MOUZAR BENEDITO

Fobia: qual é a sua?

Fobia, é (ou era) um medo doentio, irracional, de alguma coisa ou de uma situação

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Escrito en OPINIÃO el

Foi há muitos anos, no milênio passado, que fiz uma matéria sobre fobias para uma revista destinada a adolescentes. Gozado, dizer isso: milênio passado. E não sei se gozado, está mais para estranho, que a palavra fobia mudou de sentido.

Fobia, expliquei, é (ou era) um medo doentio, irracional, de alguma coisa ou de uma situação. Por exemplo, a claustrofobia, que é esse medo extremo de lugares fechados. Conheci um cara que não entrava em elevadores de jeito nenhum, se entrasse começava a suar, o coração disparava. Foi trabalhar num escritório que ficava no oitavo andar de um prédio e subia a pé. Já vi também gente com agorafobia, que é o contrário: medo de lugares abertos, como praças. 

E conheci umas fobias esquisitas. Um colega de trabalho saía pra almoçar com o grupo e não topava nunca ficar no meio do salão, tinha que ficar de costas para a parede. Brincava com ele que devia ter muitos inimigos. Ele não respondia. Um dia, ele deu uma passada no banheiro enquanto ocupávamos uma mesa e resolvemos ocupar as cadeiras que tinham parede atrás, deixando para ele, como única alternativa, uma cadeira de costas para o meio do salão do restaurante. Pediu que alguém trocasse de lugar com ele, ninguém topou (tínhamos combinado) e ele acabou indo para outra mesa, sozinho. Não sei que nome tem essa fobia.

Tem algumas fobias muito justificáveis, como a aracnofobia, o medo de aranhas. Não chego a ter “fobia”, no caso, mas não vacilo com elas, assim como não vacilo com cobras, cujo medo extremo chama-se ofidiofobia ou ofiofobia. Uma fobia frequente é o medo de dirigir (às vezes de estar num carro com outra pessoa dirigindo), a amaxofobia. 

Minha mãe tinha uma coisa que fiquei sabendo que o nome é brontofobia: medo de tempestades, de raios, de trovões. Mas era um medo justificável: antes de eu nascer, minha família, com quatro filhos, morava na zona rural e uma tempestade dessas brabas derrubou, com muitos raios e ventos, quase todas as casas do bairro em que ela morava, inclusive a “nossa”. Ela me contou que era uma casa de pau-a-pique, e as paredes começaram a vacilar. Não tinha forro, era o telhado direto lá em cima. Meu pai, sabiamente, mandou todo mundo deitar no chão, pôs colchões em cima de cada um e em cima dos colchões colocou as camas. Meu irmão mais velho me contou que sentia partes da parede e do telhado caindo, quebrando as ripas da cama em cima dele, e ele sentia umas pancadas amortecidas pelos colchões. Ninguém se feriu.

Os moradores reconstruíram suas casas em regime de mutirão, minha família voltou para a sua, e poucos meses depois nova tempestade derrubou de novo... Foi aí que a minha mãe decidiu: “Vamos mudar daqui, se você não quiser ir ou eu vou sozinha com as crianças”, disse ao meu pai. E por isso fui o primeiro filho a nascer na cidade, que não era tão cidade assim: a zona urbana de Nova Resende tinha pouco mais de dois mil habitantes. E depois de mim vieram mais cinco filhos urbanos. 

Bom, voltando às fobias estranhas, tem a afefobia, que é o medo de contato, acho que traduziria mais como medo de afetos. Altofobia, o medo de alturas, é comum. E acho que muitas mulheres com maridos violentos podem ter androfobia, medo de homens. Uma que não se manifestou em mim porque ainda não aconteceu uma situação que justificasse: autofobia, que é o medo de ficar sozinho. Gosto de ficar com outras pessoas. Sou o contrário de quem tem demofobia, medo de multidões. Uns certos devotos de um político que felizmente saiu do poder devem ter bibliofobia, medo de livros. Acho que nunca leram um e têm horror a quem leu.

