OPINIÃO

Extrema direita raiz e extrema direita nutella

Nossos “patriotas” consideram o Brasil inferior em tudo. Eles odeiam o povo brasileiro, a cultura nacional, nosso clima e as manifestações populares (sobretudo o carnaval). Se pudessem, viveriam em Miami.

Jair Bolsonaro e Donald Trump.Créditos: Presidência da República / Instagram Donald Trump
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Historicamente, a extrema direita se caracteriza pelo forte nacionalismo e grande aversão ao “outro”. Adolf Hitler, por exemplo, considerava os alemães (supostos arianos) como “a raça superior”. No presente contexto, o principal nome dessa corrente ideológica é o ex-presidente dos Estados Unidos e atual postulante à Casa Branca, Donald Trump. O slogan de sua campanha – “America First” (EUA em primeiro lugar) – não deixa dúvidas sobre o nacionalismo exacerbado.

Também as medidas adotadas pelo governo do republicano (2017-2020) demonstram essa linha ideológica: restrição à imigração, relativo isolacionismo diplomático, unilateralismo, retirada de acordos internacionais, sobrevalorização da indústria estadunidense e protecionismo econômico.

Não por acaso, devido a esses ideais e políticas “antiglobalização”, nas últimas eleições presidenciais, Trump não foi o candidato preferido do grande capital (certamente também não será este ano). Em contrapartida, seus discursos demagógicos e propostas de soluções simples para problemas complexos – como culpabilizar imigrantes pelo desemprego – são bem-recebidos pelo trabalhador pobre nativo (independentemente de sua origem étnica).

Na Europa, outros lemas políticos também revelam o nacionalismo exacerbado da extrema direita: “A França para os franceses” (Le Pen e sua Frente Nacional), “Nossa cultura, nosso lar, nossa Alemanha” (Alternativa para a Alemanha), “Polônia pura, Polônia branca” (Partido Polonês da Lei e da Justiça) e “Mantenha a Suécia sueca” (Democratas Suecos).

Por aqui, a principal corrente da extrema direita, o bolsonarismo, tem seu bordão “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” (cópia descarada de um dos lemas mais repetidos pelos nazistas – “Deutschland über alles” –, ou seja, “Alemanha acima de tudo”, em livre tradução). No entanto, esse “patriotismo” bolsonarista é mera fachada. Na prática, as coisas são bem diferentes.

O leitor e a leitora conseguem imaginar um líder nacionalista batendo continência à bandeira de outro país ou dizendo ao mandatário de outra nação que o ama (na própria língua estrangeira) e, depois desse ato grotesco, ser desprezado? Pois bem, como é do conhecimento de todos, Bolsonaro se prestou a esses papéis vexaminosos: prestou sua submissão à bandeira dos Estados Unidos (sob o eufemismo de “respeito”) e, em outra ocasião, se declarou a Donald Trump: “I love you” (fala prontamente desdenhada pelo então presidente estadunidense).

Do mesmo modo, é difícil imaginar manifestações de extrema direita com a presença massiva de bandeiras de outros países. Mas, como se viu ontem (25/2) na Avenida Paulista, durante o “carnagado”, várias bandeiras do Estado de Israel tremulavam nas mãos dos militantes bolsonaristas (vendidas por ambulantes a cinquenta reais a unidade; enquanto a bandeira brasileira saia a quarenta reais, de acordo com informações do UOL).

Esse tipo de atitude subserviente ao sionismo gerou uma cena bizarra, flagrada pela reportagem da Fórum: Um homem – autointitulado “profeta ex-comunista” – abraçou um judeu vestido com as cores de Israel, que se negou a tirar uma foto segurando a cruz de Jesus (como sabemos, ao contrário do que ainda pensam muitos evangélicos, os judeus não são cristãos).

Além dos vexames no campo simbólico, a política econômica do governo Bolsonaro demonstrou a pior face da extrema direita tupiniquim. Como bem destacou o pensador espanhol Daniel Vaz de Carvalho, no artigo “A UE no fio da navalha”, “a extrema-direita sempre foi o recurso do grande capital confrontado com a sua incapacidade de dar solução às contradições e antagonismos que origina. É também, o recurso para impedir que se evidenciem e desenvolvam soluções da esquerda”.

Seguindo essas palavras, podemos acrescentar que, no Brasil, esse espectro ideológico ainda cumpre outra função (para variar, em acordo com sua diretriz de submissão). Trata-se de atender aos interesses do imperialismo, ao adotar a entreguista agenda econômica neoliberal. Não por acaso, uma das máximas do bolsonarismo é: “conservador nos costumes, liberal na economia” (algo impensável para qualquer extrema direita com a mínima autoestima).

Assim, contrariando a lógica histórica, temos por aqui um “nacionalismo” que não atua, preferencialmente, pelos interesses das elites locais, mas em favor das aspirações do grande capital externo. Enquanto Trump protegia seu mercado da concorrência de outras nações, Bolsonaro fez o possível para abrir, de forma subserviente, a economia brasileira às investidas estrangeiras (o estrago só não foi maior, porque, até para a tarefa de quebrar o país, o inelegível foi incompetente).

Invertendo a tradicional máxima da extrema direita, nossos “patriotas” consideram o Brasil inferior em tudo (o outro – seja estadunidense, europeu ou israelense – é sempre melhor do que nós). Eles odeiam o povo brasileiro, a cultura nacional, nosso clima e as manifestações populares (sobretudo o carnaval). Se pudessem, viveriam em Miami.

Em suma, recorrendo a uma linguagem bastante usual na internet (ironicamente, frequente nas postagens dos próprios seguidores do “mito”), podemos dizer que, se o trumpismo é a “extrema direita raiz”; o bolsonarismo é a “extrema direita nutella”. Nelson Rodrigues ficaria atônito com tamanho viralatismo.