A mercadoria — por Célio Turino
Histórias como essa aconteceram. Não uma vez, mas muitas, sobretudo na década que precedeu a abolição da escravatura no Brasil
I
Essa história começa na cidade de Campinas. Dois homens adentram no quintal e, sorrateiramente, observam a movimentação na cozinha. É madrugada. Lamparinas e o fogão a lenha iluminam o cômodo, donde é possível avistar o semblante de duas velhas senhoras. Logo amanheceria e os quitutes poderiam ser vendidos após a missa no Largo do Carmo.
Com chapéu e rosto coberto por lenço, os homens, abruptamente, arrombam a porta da cozinha. Eles apontam suas armas para as irmãs beatas, assustando-as, que rogam para que não as machuquem.
— Passem a mercadoria! — dizem eles.
— Não sejam cruéis, é a fonte de nosso sustento — retrucam as beatas.
— Passem logo, ou seremos obrigados a atirar! — responde um dos mascarados, entre voz trêmula e olhos fixos.
Dois homens jovens, um branco e um negro; só se conseguiam avistar olhos e mãos. Os dois pegam a mercadoria e desaparecem na penumbra entre becos. O sol começava a raiar.
II
As beatas habitavam casa modesta e dependiam da venda dos quitutes para viver. Eram bem-quistas na comunidade e conhecidas por seus atos de devoção, sempre atuantes junto às obras da Igreja. Frequentavam as missas duas vezes ao dia, sete dias por semana. Haja pecado a expiar!
Apesar do susto, seguiram à missa, como em todas as manhãs. Após o sermão, o pároco convida as irmãs para contarem aos devotos sobre o infortúnio trágico que sofreram:
— Hoje fomos atacadas pelo bando do Antônio Bento. Esse homem torpe alicia jovens da comunidade para que cometam crimes contra a propriedade. Dois deles invadiram nossa casa e apontaram revólveres para nossos rostos. Eram violentos. Roubaram nosso bem mais precioso. Como iremos sobreviver a partir de agora?
— Os quitutes mais deliciosos da cidade! — complementa outra beata, logo na primeira fila da igreja.
— Que ladrões vis! — diz outra voz.
— É preciso parar com esse tormento! Antes eles assaltavam fazendas, agora estão na cidade, invadindo nossas casas e ameaçando famílias! — retruca outro, mais ao fundo.
Alguns homens se levantam e conclamam os demais a darem um fim àqueles ataques às casas e fazendas:
— Somos famílias de bem! Esses criminosos não podem continuar impunes. É preciso acabar com eles! Vamos prender todos, tenham a idade que for, não importa a origem. Eles estão roubando o que é nosso!
Ouve-se um murmúrio de pavor e o ódio entre muitas vozes. Uma mulher se levanta e começa a rezar, no que é seguida pelos demais. O ambiente se acalma. Outra pede aos presentes para que contribuam com as irmãs roubadas. O pároco assente.
Na saída da igreja, os fiéis entregam moedas. As irmãs se entreolham, conformadas. Elas se deram conta de que, a partir daquele momento, precisariam encontrar outros meios para sobreviver — ou viveriam de caridade.
III
Nos limites da cidade, os assaltantes seguiam escondidos na casa de um aliado. Para não provocar suspeita, permaneceram atocaiados por duas noites e dois dias, escondendo a mercadoria em um barracão. Até que chegou a hora de despachá-la.
Na estação de trem da Boa Vista, um dos integrantes do grupo conversa com o maquinista:
— Antes de chegar à Estação Central, na curva do Bonfim, estaremos aguardando.
— Fique tranquilo, vamos deixar o penúltimo vagão com o portão entreaberto — responde o maquinista. — Mas não se esqueçam: o trem não poderá parar totalmente; apenas vou reduzir a velocidade. Atrás dos sacos de café há espaço para se esconderem. Já está tudo organizado.
Assim procedem os assaltantes, e a mercadoria é despachada para a capital. A viagem acontece sem incidentes.
Aproximando-se de São Paulo, após a Estação da Lapa, o trem circunda as barrancas do Tietê, na Barra Funda, e o maquinista reduz a velocidade. Outra dupla aguardava o produto do roubo, que é lançado na várzea do rio e depois levado para outro barracão, evitando que a polícia encontrasse.
Alguns dias se passam até que o som de um tiburi é ouvido. Os dois jovens colocam a mercadoria no maleiro, e o condutor segue em direção ao rio Tamanduateí. Chegando às margens, novo deslocamento: agora para uma barcaça, com a mercadoria entre sacos e cobertas. O barqueiro segue até Paranapiacaba. O planalto paulista ficara para trás e, do alto da serra, era possível avistar o mar.
IV
O trecho final seria o mais perigoso. Como os roubos estavam cada vez mais frequentes, a guarda se colocava em prontidão. Teriam que fazer o percurso a pé, atravessando a mata atlântica entre a neblina e barrancos escorregadios. Um dia inteiro para descer a serra — mais, se estivesse chovendo.
Até que alcançam o pé da Serra do Mar. Para que chegassem até aquele ponto, muita gente se envolveu, muitos se sacrificaram. O tempo pedia urgência; demorados processos judiciais ou manifestações por decretos e lei não dariam conta do que o momento exigia. Era preciso atitude. Finalmente, eles alcançam o Quilombo do Jabaquara.
Ernestina, a quituteira escravizada pelas velhas beatas, apalpa o estigma de ferro quente que ficara marcado em seu rosto. Com a ponta dos dedos, toca as cicatrizes que resultaram das perfurações e agulhadas que recebia quando errava o ponto dos doces, e pensa nas costas tatuadas pela chibata. Após longa travessia, ela sabia que estaria livre dos castigos, protegida e acolhida. Mulher negra, adulta, com aproximadamente trinta anos, aparentava muito mais. A mulher abre um sorriso bonito e adentra o Quilombo.
Dizem que Ernestina casou-se na Comarca, teve filhos e netos e viveu feliz. Sabe-se também que os quitutes produzidos por suas mãos eram os mais saborosos do Porto de Santos, e os estivadores faziam fila para comprar. Mas ela não vendia todos, reservando parte de suas deliciosas iguarias para distribuir às crianças que a cercavam entre brincadeiras e risadas.
NOTA DO HISTORIADOR – Histórias como essa aconteceram. Não uma vez, mas muitas, sobretudo na década que precedeu a abolição da escravatura no Brasil. Não foi obra de uma pessoa só, mas de muita gente: negros libertos, escravizados rebelados, jovens estudantes, ferroviários, cocheiros, tipógrafos, um ex-juiz de direito em Atibaia, Antônio Bento, seguidor de Luiz Gama, que abandonou o cargo para cumprir juramento que fez no túmulo dele, prometendo que no Brasil nunca mais uma pessoa seria escravizada por outra. Cumpriu o juramento com atitude — e com muita gente junto.
O abolicionismo — não o ato da Abolição assinado por uma princesa, mas a luta popular, anônima e corajosa — foi o primeiro grande movimento social brasileiro, um movimento que possibilitou ao povo se reconhecer povo na solidariedade e na luta. O Quilombo do Jabaquara, em Santos, chegou a contar com uma população de 10.000 pessoas. Quando a Abolição aconteceu, em 1888, a libertação dos escravizados já era realidade pela unidade popular do Brasil “de baixo”. Clóvis Moura e tantos pesquisadores já demonstraram a história da gente livre que se rebelou da senzala e daqueles que estiveram junto a eles. Essa é a nossa história. À época, para defender a liberdade, foi preciso “roubar” escravizados, e aqueles que se colocavam do lado justo eram tratados como criminosos pelos “cidadãos de bem”. Honremos essa memória — e que o povo nunca mais seja mercadoria de ninguém.