OPINIÃO

Era melhor no Orkut? Nostalgia digital é mais do que um simples saudosismo

As redes sociais “pós-Orkut” impuseram novos ritmos aos nossos neurônios, caracterizados por ouvir mensagens de áudio em velocidade acelerada, pela realização de multitarefas, pelo vício em internet, pela fadiga mental, pela ansiedade e pela atenção fragmentada.

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Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Especialista em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu (FI). Autor de quinze livros, entre eles "A ideologia dos noticiários internacionais" (Editora CRV).
Era melhor no Orkut? Nostalgia digital é mais do que um simples saudosismo
Pessoas acessam Orkut em uma antiga lan house no Brasil. Evaristo Sá /AFP

Quando se fala em redes sociais, não é raro alguém afirmar que o Orkut era muito melhor do que suas congêneres que vieram depois. Essa percepção, no entanto, vai além de um mero saudosismo digital. Trata-se de uma reflexão sobre o formato peculiar daquela falecida plataforma e sobre as inovações tecnológicas das últimas décadas. É o que defendeu o neurologista Ivar Brandi na palestra “Novas sinapses: saúde mental e redes sociais”, transmitida pelo “Café Filosófico” da TV Cultura.

Diferente das redes atuais, o Orkut era acessado principalmente por um computador de mesa – o que envolvia todo um ritual de chegar em casa e ligar a máquina. A plataforma tinha uma capacidade limitada para fotos, os depoimentos nos perfis alheios eram geralmente escritos por amigos próximos, com palavras elogiosas, e as interações se davam por meio de comunidades lúdicas e inofensivas – sendo a mais popular intitulada “Eu Odeio Acordar Cedo”. Um universo muito distante da realidade que hoje testemunhamos nas redes sociais.

Diante desse contraste, Brandi propõe uma questão interessante: como saímos de uma rede tão lúdica, inofensiva e leve e chegamos às redes atuais, que associamos a adoecimento, depressão, ansiedade, insônia, cancelamento, cyberbullying e esgotamento mental?

O primeiro marco importante para essa transição foi a incorporação do Instagram pelo Facebook. As duas redes se fundiram não apenas em tecnologia, mas também na lógica dos algoritmos. Dessa forma, passaram a oferecer aos usuários predominantemente aquilo que supostamente desejavam ver, de acordo com seus gostos e prazeres. Consequentemente, esse mecanismo nos afasta progressivamente das diferenças e das opiniões adversas.

Posteriormente, o amplo acesso a smartphones, o desenvolvimento da banda larga e o rápido processamento de dados levaram ao colapso dos limites entre “online” e “offline”. As redes sociais invadiram todos os ambientes e domínios da vida. Viver e postar tornaram-se atividades realizadas concomitantemente. Mesmo quem não tem perfil no Instagram, X, TikTok ou Facebook sente o impacto dessa ubiquidade. As redes sociais hoje influenciam profundamente nossos hábitos de consumo, a produção cultural, a linguagem, o debate público e nossa sociabilidade.

Além disso, as câmeras frontais dos dispositivos móveis e a conexão contínua popularizaram a cultura do selfie, possibilitando o culto à autoimagem e a ascensão dos influencers e suas “vidas perfeitas”. A comparação com o outro – uma das principais raízes da infelicidade humana, segundo Kierkegaard – atingiu níveis estratosféricos. Ficamos presos em um ciclo infinito de insatisfação, ao desejar constantemente o que os outros têm e são (ou aparentam ter e ser).

As redes sociais “pós-Orkut” também impuseram novos ritmos aos nossos neurônios, caracterizados por ouvir mensagens de áudio em velocidade acelerada, pela realização de multitarefas, pelo vício em internet, pela fadiga mental, pela ansiedade e pela atenção fragmentada.

No campo político, a já mencionada lógica dos algoritmos, que nos expõe somente a conteúdos semelhantes, elimina qualquer tipo de “provocação cognitiva” – ou seja, a capacidade de contra-argumentar ideias divergentes. O resultado é a formação de bolhas ideológicas intolerantes a qualquer pensamento que lhes seja dissonante.

Diante desse cenário, fica evidente que a nostalgia em relação ao Orkut não é um simples desejo de retornar ao passado, mas um lamento pela perda de um modelo de convívio online que era, por natureza, mais limitado e, portanto, mais humano. Sua “simplicidade técnica”, longe de ser uma deficiência, funcionava como uma espécie de antídoto contra a saturação, a comparação desmedida e o isolamento ideológico que hoje definem a experiência digital.

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