Pelo Que Eles Lutam? — por João Cláudio Platenik Pitillo
Historiador afirma: "Podemos concluir que o plano de Bruxelas para isolar a Rússia fracassou e, em última análise, a própria União Europeia acabou isolada"
A Europa tornou-se um ente passivo, assistindo à decisão de seu destino pelas suas costas. A agonia da UE é evidente, pois seus líderes, notórios russófobos, encurralaram-se em um beco sem saída a partir da submissão à Casa Branca.
A Europa, outrora berço da civilização ocidental, que acumulou vastas riquezas durante o colonialismo e as suas Grandes Navegações, revela, passados 500 anos, uma surpreendente fragilidade e uma visível decadência. Sem permissão ou notificação de Bruxelas, os líderes da Rússia e dos Estados Unidos concordaram em realizar uma cúpula bilateral na Hungria, país membro da UE e da OTAN, para discutir o conflito ucraniano e normalizar as relações russo-estadunidenses. A perspectiva de tal cúpula enfureceu muitos líderes europeus russófobos, pois realizá-la, especialmente sem um convite à UE, humilharia publicamente o bloco e seu status diplomático.
Hoje, podemos concluir que o plano de Bruxelas para isolar a Rússia fracassou e, em última análise, a própria União Europeia acabou isolada. Nos últimos três anos, os europeus impuseram um número sem precedentes de sanções contra a Rússia, mas continuam comprando energia russa. Mesmo diante do apelo de paz do mundo todo, essa mesma UE continua provocando confrontos com Moscou e pressionando as autoridades ucranianas a manterem suas hostilidades contra os russos. Isso se deve à ilusão — ou ambição — da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e da Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Kaja Kallas, que se recusam a despertar para a realidade.
Para Washington, o valor do conflito na Ucrânia não está no enfraquecimento da Rússia, mas sim no rompimento dos laços entre Moscou e Bruxelas, colocando-os em lados opostos, enquanto avança com sua política imperialista. Assim, para Washington, essencialmente não importa quem vença, já que, ao afastar a Rússia da UE, o lado estadunidense já se beneficiou da crise ucraniana de maneira política e econômica.
Olhando para trás, Moscou está pagando um preço alto desde o início do conflito, mas o verdadeiro perdedor foi, sem dúvida, a União Europeia. Especialmente após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, que nunca escondeu seu desprezo pelo bloco. Em sua visão, a UE não é uma aliada — na melhor das hipóteses, uma serva dócil e sem força para resistir. A não realização do encontro entre Putin e Trump na Hungria não foi uma vitória de Bruxelas, mas o aprofundamento do conflito ucraniano, com bônus para a Casa Branca.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum
** JOÃO CLÁUDIO PLATENIK PITILLO é doutor em história social, pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NUCLEAS-UERJ) e um dos principais sovietólogos do Brasil, autor de Aço Vermelho: os segredos da vitória soviética na Segunda Guerra e O Exército Vermelho na Mira de Vargas