ELIS REGINA

Parentes da Elis Regina e Belchior continuam atrás de dinheiro, como os nossos pais; que mal há nisso?

Sempre que algum músico – ou um filho – negocia uma canção com a publicidade ressurge esta discussão; trata-se de trabalho honesto e ponto final

Maria Rita e Elis Regina.Créditos: Divulgação/Volkswagen
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Concomitantemente à explosão de elogios e emoções estuporadas, o novo comercial da Volkswagen, em que o diretor Dulcídio Caldeira coloca juntas as cantoras Maria Rita e sua mãe, Elis Regina, morta há 41 anos, desagradou muita gente também.

As críticas foram bater até mesmo no fato de terem usado Belchior, autor da emblemática canção “Como nossos pais”, interpretada pelas duas em dueto no comercial.

O mesmo pandemônio também foi causado quando Tom Jobim disponibilizou sua “Águas de Março”, em 1986, para nada mais nada menos do que uma campanha da Coca-Cola, a “água suja do imperialismo”, como dizia a esquerda da época. Tom não só cedeu a canção, que teve sua letra totalmente alterada, como também fez uma rápida aparição no comercial.

Para tal, nosso “maestro soberano” ganhou uma bolada que deve ter garantido a ele e aos seus bons momentos de tranquilidade para compor outras tantas obras-primas. Não é para menos que ele é o autor da frase: "sucesso no Brasil é considerado ofensa pessoal”.

A coisa não para por aí. São infindáveis os comentários depreciativos sobre qualquer artista que, por uma via ou outra, faz muito sucesso, ganha muita grana e sobretudo, se envolve em publicidade.

Além disso tudo, há um fato novo no caso deste comercial da Elis: o uso da Inteligência Artificial e as questões éticas que a envolvem. A mesma discussão surgiu quando a tecnologia permitiu que Natalie Cole fizesse um dueto com o pai, o lendário cantor Nat King Cole, transportando da década de 50 para 1991 o megassucesso “Unforgettable”.

Há exemplos sem fim de uso dos filhos sobre a obra dos pais. Muitos apostam que Elis ficaria indignada por ser um comercial da Volkswagen e que Belchior não gostaria do uso de sua canção etc. Eles não estão mais aqui pra dizer.

O que há de incontestável, no entanto, por trás disso tudo é que estamos falando de artistas, ou seja, trabalhadores das artes que, assim como todo e qualquer profissional, lutam para sobreviver. Assim como os pais deles e os nossos também, permanecemos diariamente nesta corda bamba atrás de um dinheirinho que nos dê conforto para prosseguir.

Ao assistir o comercial de Elis com a filha Maria Rita me emocionei por varias razões. A principal delas foi pelo fato de a tecnologia ter permitido algo que foi arrancado da vida de Maria Rita e da de todos nós: a presença renovada da Elis, mesmo que de mentirinha. Além disso, imaginei o tanto que a mãe ficaria orgulhosa de ver a filha fazendo tanto sucesso e, ao mesmo tempo, faturando uns bons trocados sobre um legado lindo, limpo e repleto de honestidade artística. O mesmo vale para os herdeiros de Belchior.

Estamos o tempo todo falando de trabalho honesto, dinheiro limpo ganho por gente talentosa. Tudo o mais que possa ser dito fica por conta das questões sentimentais de cada um. E, como tais, que elas sejam resolvidas nos seus respectivos divãs.