PROPAGANDA ENGANOSA

"Saltburn", novo filme da Prime Video, é uma das piores coisas já produzidas pelo cinema

Elenco de primeira é esmagado por um roteiro tosco que não vai a lugar algum

Créditos: Divulgação
Escrito en OPINIÃO el

"Saltburn" (2023), o novo filme da Prime Video, deve ter enganado muita gente com seus vídeos de divulgação, pois os trailers tinham tudo para fisgar a audiência e levar as pessoas a dar o play na plataforma: elenco estelar, fotografia incrível e uma "trama" aparentemente polêmica sobre sexualidades e luta de classes. No entanto, pouco se salva nessa bomba atômica, que certamente é uma das piores coisas já produzidas pelo cinema.

O filme tem como ponto de partida a chegada de Oliver (Barry Keoghan) à renomada Universidade de Oxford. Em seguida, ele estabelece amizade com o milionário Felix (Jacob Elordi). Oriundo da classe trabalhadora, Oliver passa a conviver com os jovens herdeiros da instituição de ensino e descobre que o mundo é dividido entre "nós" e "eles".

Dessa maneira, ficamos com a impressão de que a diretora e roteirista Emerald Fennell vai abordar a questão de classes e sexualidades não heterossexuais entre jovens universitários. Ela tenta, mas não entrega.

Dentro do mundo dos herdeiros

Após tomar conhecimento de uma triste história de Oliver, Felix o convida para passar as férias no castelo de sua família, e aqui o filme desanda por completo – quer dizer, até esse momento já se passaram modorrentos 30 minutos em que nada acontece.

Com Oliver dentro do castelo, a diretora Emerald Fennell passa a tratar das bizarrices daqueles que compõem o topo da pirâmide social, ou seja, os super ricos. Para tanto, uma série de personagens bizarros é apresentada, mas tudo fica na superfície.

Não há problema algum em explorar peculiaridades do mundo dos super ricos, mas o fato é que essa não é a premissa do filme. Esse defeito no roteiro esmaga o excelente elenco escalado para o filme: sobre o que Fennell quer discutir? Luta de classes? LGBTfobia? Tudo e nada?

Elenco estelar esmagado por um roteiro tosco

Ao esquecer as discussões sobre luta de classes e homossexualidades, "Saltburn" cai em um lugar extremamente perigoso: o da psicopatia. Pior ainda: o roteiro do filme associa as sexualidades não heterossexuais ao "perigo", "vício" e toda sorte de perturbação. Tosco e completamente datado.

Infelizmente, com um roteiro sem pé nem cabeça que se perde a cada minuto do filme, a fotografia e o elenco – os atores Barry Keoghan e Jacob Elordi, e a atriz Rosamund Pike (que interpreta a mãe de Felix) – entregam tudo, sendo esmagados por um roteiro que mais se assemelha a um saladão mal feito e sem tempero.

Raros são os filmes que conseguem, em seu roteiro, ter um tema central e, a partir deste, abordar uma série de assuntos que o circundam; alguns exemplos são "Mulholland Drive" (David Lynch), "Carvão" (Carolina Markowicz) e "Amores Brutos" (Alejandro González Iñárritu). Não é uma tarefa fácil, e esta com certeza não foi alcançada por "Saltburn".

Uma das alegorias usadas pelo filme serve perfeitamente para retratar a ruína dessa obra: no jardim do castelo da família Felix há um labirinto que vai servir de ícone para uma série de situações. O roteiro de "Saltburn", ao abrir vários caminhos, se perde e, ao fim, não consegue entregar nada mais do que boas atuações e uma bela fotografia, que sozinhas não seguram um longa-metragem. Tudo se perde, e o que resta é um filme caricato e profundamente risível.