internacionais e humanísticas. Nenhuma restrição econômica, como fazem com outros países. Criticam a instalação de novas colônias judaicas em território palestino da Transjordânia, mas não tomam nenhuma atitude prática contra isso. Elas continuam sendo instaladas, e Israel constrói até muros antipalestinos (na Alemanha, chamavam de “muro da vergonha” o que cercou Berlim Ocidental).

E tome porrada! Estilingadas (metaforicamente) são respondidas com rajadas de metralhadoras. Morrem palestinos aos montes... E essa população que tem como grande “culpa” ter nascido ali se tornou moradora de um verdadeiro campo de concentração, em Gaza, com 2,3 milhões de pessoas sendo tratadas como não gente. O que se pode esperar de uma situação como essa?

Terroristas matando gente indiscriminadamente, como foi o ataque do Hamas neste mês de outubro, são injustificáveis. Podem ser “explicáveis”. Cruelmente explicáveis. Mas o Hamas, de qualquer forma, não é o povo palestino. Já a resposta de Israel, implacável contra milhões de pessoas, não contra o Hamas, mas contra todos os palestinos, também é injustificável, não? Ela mata não só militantes do Hamas, mas todo mundo que tem o “azar” de estar ali, inclusive bebês (que imperdoavelmente o Hamas mata também, mas só os mortos pelo Hamas são expostos). E só explicável com muita ginástica mental desumanizada...

Nossa mídia “imparcial”

Como disse, não justifico nem apoio atos terroristas. Nem de um lado nem de outro. É possível alguém com um mínimo de senso de humanismo aprovar as ações do Exército Islâmico? E o Talebã? Um horror! Se alguém disser que concorda com eles, no mínimo já tô fora de qualquer relação de amizade...  Lembro, entretanto, que o Talebã foi criado com apoio da CIA, porém inconveniências desse tipo devem ser esquecidas, né? A criatura se voltou contra o criador. O próprio Hamas recebeu grana inclusive de Israel para se opor a outras organizações palestinas.

Mas o terrorismo a conta-gotas como o Estado de Israel (que não honra, a meu ver, o povo judeu – repleto de humanistas) fica por isso mesmo e é até justificado pela imprensa. Ora... Ao longo desse tempo todo, em muitas ocasiões, Israel matou não sei quantos “terroristas” palestinos (para essa imprensa, todos os palestinos são terroristas) porque foi atacado e teve que reagir. Os palestinos que viram suas terras serem invadidas e tomadas por novas colônias ilegais não podem reagir. Uma estilingada (de novo metaforicamente) deles pode e merece ser respondida com muitas mortes. “Cutucaram a onça com vara curta, agora aguentem”.

Sim, houve atos terroristas de verdade contra israelenses, bombas em ônibus ou mercados matando inocentes... E grupos de assassinos como esses fazem atentados na Europa também. Apoiar isso é uma insanidade. Apoiar uma resposta matando um monte de civis palestinos aos montes é insanidade também, e maior ainda. Um Estado não é, ou não deveria ser, um grupo terrorista ampliado e mais poderoso.

Além disso, historicamente, vale lembrar uns fatos como os acampamentos de Sabra e Chatila, de refugiados palestinos, massacrados sem mais nem menos por Israel. E eu me lembro que há uns quarenta anos ou mais, aviões israelenses passaram sobre esses acampamentos jogando “brinquedos” para crianças. Caminhõezinhos, bonecas... que na verdade eram bombas. A criança pegava e o “brinquedo” explodia. Jogavam “brinquedos” para matar crianças. Isso é justificável?

Na época, meus amigos judeus ficaram horrorizados com isso. Protestaram, se indignaram. Ser judeu não é ser defensor de coisas como essa. E meus amigos judeus mostravam isso com clareza.

Ah... Outra coisa: “Israel é a única democracia da região”. Verdade que os países de seu entorno são ditaduras, algumas pra lá de cruéis. Mas num Estado democrático, todos os moradores têm direitos iguais. Acontece isso lá?

Enfim...

Sei que os judeus que moram em Israel e mais ainda os que estão espalhados pelo mundo, em sua grande maioria, não apoiam isso, ao contrário, têm horror ao modo de governar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, à sua prática de extrema direita... mas não dá para fingir que não vemos no governo Netanyahu que a “solução final” passou a ser uma política sonhada e com pretensão de ser executada por ele, e que está tendo a chance de fazer isso agora, sob protestos da boca pra fora dos países ditos “civilizados”.

Extinção do povo palestino em seu território, é isso que parece que ele quer e pratica, tendo como contraponto coisas inconsequentes como “moções de repúdio”. Odeio moções de repúdio. São um jeito de lavar as mãos, fingindo que se está muito indignado, mas emite-se a dita-cuja, e pronto. Tá resolvido. Nada de atitude pra valer.

Uma lembrancinha de como a propaganda funciona

Saio um pouco do assunto. Lembro-me que nos tempos em que existia a União Soviética, toda a imprensa ligada ao grande capital e subserviente aos Estados Unidos propagava que “Cuba só sobrevive porque a União Soviética despeja lá um milhão de dólares por dia”.

O que acontecia era que quando Cuba se juntou ao bloco soviético (por falta de opção, diga-se de passagem, pois os Estados Unidos determinaram seu bloqueio e o continente inteiro o seguiu), houve um acordo: em vez de tentar desenvolver sua indústria e de tentar produzir petróleo, Cuba deveria fazer o que, no conceito do bloco, fazia muito bem: produzir açúcar, cobre, frutas cítricas, tabaco...

Para quê produzir petróleo se a União Soviética tinha sobrando? Para quê produzir automóveis, se a Polônia podia fornecer a ela? Ferramentas, tudo... cada país era “bom” numa coisa e devia produzir isso pro bloco todo. Açúcar era uma coisa que a União Soviética e seus aliados europeus precisavam, então, se Cuba produzisse para todos eles, receberia pela produção um valor “justo”, independente das oscilações do mercado. Assim, recebia “um milhão de dólares por dia”, não como doações soviéticas, mas pelo preço que julgavam justo, do açúcar. Então, em um ano (com exceção dos bissextos), Cuba recebia 365 milhões de dólares. Tinha uma população de 10 milhões de habitantes. O que recebia por habitante? Cerca de 36,5 dólares por ano.

Enquanto isso, Israel, que na época tinha menos de quatro milhões de habitantes, recebia anualmente dos Estados Unidos cerca de 10 bilhões de dólares por ano. Ou seja, mais de 2.500 dólares por habitante. A imprensa noticiava isso? Quá-quá-quá... Não! O noticiado como absurdo era que os cubanos recebiam 36,5 dólares por ano cada um (não noticiavam o “per capita”, mas era isso) e não os mais de 2.500 dólares diários para cada israelense.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.