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Estados Unidos Devocionais do Brasil

Seu primeiro decreto aboliu a Constituição, substituindo-a por uma versão em couro sintético do Livro Ultra Sagrado, escrito pelo próprio Jovelino.  O preâmbulo começava assim: “No princípio, não havia esquerda.”

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Piauiense, de Teresina, e reside em São Paulo desde os três anos de idade. Além de cronista e frasista juramentado, é sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
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Anjo Vingador. Freepik

Foi então que Arauto Jovelino, outrora conhecido apenas por suas selfies rezando com uma AK-47 no ombro, finalmente foi empossado com pompa como clérigo-presidente dos novíssimos e reluzentes Estados Unidos Devocionais do Brasil.

A cerimônia foi transmitida ao vivo pelas 72 redes nacionais da fé e três canais de YouTube consagrados. Houve adoração, transes, fogos de artifício em forma de pombas e uma encenação dramática da queda da antiga república pecadora, representada por um ator vestido de Paulo Freire sendo chicoteado por um anjo.

Arauto Jovelino, agora renomeado como Sua Graciosa Inerrância Mística, subiu ao púlpito presidencial com o semblante de quem acabara de receber um WhatsApp de Deus confirmando: “Vai que é tua, meu Filho.” E ele foi.

Seu primeiro decreto aboliu a Constituição, substituindo-a por uma versão em couro sintético do Livro Ultra Sagrado, escrito pelo próprio Jovelino.  O preâmbulo começava assim: “No princípio, não havia esquerda.”

O Congresso foi reformulado e renomeado como o Sinédrio Federal, composto por clérigos, coachs, e um ou outro ex-jogador de futebol convertido. O STF acabou sendo desfeito, seus membros enviados para campos de reeducação teológica e em seu lugar instituiu-se o Conselho dos Setenta Justos, formado por membros que passaram no Teste de Fidelidade Doutrinária do TikTok: um desafio que consistia em identificar heresias em vídeos de dez segundos.

As novas leis teocráticas promulgadas por Sua Graciosa Inerrância foram outra grande novidade. O imposto de renda, por exemplo, foi instituído com eficiência impressionante: tornou-se o primeiro sistema tributário da história a pagar as restituições no além.

Mas, como era de se esperar em regimes onde o sagrado e o cômico se fundem em uma só pessoa, os milagres patrióticos começaram a pipocar. Em pouco tempo, a inflação foi rebatizada como Provação Divina, o desemprego como Tempo de Deserto, e a censura virou Jejum Cultural. Qualquer cidadão que ousasse discordar era encaminhado às chamadas Escolas de Reavivamento, temidas Fazendas de Prece com Segurança Armada.

O Ministério da Ciência foi extinto e trocado pelo da Fé. Este passou a investigar coisas mais importantes do que o mapeamento genético ou a cura do câncer. Todos os esforços passaram à comprovação da existência da Arca de Noé, no Acre.

O mais notável, porém, foi o avanço da teocracia no campo da diplomacia internacional. Ao discursar na ONU (rebatizada por Jovelino como “Nações Ainda Não Convertidas”), o Grande Arauto iniciou seu pronunciamento com uma frase inesquecível:

— O Brasil agora é de Deus. Quem discordar, favor sair da tribuna e aguardar a minha unção no hall.

E assim vamos indo, de livro Ultra Sagrado em uma mão, baioneta na outra, e pão sem fermento como refeição oficial. Em nome da fé, da moral e da Bolsa Sagrada Família apenas para os convertidos.

No fim, uma coisa é certa: se Deus for mesmo brasileiro, deve estar considerando seriamente uma mudança de nacionalidade.

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