Quem é Derrite e quem acredita que ele salvará o Brasil do crime organizado?
Janta com Eduardo Cunha, o mais notório corrupto do país, tenta amordaçar a PF e integra um governo criminoso que deixou o PCC tomar tudo. Sim, amigos. Ele nos salvará
O ódio artificialmente implantado contra a esquerda e tudo que não se pareça com uma visão de mundo fundamentalista e reacionária, vira e mexe, traz um efeito colateral bizarro que, quando não gera risos, acaba por gerar preocupação. A mais recente dessas reações adversas apareceu nos últimos dias e se trata da confiança cretina e inacreditável que alguns brasileiros depositaram na ideia de que Guilherme Derrite salvará o Brasil do crime organizado por assumir a relatoria do PL Antifacção elaborado pelo malvadíssimo e comunista governo Lula.
Antes de qualquer consideração, a primeira coisa a ser respondida é: quem é Guilherme Derrite? A resposta, certamente, já seria o suficiente para não entrarmos em outros pormenores, e talvez até dispensaria citar os últimos fatos e acontecimentos envolvendo esse PM “aposentado” de São Paulo que se tornou deputado federal após falar num podcast que acredita ser “vergonhoso” um policial ter mais de cinco anos de carreira “e não ter matado pelo menos três pessoas”.
Derrite, de 41 anos, serviu como oficial da Polícia Militar de São Paulo por 18 anos, boa parte do tempo na temida Rota, o 1º Batalhão de Choque da PMESP, unidade policial mais letal do país. Nascido em Sorocaba, no interior paulista, chegou ao posto de capitão e foi removido da Rota por matar demais. Sim, oficialmente a explicação é essa, por parte da PM e por parte dele também. Imagine você, alguém ser expulso do batalhão mais letal do Brasil por, justamente, estar matando acima da média (já elevadíssima). Pois bem, não há números oficiais sobre quantas pessoas Derrite matou, mas ele esteve envolvido num curto período de tempo em sete ocorrências que resultaram num total de 17 mortes.
Em 2018, surfando a insanidade imoral do bolsonarismo, ele se elege deputado federal com 82.015 votos. Figura das mais nauseabundas desse movimento ideológico ultrarreacionário e violento, ele repetiu a dose em 2022, agora se reelegendo com inacreditáveis 239.772 votos, ficando como o 29º candidato mais votado no maior colégio eleitoral do país. Tal “prestígio” conquistado sempre falando de mortes e enaltecendo a violência policial o levou a um convite de Tarcísio de Freitas para chefiar a Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo. Ele aceitou e, a partir dali, tudo nessa área virou um misto de caos com terror em terras bandeirantes.
Liderou pessoalmente duas operações policiais, batizadas de “Escudo” e “Verão”, respectivamente em 2023 e 2024, na Baixada Santista, que resultaram em 84 mortes, todas nas periferias das cidades que integram essa área metropolitana litorânea.
Grande parte das vítimas fatais não tinha qualquer relação com o mundo crime, pessoas absolutamente inocentes que foram metralhadas. A tropa de Derrite matou dona de casa, criança de quatro anos, um rapaz cego, um cadeirante e adolescentes distraídos. Fuzilaram carro errado, matando pai de família, entravam em bairros pobres atirando a esmo, enfim, uma terror gratuito, sádico e naturalizado. Quando confrontado, fazia questão de frisar que sua preocupação era com os policiais. Seu chefinho, Tarcísio, disse até numa coletiva que “podiam ir reclamar na ONU, ou no raio que o parta, porque não estava nem aí”.
Só que ninguém consegue fugir do próprio destino e da colheita daquilo que foi semeado. No final de agosto deste ano, a Polícia Federal desencadeou em São Paulo a maior operação policial da História do Brasil, a “Carbono Oculto”. Foram desbaratados 40 fundos de investimentos do PCC, que operava por meio de várias fintechs uma colossal cifra de R$ 52 bilhões.
