Brasília e ETs: Posadas estava errado? – Por Mouzar Benedito
Juan R. Posadas tinha uma visão sobre algumas questões que a própria esquerda considerava maluca
Juan R. Posadas foi um importante líder trotskista. A tendência que criou na Quarta Internacional teve forte atuação, por exemplo, na Revolução Cubana. Enquanto Fidel, Che e Camilo Cienfuegos lideravam a guerrilha na Sierra Maestra, os posadistas atuavam com força nas áreas urbanas, especialmente em Havana, onde promoviam greves operárias apoiando a Revolução. Depois da vitória, bloqueada pelos Estados Unidos e quase toda a América Latina (o México era a exceção), Cuba teve que embarcar no bloco soviético e Posadas se afastou, criticando a “opção stalinista” de Fidel. Nem foi opção, foi falta de opção, mas vamos em frente.
Argentino, trabalhando inicialmente como sapateiro em Córdoba, Homero Rómulo Cristalli Frasnelli (1912-81) adotou o pseudônimo Juan R. Posadas, prática muito comum no tempo de perseguições políticas violentas contra comunistas, fossem eles stalinistas ou trotskistas.
Mas Posadas tinha uma visão sobre algumas questões que a própria esquerda considerava maluca. Ele acreditava, por exemplo, que discos voadores só poderiam ser construídos por uma sociedade perfeita, onde o comunismo (não o soviético) já teria sido implantado. Num mundo capitalista, seria impossível. Por isso, defendia que deveríamos receber bem os extraterrestres, pois eles vinham de uma sociedade comunista perfeita e contribuiriam para uma revolução planetária na Terra. Aliás, defendia uma revolução interplanetária e a criação da União Socialista Interplanetária.
Sei o que muita gente deve estar lembrando: os bolsonaristas alucinados que se reuniram numa praça de Porto Alegre pedindo a intervenção de ETs no Brasil, para salvar o bolsonarismo. Usavam telefones celulares para atrair os ditos ETs!!! Ah, por sinal esses alucinados não entenderam uma gozação de uma socióloga brasileira feita bem antes, em 2001, criticando a submissão do Brasil aos Estados Unidos, prevendo a criação da URSAL – União das Repúblicas Socialistas da América Latina... O ideólogo de Bolsonaro, astrólogo que se dizia filósofo, Olavo de Carvalho, levou essa gozação a sério uns tempos depois, e o gado foi atrás. Isso me fez lembrar uma gozação bem anterior, feita pelo Barão de Itararé, nos tempos da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) propondo a criação da URSAS – União das Repúblicas Socialistas da América do Sul.
Voltando à revolução interplanetária pregada por Posadas, e lembrando da reação dos bolsonaristas à vitória de Lula na eleição para presidente, em 2022, chamando ETs por celulares, seria o caso de perguntar: os ETs são de direita? Neste caso, a proposta de Posadas, de receber bem os extraterrestres seria um tiro no pé, não? Re-re-re... Nem pergunto se existem discos voadores e tripulantes. E quem deveria duvidar deles são os bolsonaristas, não por motivos científicos, claro: geralmente fanáticos religiosos, eles acreditam que Deus criou o homem na Terra e em mais lugar nenhum. Se é assim, não seria contraditório acreditar que viria do espaço uma ajuda a eles, de gente muito mais poderosa do que os meros terráqueos? Não seriam criação divina. Bom, coerência não é o forte desse pessoal. Posadas, materialista, foi mais coerente acreditando em vida inteligente fora da Terra. Aliás, muito mais inteligente do que aqui.
Mas não é mera coincidência que Brasília tenha sido um importante polo posadistas. Ou melhor, são muitas coincidências. Desde antes da fundação, a cidade tem vocação para coisas incomuns, explicações esotéricas para tudo. Para começar, há a previsão do então Dom Bosco, mais tarde São João Bosco, seguidor de São Francisco de Sales e criador da ordem dos salesianos, feita no século XIX, da construção de uma cidade ali, que seria a terra prometida.
Depois da cidade ser construída, houve até teses acadêmicas afirmando que seu criador, Juscelino Kubitschek, era a reencarnação do faraó Akenaton, marido de Nefertiti, que governou o Egito há cerca de 3.600 anos e construiu a cidade de Tell al-Amarna, com um lago e várias construções que “especialistas” consideram ter inspirado obras de Oscar Niemeyer (que seria a reencarnação do arquiteto que chefiou a construção da cidade egípcia). Brasília seria inspirada em Tell a-Amarna e seus criadores seriam os mesmos reencarnados.
E quanto a ter algo de interplanetário, quando o cosmonauta Yuri Gagarin, o primeiro a fazer uma viagem espacial, visitou Brasília, em 1961, disse mais ou menos isso: “Parece que estou em outro planeta”. O que sei é que nunca vi em lugar nenhum tanta gente querendo contato com civilizações interplanetárias. Ah, ali perto tem a Chapada dos Veadeiros, onde construíram até campo de pouso para discos voadores, esperando que um dia baixem lá. Bom... tem Varginha, perto da minha terra, onde garantem terem sido capturados pelo exército alguns ETs que eles escondem.
Sobre o esoterismo, havia uma lenda de que Salvador tinha 365 igrejas, um fiel poderia ir todos os dias à igreja sem repetir nenhuma delas durante um ano. Pois Brasília, quando morei lá, em meados dos anos 1990, é que parecia ter tantas igrejas. Há uma avenida só de igrejas, de todas as crenças. E calculava-se que se toda a população do Plano Piloto, um pouco mais de 400 mil pessoas, resolvesse ir à igreja ao mesmo tempo, caberia nelas.
E não é só nessa avenida que há muitas igrejas: uma das mais bonitas e interessantes (recomendo a visita, mesmo para ateus) é o Templo da Boa Vontade, da LBV (Legião da Boa Vontade). Cheia de simbologias.
Quando cheguei lá pra morar, tinha pouca curiosidade sobre uma religião criada pela médium caminhoneira sergipana Neiva Chaves Zelaya, conhecida como Tia Neiva, que foi pra Brasília em 1959, quando a cidade ainda estava em construção. De tanto ouvir falar dela, resolvi ir ao Vale do Amanhecer, sede do seu movimento religioso que tinha como doutrina o amor incondicional, a tolerância e a humildade. Tia Neiva já havia morrido uns dez anos antes, mas o Vale do Amanhecer continuava firme e forte. Fica a uns 50 quilômetros da cidade, depois de Planaltina, cidade que hoje faz parte do Distrito Federal, mas já existia bem antes da construção de Brasília. Hoje cidade satélite, era uma cidade histórica.
Bom, cheio de curiosidade (e desconfiança, não sou crente), fui lá pra ver uma cerimônia que acontecia ao meio-dia, todos os dias. Parecia que estava vendo um filme de ficção interplanetária. Numa área de cerca de um hectare, há um lago cercado por construções e símbolos de tudo quanto é crença, desde pirâmide até imagens enormes de entes da mitologia inca, indígena brasileira (incluindo um jaguar), santos católicos, esculturas de religiões de origem africana... enfim, ali se pratica o sincretismo religioso radicalmente.
Ao meio-dia começou a cerimônia religiosa, a que assisti de uma arquibancada. Várias “legiões” de pessoas vestidas com roupas coloridas, desfilaram em fila indiana, fazendo que eu me lembrasse do seriado "Flash Gordon", que vi quando criança, nos anos 1950. Depois se encaminharam para um local com construções que pareciam túmulos, e pessoas que procuravam cura para seus males se deitavam de costas, tomando sol e ouvindo as preces de um orador.
Essas preces (ou sermões) tinham uma curiosidade: o pregador falava algo equivalente a um parágrafo de texto e, antes de seguir para outro trecho, falava coisas como “barra zero asterisco zero barra ao contrário”. Segundo diziam, ele repetia o que falava a Tia Neiva. Imaginei então que a origem disso seriam textos datilografados por algum amigo da Tia Neiva, algum burocrata. Quando iam fazer um texto com vários parágrafos, esses datilógrafos às vezes separavam um do outro colocando símbolos como, por exemplo: //0\\, e acredito que Tia Neiva e seus seguidores liam isso dessa forma: barra barra, zero barra ao contrário barra ao contrário. Alguns usavam asteriscos e outros símbolos, podiam ser, por exemplo, +*§*+, e às vezes podiam ser muitos desses símbolos, como /0—*—0\... e lido isso seria como “barra zero travessão asterisco travessão zero barra ao contrário”.
Ah, uma coisa interessante: não pediam dinheiro a ninguém. Levei amigos de São Paulo lá outras vezes e nunca pediram nada.
Enfim, não sei se ainda existe um núcleo Posadista em Brasília, acredito que não. Mas sou saudosista em relação a eles. Hoje em dia, parece que a maioria dos brasileiros (brasilienses incluídos) que procuram contato com extraterrestres estão mais para bolsonaristas. Piorou muito. Eu achava estranho que nuns filmes como “Barbarella” e em seriados como “Flash Gordon”, sobre contatos com civilizações de outros planetas, eles sempre tinham governantes ditatoriais. E imaginava: será que os mundos deles não evoluíram? Os bolsonaristas parecem acreditar que continuam tendo governos ao gosto deles, mas não percebem que isso seria negar a crença deles mesmos, que negam a ciência. Como poderiam produzir discos voadores tão sofisticados para viajar de um mundo a outro? Isso sem contar o que já disse, que estariam desacreditando da crença que Deus criou gente à sua semelhança só no planeta Terra. Os posadistas pelo menos acreditavam, ou acreditam, que os discos viriam de um mundo mais avançado, política e cientificamente.
Pelo que tenho notícia, o Vale do Amanhecer continua vigoroso, espero que não tenha acontecido lá a mesma conversão que ocorreu com quem esperava ajuda de discos voadores para solucionar nossos problemas aqui. Que as relações interplanetárias que creem sejam posadistas e não bolsonaristas.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.