Análise

Procura-se o secretário de Transportes de São Paulo – Por Rafael Calabria

Secretário de uma das pastas mais polêmicas da capital segue invisível à opinião pública. Recusa entrevistas, não se posiciona e não participa do Conselho

Escrito en Opinião el
Graduado em Geografia e especializado em Gestão de Cidades pela USP. Foi coordenador de Mobilidade Urbana do Idec, e já atuou com mobilidade pela Cidadeapé e Ciclocidade. Foi membro do Fórum Consultivo de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades.
Procura-se o secretário de Transportes de São Paulo – Por Rafael Calabria
Jorge Caldeira, secretário de mobilidade de São Paulo, e o prefeito Ricardo Nunes. Divulgação

Como pode um secretário de Mobilidade e Transportes de uma cidade grande, chefiando uma pasta que envolve polêmicas que afetam o dia a dia das pessoas, como trânsito, tarifa, ônibus lotado, calçadas ruins, tempo de travessia de idosos, acessibilidade, entre outros, simplesmente nunca falar ou se posicionar sobre nenhum desses problemas?

É isso que está acontecendo na maior cidade do país há mais de dois anos!

Um dos cargos mais importantes do secretariado, que cuida de um dos temas que mais movimentam a imprensa e as reclamações dos cidadãos, não dá entrevista para qualquer jornal da cidade desde abril de 2023!

De lá para cá, foram quatro secretários em dois anos e meio de mandato do prefeito Ricardo Nunes. E, caso o leitor procure no Google o nome do mais recente indicado, Celso Jorge Caldeira, vai encontrar apenas o ato de nomeação ou sua agenda pública. Isso quando a agenda não estiver vazia ou com compromissos genéricos como: “Demandas de Transportes” (?!?).

É inaceitável que alguém com tamanha responsabilidade simplesmente desapareça. Mesmo no Conselho Municipal de Transportes, espaço criado para debate e transparência, os últimos secretários apenas abriram algumas reuniões e foram embora em seguida. A última que levou esse fórum a sério foi Elizabeth França, hoje na Secretaria de Urbanismo e Licenciamento.

Cabe destacar que, de janeiro para cá, pelo menos o presidente da CET, Milton Persoli, está presente em vários debates na Câmara. Já seu colega, presidente da SPTrans, segue tão desaparecido como o chefe, secretário de Transportes.

Como era de se esperar, essa falta de diálogo se reflete no abandono da mobilidade na cidade. Frota de ônibus em queda, tempos de espera insuportáveis, tarifa aumentando, trânsito retornando a níveis pré-pandemia, eletrificação dos ônibus atrasada, obras de corredores atrasadas, rede cicloviária estagnada e pedestres esquecidos. Na última entrevista à imprensa, em 2023, falaram das motofaixas, que agora começam a apresentar problemas graves nos primeiros estudos independentes.

O mais curioso é que a imprensa parece conformada em ser ignorada. Há dois anos, jornalistas e âncoras se contentam em ler notas genéricas da CET ou da SPTrans, ou entrevistar algum técnico enviado pelo secretário, para preservar a própria imagem.

O último capítulo deste descaso ocorreu na Audiência Pública da Câmara, em 15 de outubro, sobre o orçamento da cidade para os próximos quatro anos, tema que mexe com cerca de R$ 50 bilhões! A Secretaria de Transportes, a CET e a SPTrans não mandaram ninguém. Entre os técnicos que se expuseram, uma fez uma fala genérica, sem apresentar tabelas com custos do projeto, e outros apenas se colocaram à disposição “para dúvidas”.

A pataquada irritou até vereadores da base, que agora convocaram o secretário para uma Audiência Pública neste dia 12. A convocação, diferente do convite feito em outubro, não pode ser recusada.

Então, neste 12 de novembro, vamos finalmente descobrir se o cargo de Secretário de Transportes de fato existe na cidade. Será que o presidente da SPTrans também vai se dispor a explicar à população suas propostas? Eles vão explicar o abandono da política de mobilidade da cidade pelo Ricardo Nunes? Por que obras tão equivocadas estão sendo feitas para piorar o trânsito e o ônibus só piora?

Eis o mistério que vamos descobrir nesta quarta…

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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