Não digo que tenho cinofobia, medo de cães, mas a maioria deles não gosta de mim, não sei porque. E não chego a ter eclesiofobia, medo de igreja, mas não sou adepto de nenhuma... 

Enfim, há fobias para todos os gostos. Por sogras, por trabalho (ah, essa tem muitos adeptos), por sapos...

Mas o que me levou a lembrar disso é que o sufixo fobia “ganhou” outras conotações. Começou, acho, com homofobia, que no sentido original seria medo doentio de homossexuais (o que já seria um medo besta), mas é usada com o sentido de ódio incontido. Pelo menos, pensei quando começaram a usar essa palavra, não é “gayfobia”. Acho estranho isso de homossexuais rejeitarem qualquer palavra em português para falar deles e adotarem uma palavra gringa (não chego a ter gringofobia, mas sou muito crítico ao imperialismo e chego a ter quase que uma fobia aos gringófilos).

Converso com homossexuais e eles usam certas palavras que eu não posso usar, porque não tenho “lugar de fala” – essa expressão me irrita um pouco. – Se eu não sou baixinho, não posso me colocar no lugar amistosamente ao lado dos baixinhos (epa, usando essa palavra para os “verticalmente prejudicados” posso estar cometendo uma fobia?); se não sou magrelo (já fui), não posso falar dos magrelos. 

Escrevi há umas duas décadas um livrinho de que gosto muito, sobre Luiz Gama, para a Editora Expressão Popular. Na época, Luiz Gama era um personagem quase esquecido e não apareceu outra pessoa interessada em escrever uma minibiografia dele para a editora que tem uma coleção sobre pessoas que deviam constar na História do Brasil, mas são ignoradas, aos participantes de movimentos populares. Hoje, diriam que eu não tenho “lugar de fala” para escrever sobre esse negro heroico, libertador de escravos, que eu admiro muito e é unanimemente respeitado. 

Nisso de “lugar de fala” (que não me convence) tenho um que me permite usar a palavra certa: velho. Mas sei que mesmo assim receberei críticas. Aos 76 anos, me defino como velho. Engolia mais ou menos a palavra idoso, não gostava da expressão terceira idade, e pra piorar inventaram a babaquice de “melhor idade”. Lembro-me de uma entrevista no rádio em que o entrevistado disse que era cego. O entrevistador o “corrigiu” dizendo que ele não podia usar essa palavra, tinha que dizer que era “deficiente visual”. E com muita razão, levou uma bronca do cego: “Deficiente visual é gente com miopia, hipermetropia, essas coisas. Eu não enxergo nada, sou cego, e não me encha o saco”.

Ah... me lembrei de uma coisa agora. Uma vez, recentemente, ouvi falarem mal de alguém, muito mal, e disseram que ele era “cisgênero”. Confesso que não sabia o que significa isso. Parecia uma coisa muito grave. Fui procurar e vi que é condição da pessoa que se identifica com o gênero em que nasceu. Mulher que se identifica como sendo do sexo feminino, homem que se identifica como sendo do sexo masculino. Heterossexualidade, enfim, passou a ser um defeito dos piores. 

Voltando à transformação do sufixo fobia, depois de homofobia, veio a gordofobia, a velhofobia (também chamada de “etarismo”) e não sei mais o quê. Estou esperando loiras xingarem quem conta piadas de loiras: “Isso é loirafobia”. 

Para terminar, na matéria que fiz para os jovens, terminei com uma pra lá de estranha: fobofobia, que era o medo doentio de ter fobias. Bem... No vocabulário atual, com a ressifignação do sufixo fobia, fobofobia deveria ser muito apreciada por militantes exacerbados do politicamente correto, que devem ter ódio a quem tem qualquer fobia. Fobofobia, seria então uma fobia positiva, a única dignificadora.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum