O GENOCÍDIO E LULA

Lula muda posição do Brasil, qualifica atos de Israel de terroristas; seu perfil no “X” não registra - por Mauro Lopes

Desde o embarque de brasileiras e brasileiros no Egito, Lula está corajosamente reorientando a posição brasileira quanto ao genocídio israelense na Faixa de Gaza. Seu perfil no ex-Twitter não está registrando a grandeza da mudança

Lula recebe brasileiras e brasileiros que chegaram de Gaza e discursa no aeroporto.Créditos: Reprodução / Ricardo Stuckert
Escrito en OPINIÃO el

O presidente Lula está operando uma corajosa e relevante mudança na posição do governo em relação à Faixa de Gaza desde que os brasileiros mantidos como reféns por Israel foram finalmente libertados. A mudança começou já em 25 de outubro, quando o presidente afirmou: “não é uma guerra, é um genocídio”, Naquele momento, os reféns brasileiros ainda estavam nas mãos de Israel no cerco de Gaza, e Lula sequer mencionou o país. Mas foi o suficiente para mobilizar o ódio sionista e fazer o governo Netanyahu chantagear o Brasil com a retenção dos reféns. 

Lula esperou, para não colocar as vidas brasileiras em risco. Mas, desde esta segunda-feira (13), quando os brasileiros deixaram o Egito, passou a colocar os pingos nos is e qualificou os atos de Israel como terroristas.

No entanto, a comunicação do Planalto editou as falas de Lula nos últimos dois dias e deixou de reproduzir a contundência presidencial. 

Começando pelo discurso de Lula no aeroporto, na recepção às brasileiras e brasileiros que voltaram de Gaza, na noite desta segunda (13).

O que Lula disse: “eu nunca vi uma violência tão bruta, tão desumana com a que está acontecendo. Se o Hamas cometeu um ato de terrorismo e fez o que fez, o Estado de Israel está cometendo vários atos de terrorismo”.

O que foi publicado em seu ex-Twitter: “O Hamas cometeu ato de terrorismo mas a resposta de Israel também é letal contra crianças e mulheres inocentes”.

A diferença é gritante. Qualificar os atos de Israel como terroristas é um giro de largas proporções na posição brasileira e é óbvio que é o principal aspecto do discurso de Lula. Mas, sumiu.

Veja o que Lula falou no vídeo abaixo e compare com o post em seu perfil oficial:

 

Lula em sua live

Bem, alguém poderia dizer que o presidente foi tomado pela emoção no discurso no aeroporto, diante de brasileiros e brasileiras que comeram o pão que Israel amassou em Gaza. Mas, não. 

Não se tratou de um destempero, de uma frase impensada. Ele não apenas falou na noite de segunda como repetiu na sua live semanal nesta terça (14). 

Novamente, a fala presidencial foi editada para uma versão mais aguada.

O que Lula disse na Conversa com o Presidente, depois de mencionar os assassinatos de crianças, mulheres, jornalistas e funcionários da ONU e Cruz Vermelha:

“É por isso que eu disse ontem [no aeroporto] que a atitude de Israel é igual a terrorismo, não tem como dizer outra coisa.”

O que foi publicado no seu ex-Twitter: “Não acho correta a resposta de Israel ao ataque terrorista do Hamas. O ataque as crianças e mulheres inocentes se assemelha ao terrorismo”.

Lula não tratou a ação de Israel como “incorreta”. Tratou como assassinato, palavra que ele pronunciou mas não apareceu no texto oficial. Lula não disse que os ataques de Israel se assemelham a terrorismo. Assemelhar-se a algo é ser parecido. Lula usou a palavra “igual”, muito mais assertiva e contundente. 

Um trecho de Lula em sua live, fortíssimo, foi a denúncia da limpeza étnica em curso em Gaza: “Eu estou percebendo que Israel quer ocupar a faixa de Gaza e expulsar os palestinos de lá”. Não há menção a isso no perfil presidencial no ex-Twitter.

Veja o que Lula falou (primeiro sobre o terrorismo do Estado de Israel e depois sobre limpeza étnica) e a seguir o post:

 

 

Lula muda a posição do governo

Lula abriu a nova etapa da posição brasileira horas antes da recepção no aeroporto, no evento de atualização da Lei de Cotas, no final da manhã, no Palácio do Planalto. 

O presidente foi contundente: “Eu nunca tinha sabido de notícias de que crianças fossem vítimas preferenciais em uma guerra. A quantidade de mulheres e crianças que já morreram, e a quantidade de crianças desaparecidas a gente não tem conhecimento em outra guerra. Nessa guerra, depois do ato provocado, e eu digo ato de terrorismo do Hamas, que provocou um ato. As consequências, a solução do Estado de Israel é tão grave quanto foi a do Hamas porque eles estão matando inocentes sem nenhum critério”.

Este trecho do discurso presidencial não mereceu menção em seus perfis nas redes sociais, mas repercutiu imediatamente. O presidente sofreu ataques da mais poderosa entidade sionista em solo brasileiro, a Conib (Confederação Israelita do Brasil), amplificados fortemente em todas as mídias conservadoras, aderidas à ótica israelense. "As falas hoje do presidente Lula equiparando as ações de Israel ao grupo terrorista Hamas são equivocadas e perigosas" diz um trecho da nota em tom de sutil ameaça. No fim, a nota acusa Lula de desequilíbrio, posto que para o sionismo a única posição “equilibrada” é a que submete-se aos seus ditames.

O giro que Lula está operando é, de fato, de grandes proporções, mas há quem no círculo de assessores presidenciais sopre à mídia conservadora que “não é nada demais”. 

Há luta no Planalto e Itamaraty ao redor da posição brasileira no massacre em Gaza. E os sionistas, a extrema direita e seus aliados estão de cabelos em pé e farão de tudo para submeter o governo.

Veja o trecho do discurso de Lula no evento da Lei de Cotas: