Ecoteologia: a COP30 e sua denúncia espiritual – por pastor Zé Barbosa Jr
O desafio está lançado: ou a fé cristã se torna ecológica, ou permanecerá cúmplice do colapso
Belém do Pará, terra em que tive o prazer de morar por 4 anos, e onde nasceu minha filha Isabela, está sendo palco da COP30, a conferência mundial sobre o clima. É a primeira vez que o encontro acontece na Amazônia, o coração verde do planeta — e também o epicentro das contradições brasileiras. De um lado, a floresta que ainda resiste; do outro, o avanço do desmatamento, do garimpo ilegal e do agronegócio predatório.
A COP30 é, portanto, mais que um evento diplomático: é um espelho diante do qual o Brasil precisa se olhar. E nesse espelho, o rosto da fé cristã — tão influente na sociedade e na política — também precisa se reconhecer, e se perguntar: que evangelho é esse que se cala diante da destruição da Criação?
O Evangelho, em sua essência, é uma boa notícia para toda a vida. Numa leitura mais humanizada do Evangelho, percebemos que Jesus não veio “salvar almas”, mas restaurar relações — entre as pessoas, com Deus e com a própria Terra. No mito da criação, a Bíblia começa com o sopro divino que dá vida ao barro e coloca o ser humano como guardião do jardim, não como seu dono. O primeiro mandamento ecológico da fé é simples e radical: “cultivar e guardar” (Gênesis 2:15). Cuidar da Terra é parte do mandamento do amor. No entanto, o discurso e a prática de grande parte da chamada bancada evangélica no Congresso parecem ter esquecido esse princípio.
Enquanto igrejas falam sobre “mordomia cristã” e responsabilidade diante de Deus, seus representantes políticos votam sistematicamente contra leis que protegem florestas, rios e comunidades tradicionais. Apoiam o desmonte de órgãos ambientais, o afrouxamento da fiscalização, e celebram projetos que favorecem o agro que envenena e destrói nascentes. O evangelho da prosperidade, tão em voga, acabou se convertendo num evangelho do lucro, onde a terra virou mercadoria e a natureza, obstáculo ao progresso.
Ironia das ironias: o mesmo Deus que é "adorado" em templos com ar condicionado é ignorado quando fala por meio dos clamores da Terra ferida.
Na COP30, estão reunidos líderes mundiais para discutir caminhos de transição ecológica e justiça climática. Mas a conversão que o planeta mais precisa é espiritual. É o reconhecimento de que não há salvação individual em um mundo condenado pela ganância. A crise ambiental é também uma crise moral e teológica. Como pode a fé cristã, que proclama a vida, alinhar-se com políticas de morte? Como pode um povo que ora por “chuvas de bênçãos” apoiar o desmatamento que seca os rios e mata os peixes? Como pode um movimento que se diz defensor da família não perceber que sem floresta, sem água e sem ar puro, nenhuma família sobrevive?
O compromisso com os povos originários é outro ponto de confronto entre a espiritualidade e a política. São eles que, há séculos, guardam a terra com sabedoria e sacralidade, reconhecendo nela uma mãe viva — a mãe Terra. No entanto, muitos cristãos, em nome de uma evangelização colonial e triunfalista, tratam esses povos como pagãos a serem convertidos, e não como mestres de uma espiritualidade ecológica que o próprio cristianismo deveria aprender a reaprender. A demarcação de terras indígenas, que deveria ser um gesto de justiça e reconhecimento histórico, é constantemente atacada por parlamentares evangélicos, como se fosse uma afronta à fé ou à soberania nacional. É trágico: o Evangelho que deveria unir está sendo usado para justificar a destruição.
Na verdade, o cristianismo bíblico é profundamente ecológico. O salmista canta: “Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe” (Salmo 24:1). Paulo afirma que toda a criação geme, esperando a redenção que só pode vir pela manifestação dos “filhos de Deus” (Romanos 8:22). Jesus, por sua vez, se retirava para o monte, falava do Reino usando sementes, ventos, pássaros e figueiras. A fé cristã não nasceu entre muros de concreto, mas sob o céu aberto da Galileia. Se há um pecado que precisamos confessar como igreja, é o de termos rompido com a natureza. De termos substituído o jardim por cercas, o cuidado por consumo, a reverência por domínio.
A COP30, realizada na Amazônia, é um chamado à conversão — não apenas dos governos, mas das consciências. O Evangelho precisa reencontrar o seu “verde”, sua dimensão cósmica e poética. A espiritualidade cristã, se quiser continuar a ser boa notícia, precisa se tornar aliada da justiça climática e voz profética em defesa da Terra. Não há Reino de Deus possível sobre um planeta devastado. Não há amor ao próximo que ignore o clamor das florestas queimadas.
O desafio está lançado: ou a fé cristã se torna ecológica, ou permanecerá cúmplice do colapso. O Cristo que caminhava sobre as águas, que multiplicava peixes e que usava o vento como metáfora do Espírito, certamente não reconheceria como seus discípulos aqueles que aplaudem a destruição dos rios e a morte das florestas.
A COP30 nos convida, como na antiga parábola, a escolher entre dois caminhos: o do arrependimento e do cuidado, ou o da indiferença e da ruína. Que os cristãos — sobretudo os que detêm poder político — tenham a coragem de lembrar que a Criação ainda é obra de Deus. E que cuidar dela não é pauta de esquerda, mas mandamento sagrado.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum