DESAFIOS DE LULA

Lula entre o acordo de Haddad com o financismo e a pressão chantagista do Centrão - por Mauro Lopes

Haddad e os neoliberais/setor financeiro e empresarial de um lado; Lira e a chantagem do Centrão do outro -um momento chave do governo Lula

Lula, Lira e Haddad: um jogo intrincado.Créditos: Jefferson Rudy/Ag Senado, Marcelo Camargo/Ag Brasil, Ricardo Stuckert
Escrito en OPINIÃO el

Afinal, qual motivo teria levado o presidente Lula a torpedear o déficit zero de Fernando Haddad sem que o ministro fosse avisado previamente em sua entrevista coletiva na última sexta (27)? Há duas informações circulando, e ambas podem ser verdadeiras:

Primeiro motivo: a queda de popularidade. A pesquisa Quaest divulgada na última quarta (25), dois dias antes da entrevista, apontando uma queda expressiva de seis pontos percentuais não teria, por si só, o condão de mover Lula. O busilis é que ela confirmou pesquisas internas da Presidência, que igualmente apontaram queda. Foi o suficiente para acender o sinal de alerta. A economia, indicam as pesquisas, seria o motor da mudança de humor. Isto pode unir o primeiro motivo ao segundo, fazendo com eles sejam convergentes, e não concorrentes.

Segundo motivo: Lula teria sido alertado de que a meta do déficit zero de Haddad poderá levar a economia a sofrer uma queda brusca em 2024. Até agora, o governo Lula favoreceu-se da expansão de gastos quase desenfreada de Bolsonaro, para tentar obter sua reeleição, e dos efeitos benéficos da PEC da Transição. Foram duas injeções monumentais de recursos na economia e, ambas, as grandes responsáveis pelo crescimento que pode chegar perto de 3,5% no final de 2023. Com o déficit zero e a política de corte de gastos radical da equipe econômica, o cenário para 2024 é muito diferente, apesar das promessas em contrário de Haddad. Quem teria alertado Lula sobre o risco? Parte da imprensa aposta em Rui Costa. Como gestor do PAC, ele sabe -e teme- que a paralisia da economia pode tirar o brilho da menina dos olhos de Lula e empanar a carreira do ex-governador baiano. Costa teria sido taxativo com Lula: com déficit zero, nada de aceleração de crescimento. É provável que Lula tenha ouvido outras pessoas, como é de seu estilo, mas não se sabe até agora quem poderia ter sido.

Será um dos dois motivos? Aposto na combinação dos dois. Lula levou um susto com as pesquisas e, com as advertências sobre o efeito do arcabouço fiscal na economia, talvez tenha visualizado o risco de paralisia econômica e desastre eleitoral daqui a um ano.

Déficit zero não é apenas “promessa”

 

Há um tratamento corriqueiro na imprensa conservadora e mesmo progressista, que tratam o déficit zero como uma “promessa” de Haddad. Mas não é só isso. Uma vez anunciado, torna-se um compromisso do governo e orienta sua política fiscal. E Lula se deu conta que este compromisso é um tiro no pé.

Déficit zero, nesta altura do campeonato significa: aprisionamento da economia, quase certa derrota eleitoral nos pleitos municipais, com ameaça à vitória de Boulos em São Paulo, estratégica para a esquerda, e crise política. As únicas obras nos municípios serão as emendas parlamentares -sob controle do Centrão.

Um político experiente como Lula não irá lançar seu governo na fogueira por causa das promessas e alianças de Haddad com o financismo.

Quanto a Lula, sua rota pareceu traçada com a declaração na coletiva. Quanto a Haddad, a coletiva desta segunda (30) indica que ele tentará equilibrar-se na corda bamba entre a decisão de Lula e sua aliança com o setor financeiro/pensamento neoliberal econômico. 

Conseguirá?

O jogo de pressões sobre ambos, como se viu desde sexta, está sendo e será brutal. 

Quanto a Lula, os neoliberais nunca apostaram muitas fichas numa aliança sólida e, no fundo, detestam-no desde sempre -os editoriais de Folha e do Estado e a postura dos comentaristas neoliberais apenas reafirma pela undécima vez.

Mas, quanto a Haddad? Apostaram alto. Confiaram que ele seria o novo “príncipe”, o novo FHC, como de fato ele se apresentou desde 1 de janeiro. Há um sentimento de traição. Na entrevista, o ministro insinuou que seu acordo com o “mercado” (os ricos e especialmente os muito ricos) será mantido. Apesar da declaração de Lula, reafirmou que a meta do “equilíbrio fiscal” (déficit zero). Horas antes de Haddad, o número dois do Ministério, Guilherme Melo (secretário de Política Econômica) foi assertivo em entrevista ao Valor Econômico quanto à manutenção do déficit zero: “Hoje não trabalhamos com revisão da meta. É evidente que as condições para alcançar esse objetivo podem se tornar mais fáceis ou mais difíceis. Hoje, nosso cenário-base é de zerar o déficit no ano que vem”.

