Resenha

O realismo plástico de “Tudo que Imaginamos como Luz” – Por Cesar Castanha

O filme de Payal Kapadia foi o vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano

Escrito en Opinião el
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.
O realismo plástico de “Tudo que Imaginamos como Luz” – Por Cesar Castanha
Cena de Tudo que imaginamos como luz. Principale Validée/Divulgação

Em uma cena de “Tudo que imaginamos como luz” (dir. Payal Kapadia, 2024), um afogado é resgatado na praia. Prabha (Kani Kusruti), enfermeira, vai à frente do aglomerado de pessoas em torno do homem desacordado e o traz de volta com técnicas de socorro. Em um quarto com esse mesmo homem, na cena seguinte, Prabha e o desconhecido encenam um estranho dueto. Não mais afogado e enfermeira, agora eles são Ulisses e Penélope. O homem que parte para o mar, e a mulher que o espera com alguma hesitação, a reticência própria da espera.

O que a poderíamos entender como um elemento mágico nessa sequência é meramente o efeito de dois corpos em cena que acessam, à luz interiorizada do quarto, sob o efeito de um mistério que é próprio do cinema e da atuação em geral, a projeção de outras interioridades, outras existências que confundem tempos de memória e expectativas dos personagens. É um efeito que associo pessoalmente ao cinema recente do português Pedro Costa – ao menos desde de seu “Cavalo dinheiro” (2014) –, em que o corpo em cena oscila no intervalo entre o espaço e a lembrança. “Tudo que imaginamos como luz”, diferentemente de “Cavalo dinheiro”, não é construído em torno desses efeitos, mas aqui, nessa sobra mágica, eles dão outra dimensão ao filme e à sua protagonista.

O filme de Kapadia, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano, segue no geral uma orientação narrativa bastante realista. A rotina de Prabha em Mumbai, uma mulher que perdeu a comunicação com seu marido, trabalhando na Alemanha, é intercalada pela de sua colega de apartamento e aprendiz de enfermagem, Anu (Divya Prabha), que namora secretamente um rapaz muçulmano (Hridhu Haroon), enquanto seu pai, em vão, envia-lhe retratos de pretendentes.

A sugestão realista dessa narrativa é, porém, confundida ou desestabilizada por uma forma que favorece uma série de efeitos plásticos de luz e iluminação, dando a essa Mumbai realista uma materialidade propriamente cinemática. Nas cenas da cidade, quando o filme faz uso de muitas externas noturnas, a multiplicidade de luzes das ruas – dos camelôs, lojas, meios de transporte –, junto ao movimento constante de transeuntes e de ritmos da vida urbana de uma das cidades mais populosas do mundo, produz, na encenação de Kapadia e no excelente trabalho de fotografia de Ranabir Das, um tipo muito sofisticado de hipersensibilidade e difusão luminosa nessa apresentação material do cenário. Aqui, o filme chega a se assemelhar aos impressionantes efeitos de visualidade conquistados por “Amores expressos” (dir. Wong Kar-Wai, 1994) ao filmar Hong Kong, mas retém outros dos efeitos de imagem que constituem o espaço deste, como a manipulação do movimento.

As duas comparações feitas neste texto, com os cinemas de Pedro Costa e Wong Kar-Wai, podem sugerir uma perspectiva de que “Tudo que imaginamos como luz” tem um experimentalismo bastante contido, nunca arriscando de fato a radicalidade formal dessas outras duas filmografias. E isso é verdade. Parece-me que a ambição de Kapadia não é de romper com a janela da transparência realista, mas de reelaborar a plasticidade de uma relação do cinema realista com a realidade social e também expandir a imaginação em torno de suas personagens, que não são impedidas de mergulharem nas fantasias e devaneios de suas interioridades.

Chega a ser impressionante a precisão com que Kapadia utiliza a linguagem que escolheu para colocar em cena a história dessas duas trabalhadoras. Em primeiro lugar, pela maneira como recorre a uma iluminação cinemática, recusando qualquer tentação de naturalismo. Quando as luzes da cidade cumprem seu papel na cena, há sempre um trabalho da encenação em torno delas, sustentando uma difícil e bem executada coesão formal entre exteriores e interiores, praia e mercado público, caverna e apartamento, hospital e loja de eletrônicos. Kapadia, assim, cumpre um tipo de promessa realizada no título, um tanto quanto demasiadamente literal, do filme. Excedendo-me um pouco na contrariedade que é permitida a um crítico, diria que há apenas uma lamentável restrição nessa ideia de “imaginar” a luz, especialmente em um filme em que, muito mais do que isso, a experimentamos de tantas formas.

“Tudo que imaginamos como luz” é parte da programação do XV Janela Internacional de Cinema do Recife, que ocorre até o dia 8 de novembro.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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