O novo eixo dinâmico da Economia Mundial - Por Maria Luiza Falcão
Nova multipolaridade desafia estruturas tradicionais de poder: o G7, o FMI e a OTAN perdem centralidade frente a novos arranjos regionais, como BRICS+, AIIB e redes asiáticas de inovação
O século XXI testemunha um fenômeno histórico: o deslocamento do centro dinâmico do capitalismo. O que antes gravitava em torno do Atlântico Norte — berço da industrialização, das finanças e da hegemonia política — move-se rapidamente para o arco do Pacífico.
Esse movimento, perceptível nas estatísticas e nos fóruns globais, é também visível nos gestos diplomáticos e nas novas agendas: a COP 30 em Belém confirma que o futuro do capitalismo não é apenas verde, mas também oriental e multipolar.
Belém e o mundo em transição
A COP 30, que está ocorrendo nesse momento em Belém do Pará, simboliza a inflexão histórica do sistema mundial. Sob o tema ambiental, desenha-se algo mais profundo: a mudança do centro dinâmico do capitalismo.
Mesmo sem Donald Trump e Xi Jinping presentes, as delegações da China, Índia, Indonésia e Brasil assumiram o protagonismo nas negociações, enquanto a Europa fala com prudência e os Estados Unidos se dividem entre governadores e empresas privadas.
Belém representa hoje, o deslocamento do poder de decisão global, da velha geografia atlântica para o arco do Pacífico e do Sul Global.
A Amazônia, palco simbólico da conferência, converteu-se em metáfora da nova economia: o capitalismo verde do século XXI nasce sob outras coordenadas, onde as potências emergentes comandam inovação, infraestrutura e energia limpa — e não mais apenas exportam matérias-primas.
O deslocamento do centro dinâmico: o conceito e a história
O conceito de “centro dinâmico do capitalismo”, formulado por Schumpeter, Kalecki e Celso Furtado, designa o núcleo do sistema que concentra tecnologia, investimento e comando financeiro.
Durante o século XX, esse centro se situou no eixo Estados Unidos–Europa Ocidental. Hoje, todos os indicadores apontam para sua migração estrutural para o Oriente, com epicentro em China, Índia e ASEAN.
Segundo o IMF World Economic Outlook (outubro 2025), o PIB dos BRICS+ já equivale a 35 % do produto global em paridade de poder de compra, contra 28 % do G7.
Mais de 60 % do investimento mundial em infraestrutura e energia limpa provém de países do Sul. Em termos históricos, estamos diante da maior redistribuição geoeconômica desde 1945.
De Krugman a Summers: quando o mainstream revisa suas certezas
“The world’s economic geography is changing in disconcerting ways.”
— Paul Krugman, Brookings Institution, 2024
(Tradução livre: “A geografia econômica do mundo está mudando de forma inquietante.”)
Paul Krugman, Prêmio Nobel de 2008, tem se distanciado das visões liberais convencionais e adotado uma postura progressista e intervencionista, próxima ao novo keynesianismo verde.
Ele reconhece que o centro de gravidade da produção industrial e tecnológica está se deslocando para o Pacífico Asiático, e que a política industrial e climática deve substituir o velho paradigma da austeridade.
A mesma “nova geografia econômica” que formulou nos anos 1990 para explicar a concentração produtiva do Ocidente agora se aplica ao dinamismo da Ásia — de Shenzhen a Bangalore, de Seul a Jacarta.
“If I had to reduce the current debate about China’s economic rise to one phrase, it would be: technology trumps tariffs.”
— Lawrence Summers, 2025
(Tradução livre: “Se eu tivesse de resumir o debate sobre a ascensão da China em uma frase, seria: a tecnologia supera as tarifas.”)
Lawrence Summers, por sua vez, representa a autocrítica do antigo liberalismo. Depois de décadas de defesa da desregulação e do livre-comércio, ele reconhece que a supremacia econômica do século XXI dependerá da capacidade estatal de financiar inovação e ciência. Para ele, a disputa sino-americana mostra que tecnologia e planejamento substituem as tarifas e as narrativas ideológicas.
Essas revisões — vindas tanto de Krugman quanto de Summers — convergem com o diagnóstico de Richard D. Wolff, que há anos alerta para o esgotamento estrutural do capitalismo financeiro atlântico. De diferentes pontos de partida, esses economistas chegam à mesma conclusão: o centro dinâmico do capitalismo desloca-se para o Oriente, onde Estado e mercado convergem em torno da inovação e da soberania produtiva.
