MARQUÊS DE SAPUCAÍ

40 anos do Sambódromo carioca: um histórico de desfiles engajados

A própria criação do sambódromo, durante o governo de Leonel Brizola, é essencialmente política, porque, para além de sediar os desfiles durante o carnaval carioca, o local foi pensado para abrigar 160 salas de aula.

Construção da Marquês de Sapucai e Leonel Brizola na inauguração do "sambódromo" no Rio.Créditos: Arquivo
Escrito en OPINIÃO el

Neste ano, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí (oficialmente denominado “Passarela Professor Darcy Ribeiro”, em homenagem a um de nossos grandes intelectuais) completa quatro décadas. Trata-se de um dos principais palcos de uma das maiores manifestações populares do Brasil.

Como tudo que é popular por aqui, o carnaval historicamente é atacado por setores da intelligentsia nacional. Sobretudo em fevereiro, não é raro ouvirmos a falaciosa associação entre alienação das massas e carnaval ou a acusação (não menos falsa) de que a festa de Momo tem um caráter despolitizado.

No entanto, os quarenta anos de desfiles na Marquês de Sapucaí nos apresentaram uma realidade totalmente diferente do que apregoam os detratores do carnaval.

Aliás, como bem lembrou o jornalista Leo Lupi, em texto publicado no site Disparada, a própria criação do sambódromo, durante o governo de Leonel Brizola, é essencialmente política, porque, para além de sediar os desfiles durante o carnaval carioca, o local foi pensado para abrigar 160 salas de aula.

Leonel Brizola na inauguração do Sambódromo (Arquivo)

Por outro lado, o Grupo Globo, oposição ferrenha ao governador, se colocou contra a construção da passarela do samba. Na época, os veículos de comunicação da família Marinho noticiaram que a obra não ficaria pronta para o carnaval, ou que teria problemas em sua estrutura.

Desde sua inauguração, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí presenciou inúmeras manifestações políticas.

Em 1988, centenário da Abolição da Escravatura, Escolas de Samba como Mangueira e Vila Isabel não conceberam a libertação dos escravos com um gesto benevolente da elite branca, mas ressaltaram a resistência da população negra ao cativeiro e denunciaram a pobreza vivida pelos descendentes dos escravizados em comunidades carentes.

Um ano depois, a Beija-Flor de Nilópolis abordava as desigualdades sociais com o enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”. Já em 1990, a São Clemente alertava para a crescente mercantilização do carnaval, com a exclusão da população pobre e o destaque concedido às chamadas celebridades. Em meados da década de 2000, foi a vez de a Vila Isabel cantar a latinidade, sentimento que, ao contrário do que ocorre em outras nações, está pouco presente entre os brasileiros.

Como não poderia deixar de ser, os retrocessos políticos e sociais no Brasil dos últimos anos também foram contemplados nos desfiles na Marquês Sapucaí.

Em 2018, a Paraíso do Tuiuti escancarou para o mundo o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, com um enredo que fazia ligações entre o período escravocrata e o desmonte da CLT promovido pelo governo Temer. Personagens como “Guerreiros da CLT”, “Vampiro Neoliberalista” (alusão a Temer) e “Manifestoches” (referência à classe média que foi às ruas pedir o golpe) entraram para a história.

No último carnaval antes da pandemia da Covid-19, a Acadêmicos de Vigário Geral apresentou um palhaço gigante com uma faixa presidencial, fazendo sinal de arma com a mão e a Mangueira questionou em seu desfile: E se Jesus tivesse nascido nos dias de hoje? Negro, pobre, favelado, indígena, LGBT ou mulher? Como ele seria tratado pelas classes mais abastadas, pela polícia e pelos “profetas da intolerância”?

Diante desse histórico (apresentado bem resumidamente neste texto), não é por acaso que as mentes mais conservadoras odeiam o carnaval. A festa é uma excelente oportunidade para questionar o status quo.

Em última instância, é muito melhor ver o povão brincando, pulando, se divertindo (e também protestando) na Marquês de Sapucaí do que ver os “manifestoches” indo às ruas para reivindicar pautas retrógradas. Estes sim, são extremamente alienados!