Como as citações bíblicas continuam na moda, mesmo no governo Lula, há uma que bem pode representar a situação de Haddad: “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus, 6,24). O ministro tenta equilibrar-se entre Lula e o mercado. Conseguirá?

Há sempre, claro, a possibilidade de uma articulação entre Lula e Haddad mais profunda que a vista à linha d’agua. Haddad estava visivelmente nervoso, irritadiço, na coletiva desta segunda. Mas ele e o presidente Lula pareceram encenar no início do ano um jogo de bad cop/good cop. Enquanto Lula soltava trovoadas públicas, Haddad se acertava com Campos Neto… As próximas semana indicarão o grau de cumplicidade entre os dois.

Convergência de pressões

 

O cenário torna-se ainda mais complexo pois à questão da política econômica, do comportamento da economia real e das eleições 2024, soma-se a relação do Planalto com o Congresso (leia-se Centrão).

Sob comando de Arthur Lira, o Centrão (aglomerado suprapartidário que comanda a Câmara e cresce de poder a cada dia no Senado) chantageia o governo Lula cotidianamente.

É uma relação entre o extorsionista e sua vítima. Lira tem sob seu controle algo que é crucial para Lula e seu governo: o controle do Congresso. Essa é a base de qualquer extorsão: ter controle sobre algo que é vital para a vítima. O governo Lula optou por uma linha que ao longo da história mostra-se fatal numa relação extorsionária: ceder. A vítima da extorsão sempre alega que não tem o que fazer, a não ser ceder, sob risco de ver sua vida destruída. É o que alega o governo. Ou cede ou o governo acaba. Tem cedido. 

Há um momento na relação entre o extorsor e sua vítima que é decisivo. Quando a vítima considera que fez “a última concessão”, “o último pagamento”. Nunca é. A extorsão nunca tem fim.

Foi essa a ilusão que alimentou setores relevantes do governo Lula com a entrega da Caixa. De que, finalmente, a chantagem se encerraria. Mesmo a custo da entrega da presidência e das 12 vices ao Centrão. A escolha das pessoas ocupantes das vice-presidências da Caixa é exemplar. Elas serão indicadas pelo União Brasil, PP e Republicano, o coração do Centrão. Quem será o árbitro? Ele mesmo, Arthur Lira. O presidente da Câmara, líder de um grupo extorsionário, depois de indicar o presidente da Caixa, dará a palavra final na composição da direção da empresa pública. Aparentemente, Lula tentará manter ao menos uma das vice-presidências, a de Habitação, a salvo do Centrão (é ela a responsável pelo Minha Casa Minha Vida).

Isso sem contar, no entrecruzamento entre a disputa pelo controle do Estado entre Lula e Lira, na repercussão e protagonismo do Congresso nos temas orçamentários e econômicos. Em tese, ao Centrão, interessa uma economia mais ativada para as eleições de 2024. No entanto, cabe aqui, em vez de uma citação bíblica, uma fábula, atribuída a Esopo. Lembra-se? 

“Um escorpião quer atravessar um rio. Pede ajuda a uma rã.

- Não, diz a rã. Não é possível. Se deixar que suba em minhas costas, poderia picar-me e a picada de um escorpião é mortal.

- Onde está a lógica disso?, respondeu o escorpião. Os escorpiões sempre tentam ser lógicos. Se eu te pico, você morre e eu me afogo.

A rã se convenceu e permitiu que o escorpião subisse em seu torso. Mas no meio do rio, a rã sentiu uma terrível picada e se deu conta de seu erro.

- Lógica, disse a rã. Onde está a lógica?

- Eu sei, afirmou o escorpião, mas essa é minha natureza”.

Lira irá atuar no interesse comum de atravessar o rio da economia com Lula ou prevalecerá a natureza do Centrão, que picará o governo com outras extorsões no meio da jornada?

                         * * *

Quanto às pesquisas, apesar da queda, Lula tem um colchão de popularidade de sobra para promover um giro na economia. No entanto, se a queda continuar, qualquer mudança de rota se torna de altíssimo risco. Ou seja, a hora é agora.

Talvez esse seja o maior desafio político de Lula em muitos anos: agir sobre as variáveis econômica, política institucional e popular em cenário de instabilidade e alta pressão.  

A solução deste intrincado problema será a chave para 2024.