A maior organização criminosa brasileira, que atua em pelo menos 28 países, fazia tudo isso a partir da Faria Lima, o centro financeiro nacional “limpinho e cheiroso” localizado numa zona nobríssima da capital paulista, lavando dinheiro de um império constituído por inúmeras usinas de etanol, mais de mil postos de gasolina com combustíveis adulterados, fazendas, construtoras, iates, aeronaves, contratos com viações de transporte público e licitações vencidas em dezenas de prefeituras do estado, além de infinitas redes de padarias, bares e até motéis.
O Brasil descobriu, naqueles dias, que o local frequentado por Tarcísio de Freitas pelo menos duas vezes por semana, onde ele se empanturrava de salgadinhos em eventos do “mercado”, era o ponto nevrálgico de uma organização criminosa que comprou praticamente todo o estado. Tudo debaixo do nariz de Tarcísio e das polícias chefiadas por Derrite, que não fizeram absolutamente nada.
Tarcísio e Derrite foram expostos para a sociedade brasileira, desde a “Carbono Oculto”, como uma dupla de políticos bolsonaristas que, após anos gritando contra o crime, afirmando-se “linha-dura”, era na verdade completamente incompetente, ou conivente.
Meses depois, com o governo Lula apresentando o PL Antifacção para tentar solucionar essa chaga brasileira aparentemente invencível que é a criminalidade organizada, os caciques da extrema direita, em conluio com parte do centrão e com a anuência de Hugo Motta, entenderam que era o momento de Derrite pedir exoneração do cargo de secretário em São Paulo para reassumir seu mandato, para com isso receber a relatoria do referido Projeto de Lei. E assim ele o fez.
A primeira medida anunciada? Retirar todas as atribuições da Polícia Federal no que diz respeito ao combate ao crime organizado, tornando-a um órgão alegórico e quase sem funções. Nos casos em que pudesse ajudar numa investigação, propunha Derrite, ela deveria ser solicitada e autorizada pelos governadores. Já imaginaram se Tarcísio tivesse que permitir a ação da PF em São Paulo? Sim, o pessoal que foi alvo da “Carbono Oculto” estaria por lá até hoje, operando da Faria Lima.
Após um terremoto com sua proposta vergonhosa e esdrúxula de “matar” a PF, Derrite entrou em processo de erosão total. Nas redes, nos telejornais, na birosca da esquina, o papo era sempre igual: “ele quer proteger o crime organizado impedindo a PF de atuar no combate a esses bandidos perigosos”.
Em meio a esse pandemônio e de uma fritura em praça pública que parecia não ter fim, Derrite parece ter encontrado um bom aconselhamento para dar a volta por cima. Foi com Arthur Lira, na quarta-feira (12), jantar com Eduardo Cunha. Sim, é isso mesmo. O homem que vai salvar o Brasil do crime organizado foi a um regabofe movido a muito vinho português do Douro e bacalhau, num restaurante de Brasília, jantar e negociar com o ex-deputado que se tornou uma espécie de metonímia para corrupção.
Quando alguém quer referir-se a um sujeito escabrosamente corrupto, o primeiro nome citado é sempre o de Cunha, condenado em quatro processos criminais (sendo que alguns depois foram anulados) por uma roubalheira que ultrapassou a cifra de US$ 7 milhões, conforme dados dos inquéritos da PF. O parlamentar que derrubou Dilma Rousseff abrindo um processo farsesco de impeachment, que passou quase cinco anos na cadeia cumprindo pena, virou o farol de Alexandria para Derrite. É com ele que o secretário de Segurança Pública de São Paulo conversa para chegar a um texto legislativo que salve o Brasil das garras do crime organizado.
Pois é, minha gente. Pode confiar, Guilherme Derrite vai nos salvar desses malfeitores das facções e tudo será um oceano de calmaria a partir de agora.