'Asas do Desejo' mostra que a eternidade se dobra quando o amor toca o chão - Por Washington Araújo
Entre Berlim e Teotihuacan, Wim Wenders em 1987 filmou o invisível e deu rosto ao mistério humano. Em O Despertar dos Anjos, publicado em 2001, reencontrei essa mesma fronteira: o instante em que a alma desce à terra para aprender a sentir, amar e existir
Há filmes que não passam diante de nós — nós é que passamos por eles. Alguns, como Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, não se limitam a contar uma história; eles nos escutam, nos traduzem, nos medem em silêncio. Há obras que parecem filmar a alma, e Wenders o faz com a precisão de quem sabe que a existência é feita de intervalos, de vazios que respiram entre um gesto e outro. Cada cena é uma pergunta disfarçada: o que é estar vivo, afinal?
Berlim, cidade dividida por muros visíveis e invisíveis, torna-se metáfora do próprio ser humano — metade carne, metade anseio. Nela, anjos caminham entre os vivos, escutando pensamentos, desejos e pequenas ruínas cotidianas. Damiel, o anjo interpretado por Bruno Ganz, observa, mas não participa; conhece o sentido, mas ignora o sabor. Até que o amor o convoca a descer — e ele aceita. Renuncia à eternidade para aprender a fragilidade. A partir desse salto, o preto e branco cede lugar às cores, como se o mundo tivesse finalmente aprendido a respirar.
A câmera de Wenders não narra, revela. Ela acompanha Damiel entre bibliotecas, circos e ruas esfareladas pela história, e transforma o olhar em oração. A filosofia nasce da imagem, e não do discurso. Viver, ali, é um ato de fé — fé na matéria, na queda, no instante.
Foi sobre essa mesma fronteira entre o invisível e o humano que escrevi, anos depois, O Despertar dos Anjos, publicado em 2001 pela Editora LetraViva e traduzido para outras línguas. Mas o início dessa travessia veio muito antes: setembro de 1994, quando percorri Nova Délhi, Jerusalém, Berlim e o Cairo, em busca de algo que não tinha nome — talvez o rumor do sagrado nas cidades dos homens. Cada uma dessas cidades me revelou um modo distinto de compreender o silêncio: o silêncio do deserto, o silêncio das cúpulas, o silêncio dos escombros.
Essa jornada me levou, enfim, ao México. Em Teotihuacan, subi os degraus da Pirâmide da Lua, que se eleva a 43 metros e guarda cerca de 248 degraus até o topo. Lá de cima, o horizonte parecia pulsar em câmera lenta — o ar rarefeito misturado ao cheiro de pedra antiga. A cidade, que os astecas chamaram de cidade dos deuses, é uma ruína viva, uma lembrança de que o homem constrói para entender o que jamais alcançará. Ali compreendi que a ascensão espiritual começa pela descida: quanto mais perto do chão, mais nítido o invisível.
Rever Asas do Desejo é redescobrir que o cinema, quando atinge sua plenitude, não é arte — é estado de consciência.
Quatro diálogos me acompanham desde então, como marcas de fogo.
“Quando a criança era criança, queria que o rio fosse rio e o mar fosse mar.” — É a lembrança da pureza anterior à linguagem, quando o mundo ainda era mundo, e não interpretação.
“É maravilhoso, viver como homem.” — Uma confissão sem pompa, onde a vida não é glória, mas espanto: existir é um privilégio que dói.
“Agora sei o que nenhum anjo sabe.” — Saber é sofrer, e só quem sofre entende o milagre do instante.
“Estamos juntos, aqui e agora.” — A frase mais simples do filme é também a mais revolucionária: o amor acontece no tempo, e o tempo é tudo o que temos.
Asas do Desejo é mais que cinema — é a meditação de um homem que aprendeu a olhar o invisível.
E lembro algo que li há muito tempo, numa madrugada de chuva:
as estrelas são as lágrimas dos anjos, a chorar por não terem o corpo e a vida — e por nunca saberem o que é amar. E é isso.