Opinião

Por que a direita brasileira está em crise? - Por Emir Sader

Ela não tem o que apresentar, o que propor aos brasileiros. Que futuro, que perspectiva, que alternativa ao tipo de governo da esquerda, que ela tanto critica?

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Emir Sader é sociólogo, cientista político e atuou como professor da USP, Unicamp, Uerj e como pesquisador do Centro de Estudos Socioeconômicos da Universidad de Chile, além de autor de várias obras sobre o tema.
Por que a direita brasileira está em crise? - Por Emir Sader
Marina Ramos/Câmara dos Deputados

A provável reeleição do Lula expressa, entre outras coisas, a crise atual da direita brasileira, que, até há não muito tempo, parecia dividir com a esquerda o apoio da população brasileira. E que hoje sofre até para ter um candidato que, pelo menos, concorra com certo apoio eleitoral com o Lula.

Por que esse declínio tão acentuado da direita e da extrema direita, se conta com o apoio dos grandes meios de comunicação, com apoios internacionais, com a força ainda existente do modelo neoliberal e sua ideologia de mercantilização do mundo?

Em primeiro lugar porque, apesar disso tudo, a direita brasileira não tem o que apresentar, o que propor aos brasileiros. Que futuro, que perspectiva, que alternativa ao tipo de governo da esquerda, que ela tanto critica? O que tem a dizer, mesmo sobre temas de sua preferência, como a violência, que não seja o exibicionismo que produziu mais de cem mortos promovido pelo governador do Rio de Janeiro?

Além disso, a direita brasileira subiu no carro do tarifaço de Donald Trump que, a seus olhos, levaria à catástrofe do governo Lula e os faria aparecer como os legítimos representantes do governo dos Estados Unidos. Um tiro que saiu pela culatra, fazendo-os aparecer como traidores da pátria, além de regalar de presente ao Lula o papel de representante da soberania nacional, atacada pelo governo norte-americano.

Mas, além de tudo isso, também está o bolsonarismo, uma algema que prende pelos pés e pelo coração a todos os setores da direita brasileira, que é, toda ela, bolsonarista. Não conseguem resolver o dilema de tratar de herdar o apoio que ainda tem o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, tratar de se distanciar dele em alguns aspectos mais bizarros. Não conseguem sequer unir a direita sob uma única direção.

Seu mais provável candidato, Tarcísio Freitas, não se decide se tenta a candidatura à presidência, com uma provável derrota diante do favoritismo de Lula, se promovendo como o possível candidato da direita em 2030. Ou se trata de buscar a reeleição em São Paulo, para não virar político sem cargo. Onde, mesmo agora, terá, provavelmente, que enfrentar a disputa com Geraldo Alckmin, que provavelmente será o candidato de um Lula com prestígio até mesmo em São Paulo.

A provável reeleição do Lula para um quarto mandato faz com que a direita se concentre mais nas eleições parlamentares, tentando manter o controle sobre a Câmara e uma forte presença no Senado. Como forma de repetir o esquema atual, de atrapalhar, tanto quanto possa, o governo Lula.

Mas mesmo esta perspectiva não está assegurada. Seja porque a desmoralização do Congresso atual e dos seus dirigentes dificulta a reprodução da presença atual da direita nele. Seja porque até mesmo setores do chamado Centrão, com o oportunismo que lhe caracteriza, se aproximam do governo Lula, sabendo que terão que enfrentar pelo menos mais um mandato do presidente atual.

Assim, se a direita brasileira teve um passado com certo peso, tem agora um presente contraditório e um futuro duvidoso, facilitando a hegemonia política da esquerda, representada pelo Lula e pelo PT.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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