O novo motor do capitalismo: tecnologia, energia e integração oriental
O Oriente consolida-se como a fábrica e o laboratório do século XXI.
A Ásia lidera hoje a produção de semicondutores, baterias, inteligência artificial, biotecnologia e energia renovável:
- TSMC (Taiwan) fornece 90 % dos chips de alta precisão do mundo;
- Huawei e Samsung dominam redes 5G e IA quântica;
- BYD e Tata Motors avançam na mobilidade elétrica;
- Índia e Indonésia se tornam polos de software e minerais críticos.
O comércio intra-asiático já responde por mais da metade das trocas mundiais. A Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), conectando mais de 150 países, cria um sistema logístico alternativo ao das antigas rotas marítimas ocidentais.
Pepe Escobar chama essa rede de:
“the embryo of a transformation of the international system — a soft reinvention of capitalism.”
(Tradução livre: “o embrião de uma transformação do sistema internacional — uma reinvenção suave do capitalismo.”)
Para Escobar, a BRI inaugura um capitalismo multipolar de infraestrutura e energia, em que o Estado-planejador substitui o rentismo financeiro.
Não se trata de anticapitalismo, mas de re-territorialização produtiva — o capital volta a ter base industrial e estratégica.
Belém e a COP 30: o novo contrato ecológico
A COP 30 revelou a mesma mudança de eixo sob outra lente: a transição climática. Enquanto as potências atlânticas chegaram divididas, Lula (Brasil), Modi (Índia), Joko Widodo (Indonésia) e Abdel Fattah al-Sisi, presidente do Egito propuseram um pacto verde produtivo, unindo Amazônia, Índia e Sudeste Asiático.
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado em Belém pelo presidente Lula, simboliza a nova agenda: desenvolvimento sustentável com soberania sobre recursos naturais e tecnologia limpa compartilhada.
O Oriente e o Sul Global transformam o debate climático em estratégia econômica — a ecologia como eixo de acumulação. A economia verde asiática, apoiada por bancos públicos e fundos soberanos, redefine o conceito de desenvolvimento: crescimento com planejamento e inclusão tecnológica.
Trump e o esvaziamento da liderança norte-americana
A liderança norte-americana, sob Donald Trump, ilustra de forma aguda essa contradição histórica.
Mesmo como maior potência militar e tecnológica do planeta, os Estados Unidos se veem progressivamente alijados das decisões coletivas — da COP 30 às negociações comerciais e financeiras.
Trump tenta compensar a perda de hegemonia estrutural com poder coercitivo e isolacionismo retórico, mas o resultado é o oposto: Washington aparece cada vez mais como obstáculo à cooperação global, e não como seu motor.
Enquanto o resto do mundo se organiza em redes de interdependência produtiva, os EUA se fecham num negacionismo e protecionismo defensivo — uma muralha tarifária que reflete o medo da obsolescência industrial.
Essa dissonância entre poder e legitimidade é o verdadeiro sinal de decadência imperial.
Conclusão — O século do Pacífico
O deslocamento do centro dinâmico do capitalismo já é fato consumado.
A hegemonia atlântica, fundada em dívida, financeirização e retórica liberal, vai cedendo lugar a um capitalismo planejado, tecnológico e verde, ancorado no Pacífico e no Sul.
Como sintetiza o espírito da época, não é mais o Ocidente que dita as regras: é o mundo que redige seu próprio manual. A COP 30 apenas conferiu rosto político a essa transição — o capitalismo global mudou de endereço e de idioma.
A nova multipolaridade desafia as estruturas tradicionais de poder: o G7, o FMI e a OTAN perdem centralidade frente a novos arranjos regionais, como o BRICS+, o AIIB e as redes asiáticas de inovação.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição estratégica — elo simbólico entre o Ocidente e o Oriente, entre o Atlântico e o Pacífico.
A liderança de Lula na COP 30 mostrou que o país pode converter sua vocação ambiental e sua diplomacia multilateral em um papel histórico: mediador do novo equilíbrio global.
Referências
Krugman, Paul. The World’s Economic Geography Is Changing. Brookings Institution, 2024.
Summers, Lawrence H. Technology Trumps Tariffs. larrysummers.com, 2025.
Wolff, Richard D. American Empire Is in Decline. Democracy Now!, 3 de abril (2025).
Escobar, Pepe. Eurasia, the Hegemon and the Three Sovereigns. Baku Dialogues, 2025.