CRÔNICA

Sala de espera – Por Luis Cosme Pinto

Ele acreditou que era o fim, correu ao hospital e teve uma sucessão de surpresas

Créditos: Pixabay Free
Escrito en OPINIÃO el

Podia ser salão de festa, tem lugar de sobra pra banda de música e dezenas de convidados. Podia, mas não é. Naquela sala ninguém está para farra. A sala é a sala de espera do pronto socorro de um hospital de São Paulo. As 50 cadeiras estão quase sempre ocupadas.

Já que vão esperar, que esperem sentados; cansam menos, reclamam menos, repete um funcionário.

Não é tão simples. Sentado ou deitado ninguém espera feliz.

- Só um minutinho.

- Sua mesa tá quase pronta.

- Tô descendo, amor.

Pouco importa hora e local, por mais gentil que seja o nosso atrasado, temos a doçura de um suco de jiló quando é a nossa vez de esperar.

Antes de voltar à sala de espera do hospital, te apresento o homem de poucos cabelos, orelhas peludas e mãos enrugadas – na falta de apelido melhor será chamado de Peludo.

A segunda-feira despertou já cansada pra ele. Manhã nascida pra continuar noite, Peludo comentou com os botões de seu desbotado pijama.

O que Peludo percebeu na moleza do dia era a lerdeza do próprio corpo adoecido. Veio febre, mal-estar, dor da sola dos pés ao cume liso da cabeça.

Temeu a dengue e tremeu de frio no outono de 30 graus. Massacrado pela exaustão, seguiu para o hospital de táxi. Acreditou que não venceria a pé o um quilômetro de distância.

Chegou, passou pela triagem, preencheu ficha e assinou sem ler meia dúzia de declarações em que concordou com tudo. Livre da burocracia, entrou na tal sala de espera.

Primeiro a Covid e agora a dengue transformaram os hospitais, que no passado eram território dos mais velhos. Peludo se surpreende com cabeleiras de neve ao lado de chumaços verdes e roxos; peles finas e rascunhadas por veias azuis, vizinhas de corpos tatuados e musculosos.

A espera leva horas:  tirar sangue, passar no ultrassom, alagar a pobre bexiga e voltar pra sala de espera.

Lá, um TAM-TAM ecoa alto, enquanto senhas piscam no monitor de vídeo. Peludo tem certeza: esqueceram dele.

Sem ânimo, espera quieto – que afinal é o que se espera numa sala de espera. Então,  se surpreende com sinais vitais naquele ambiente de luz branca e fria.

Um jovem paciente entrega a uma senhora um kit-lanche do hospital. É suco artificial e comida industrializada, infelizmente, mas o que conta ali é a atitude do rapaz. É o gesto dele que faz todos abandonarem suas telas. Um senhor entrega a curiosidade, mas a timidez é maior que o apetite. O jovem percebe, insiste, vai até ao balcão da enfermagem e pega mais um lanche. O homem levanta e aperta mão em agradecimento, está emocionado.

A bolacha de água e sal tem outro sabor depois de 5 horas de espera.

Por trás das lentes multifocais, os olhos de Peludo seguem vigilantes. Duas pessoas leem livros de escritoras brasileiras. Um é sobre o jeito singular de fazer política de um ex-senador. O outro é um romance sobre o abandono de uma mulher apaixonada. A namorada mais feliz do mundo um dia descobre que seu homem sumiu.

Nas cadeiras ao lado, um casal. Ele com quase 70, ela recém-chegada ao time. Ela pega a mão dele. Ele entrelaça os dedos sem aliança nos dela.

- Tá com medo?

 - Tô.

- Tô contigo. Sempre.

Sem saber porque, Peludo agarra as próprias mãos. Também tem medo.   

Um toque no ombro é o calmante. A jovem paciente avisa, “o senhor deixou seu celular ali carregando e ele tá tocando, quer que eu traga aqui?”

Peludo agradece. Vê a chamada perdida, no caso chamada ganha. Não queria mesmo atender.

Nessa hora surge a doutora Camila. Menos de 40, sotaque pernambucano, só os olhos pretos e as sobrancelhas espessas escapam da máscara e do jaleco folgado. Ela conduz Peludo ao consultório. “É apenas uma virose, o senhor vai tomar esses remédios e bastante água. Amanhã vai se sentir bem melhor. Peço desculpas pela demora.”

Peludo é de novo um homem livre. Na saída,  encontra uma espécie de jardim de espera. Uma área verde, com bancos, flores e a visita do sol. Outros pacientes aguardam. Uma mulher se livra dos sapatos e exibe unhas coloridas.

Peludo caminha de volta pra casa. Encontra Karen. Uma carroceira de 22 anos que arrasta quilos de lixo reciclável com Adonis, de 11 meses, preso ao peito.

Peludo oferece seu kit lanche, aquele do hospital. Karen revela que será o café da manhã e o almoço dela e do filho.

Karen e Adonis, uma família que não pode esperar.

*Luis Cosme Pinto é autor de Birinaites, Catiripapos e Borogodó, livro de crônicas da Kotter.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.