Argentina

Quem escuta o mar ouve a voz de Alfonsina

Ela se dissolveu nas águas, mas deixou versos como bússolas. Cada onda repete seu nome, lembrando-nos que a poesia é o único modo de permanecer.

Escrito en Opinião el
Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.
Quem escuta o mar ouve a voz de Alfonsina
Alfonsina Storni. Reprodução

Há poetas que escrevem com a tinta do tempo, outros com a tinta do sangue. Alfonsina Storni escreveu com ambas.
Na Buenos Aires do início do século XX, uma cidade de espelhos e interdições, ela ousou dizer o que o mundo proibia às mulheres: que o corpo é pensamento, que o desejo é um idioma da alma e que a liberdade pode custar a própria vida. Em cada poema, Alfonsina expôs a carne e o espírito, como quem abre uma janela para o infinito e, por um instante, respira o impossível.

Sua poesia nasce de um lugar onde ternura e revolta coexistem. Há nela a doçura da esperança e a aspereza da lucidez. Quando escreveu “Tu me queres alva, me queres de espuma, me queres de madrepérola”, não era uma confissão — era um protesto. O homem a queria pura como a manhã, mas ela ardia por dentro como o meio-dia. Décadas mais tarde, a canção Alfonsina e o mar, composta por Ariel Ramírez e Félix Luna, transformaria esse mesmo branco em ausência: “Pela areia suave que o mar lambeu, suas pequenas pegadas não voltam mais.” O que antes era imposição — a pureza — torna-se libertação. A brancura agora é o esquecimento necessário de um mundo que a quis imóvel.

Em outro poema, Alfonsina suplica: “Dá-me teu sal, teu iodo, tua fúria, ar do mar!... e morro, mar, sucumbo em minha pobreza.” É o grito de quem pressente o mergulho. A canção parece responder-lhe, com compaixão: “Sabe Deus que angústia te acompanhou, que dores antigas calou tua voz.” Há, entre o verso e a música, uma conversa que atravessa o tempo — o diálogo entre a mulher e o mito, entre a poeta e o mar que a esperava desde sempre.

Em Poemas de Amor, ela escreve: “Tenho sido aquela que desfilou orgulhosa o ouro falso de alguns versos e se julgou gloriosa.” É um sorriso melancólico, a ironia de quem sabe que a glória é pó. Na canção, esse orgulho se transforma em rendição: “Para te deitar, embalada no canto das conchas marinhas, a canção que o mar canta no fundo escuro do mar.” O ouro falso virou coral, e o som das conchas substituiu os aplausos. A poeta já não busca reconhecimento — apenas repouso.

Seus versos às vezes miram a cidade: “Ruas tristes, cinzentas e iguais, onde às vezes aparece um pedaço de céu.” A monotonia do concreto contrasta com o chamado líquido da eternidade. Na música, essa travessia se completa: “Um caminho só de pena e silêncio chegou até a água profunda.” O mesmo caminho que ela percorreu: do ruído urbano à paz marinha, da vida às profundezas.

No poema Alma Desnuda, ela revela: “Sou uma alma nua nestes versos, alma angustiada e só, que vai deixando suas pétalas dispersas.” A imagem é de uma mulher que se despede em fragmentos — pétalas, pegadas, ecos. E a canção, como um espelho, devolve-lhe: “Sua pequena marca não volta mais.” A poeta se dissolve, mas deixa perfume. E então, o verso que fecha a canção e rasga o silêncio: “Se telefonarem pra mim, diga que Alfonsina não está.” Não há lamento. Há serenidade. Alfonsina não foge da vida — apenas devolve o corpo ao mar.

Na madrugada de 25 de outubro de 1938, em Mar del Plata, ela se vestiu com calma, caminhou até o Atlântico e entrou nas águas frias. Não houve drama, apenas cansaço. Sofria de câncer de mama e de uma solidão mais profunda que a doença. Seu suicídio foi também um ato estético, uma afirmação de liberdade última: o direito de dissolver-se no elemento que sempre a habitou. Entrar no mar foi sua forma de continuar respirando — só que em outro ritmo.

Ao saber da notícia, Félix Luna escreveu a letra de Alfonsina e o mar, e Ariel Ramírez compôs a melodia. Mercedes Sosa a transformou em eternidade. Sua voz terrosa, feita de dor e ternura, parecia chamar Alfonsina pelo nome, como quem fala com uma irmã. Depois vieram outras vozes: o israelense Avishai Cohen, que a reinventou em tom de jazz e melancolia; a espanhola Ana Belén, que a dramatizou como quem encena um destino; e a italiana Mina Mazzini, que lhe emprestou a elegância do veludo e da saudade. Cada uma, ao cantar, levou consigo um punhado de areia argentina, uma lágrima salgada do mesmo mar.

Ouvir Alfonsina e o mar é entrar num território onde a dor se torna oração. Não há ali desespero, há compreensão: o reconhecimento de que tudo o que nasce deve, um dia, retornar. Alfonsina não buscou a morte; buscou a continuidade. E o mar, imenso e maternal, recebeu-a como quem acolhe uma filha.

Há quem morra para ser lembrado, e há quem morra para continuar cantando. Alfonsina pertence à segunda categoria. Sua voz, branca como a espuma e densa como o sal, continua a falar — não em pedra, nem em mármore, mas em mar.

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