Meninas boas vão pro céu e as más para onde quiserem - por Julian Rodrigues
Carla Cristina Garcia partiu num átimo: maior que o assombro só a tristeza; todavia, a mestra faceira permanece (árvore frondosa de raízes largas), a pequena gigante feminista de óculos coloridos espraiou conhecimento critico e formou muita gente
“Não se esqueçam que as boas meninas vão pro céu e as más pra onde quiserem...."
“Eu acho que a educação é o caminho. O meu caminho como feminista foi o caminho da educação. De dar palestras, aulas.. Em todas as aulas, não importa o assunto, pode ser aula de pão de queijo,eu sempre coloco o tema do racismo e o tema do machismo.”
“Síndrome de burnout materno é mais uma patologia que se coloca nas costas das mulheres. O que há é a exaustão das mulheres por ter de criar sozinha uma criança o que em qualquer outra sociedade do mundo precisa de uma aldeia inteira."
(Carla Cristina Garcia)
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Mulheres e loucura. Brechós, moda, memórias, vozes de operárias, bruxas, comidas, revoluções cotidianas, crítica cultural, muita, muita literatura. A orgulhosa herança das precursoras resgatada, presentificada e apresentada. A nós, o maravilhamento em cada aula, em cada encontro.
Carla Cristina Garcia veio carregar bandeira. E sem ser feia ou envergonhada, manejava os subterfúgios necessários. Desdobrável, linda demais para casar, fundava linhagens e nunca acreditou em parto sem dor (nem no tal mito tão bem desconstruído por Elisabeth). Amava as brujas, as psicopatas, as más, as loucas.
Wollstonecraft. Braidotti, Butler, Fraser, Preciado, Spivak. Da tradição marxista à teoria queer.. Da teoria da redistribuição fraseriana à desconstrução de gênero butleriana. Eclética e rigorosa, a professora doutora ativista passeava com leveza e entusiasmo pelas diversificadas trilhas da luta e da teoria feminista e LGBT.
Melhor que ouvir Carla nas caretas salas da PUC-SP era descer com ela nos intervalos. Hora do café nosso de cada dia e da diva engolir seus inseparáveis rolos de tabaco enrolados em papel fino que enchiam seus pulmões e aliviavam a alma. (Cá entre nós: nunca confie em alguém que não tenha algum “vício”).
Inquieta, filha do ABC paulista, operária do magistério, Carlota era incansavelmente criativa, insubmissa, entusiasmada, engajada, comprometida com sua classe, com seu gênero e com todas oprimidas.. Acreditava epistemológica e existencialmente que os subalternos não só podem, mas devem falar. E como gostosa e afiadamente falava!
Solidária, agregadora, sempre linda, maquiada, gostosa fazia questão de sempre nos surpreender com sua infindável coleção de óculos. Carla lacrava, muito antes do próprio conceito existir. Bruxa, dia não, dia sim, propagava, orgulhosa, “las ventajas de ser mala”.
Chega um tempo em que achando bárbaro demais o espetáculo, as delicadas preferiram morrer. Porque a morte é apenas vida, sem mistificação.
Carla Cristina Garcia: presentemente presente agridocemente.
Julian Rodrigues, professor e jornalista, mestre em ciências humanas e sociais, doutorando em estudos latino-americanos, ex-aluno de Carla Cristina Garcia