Foro de São Paulo, jacarés e PCC: Nikolas dá linha auxiliar para atacar o governo no estrangeiro — por Diego Feijó de Abreu
Nikolas Ferreira mente e revive teoria da conspiração em El Salvador, mas ignora que seu novo ídolo, Nayib Bukele, foi cria política de um partido-membro do Foro de SP
A participação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em um fórum da extrema direita em El Salvador, nesta semana, foi uma peça de propaganda meticulosamente calculada. Diante do anfitrião Nayib Bukele, o parlamentar bolsonarista não apresentou um diagnóstico honesto da segurança pública brasileira. Ele usou um palanque internacional para atuar como linha auxiliar da oposição, exportando teorias da conspiração e pintando um retrato apocalíptico do Brasil para atacar o governo Lula (PT) e o Judiciário.
O discurso de Nikolas foi um compilado de pânicos morais e dados descontextualizados, focado em chocar a plateia estrangeira. Ele citou detalhes bizarros, como o suposto uso de “jacarés” pelo Comando Vermelho para torturar e ocultar corpos, e repetiu números sobre facções criminosas para sustentar a tese de que o Brasil vive um colapso total, governado por bandidos. O objetivo não era debater soluções, mas vender a imagem de um narcoestado em colapso.
A ironia central, que desmonta toda a sua tese, foi convenientemente ignorada pelo deputado. O alvo principal de Nikolas, mais uma vez, foi o Foro de São Paulo, apresentado como “cérebro” do crime e da corrupção na América Latina.
A hipocrisia central: Bukele é cria do Foro de São Paulo
Em sua fala, Nikolas Ferreira reviveu a velha teoria da conspiração olavista que transforma o Foro de São Paulo em uma espécie de comando secreto do crime organizado no continente. Segundo o deputado, o FSP teria trocado a “luta armada” pela “captura institucional” e pela “tolerância ao crime”, chegando a afirmar que “o que antes eram guerrilhas, agora são facções”.
O que Nikolas não disse à plateia, seja por ignorância ou por desonestidade intelectual, é que seu ídolo e anfitrião em El Salvador é uma cria direta desse mesmo ecossistema político que ele demoniza. Nayib Bukele construiu toda a sua carreira inicial dentro da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), ex-guerrilha de esquerda que se tornou partido e integra o Foro de São Paulo desde os anos 1990.
Foi pela sigla da FMLN que Bukele se elegeu prefeito de Nuevo Cuscatlán, em 2012, e prefeito de San Salvador, em 2015. Só depois de ser expulso da FMLN pelo seu Tribunal de Ética, que ele fundou seu próprio instrumento político, o Novas Ideias, com o qual assumiu a presidência e passou a concentrar poder, enfraquecer tribunais e perseguir opositores sob o discurso de combate às gangues.
Em outras palavras, Nikolas viajou até El Salvador para elogiar um presidente que é produto direto do mesmo circuito partidário e regional que ele acusa de ser a raiz do crime e da corrupção. A contradição expõe a farsa: o Foro de São Paulo não é um inimigo real, mas uma palavra mágica usada para justificar o autoritarismo de Bukele lá e o bolsonarismo aqui.
Mentiras que criminalizam o governo eleito
Para além da hipocrisia em relação a Bukele, o discurso do deputado mineiro se apoia em mentiras factuais e acusações sem prova direta. A mais grave é a afirmação de que “o Brasil não derrota as facções porque elas estão no governo”. Sem apresentar um único documento, investigação ou caso concreto, Nikolas equipara o governo Lula a organizações como PCC e Comando Vermelho.
Ele repete a narrativa de que o chamado “Estado paralelo” só existiria porque o Estado oficial o tolera e “muitas vezes financia” o crime. É uma acusação explosiva e vazia: o deputado não cita programa público, contrato, decisão de ministério ou esquema comprovado que demonstre uso de recursos federais para bancar facção criminosa.
O que existe, e é fartamente documentado, é outro cenário. Corrupção e infiltração em órgãos de segurança, milícias com forte presença em periferias, conivência pontual de autoridades locais e redes criminosas que atravessam governos de diferentes partidos. Esse quadro é combatido pelo próprio Estado, que prende, investiga, apreende armas, drogas e patrimônio dessas organizações.
Transformar isso em “facções no governo” e “governo que financia o crime” não é denúncia. É difamação política, dirigida a uma plateia internacional, destinada a deslegitimar o governo eleito e alinhar o Brasil ao roteiro do “narcoestado” que justifica medidas de exceção.
Foro, crime e a velha teoria da conspiração
A ligação direta que Nikolas faz entre Foro de São Paulo e crime organizado é outro eixo de desinformação. O Foro é uma conferência que reúne mais de cem partidos e organizações de esquerda e centro-esquerda da América Latina, criada em 1990 para articular respostas políticas ao avanço do neoliberalismo. Seus documentos tratam de integração regional, soberania, direitos sociais e enfrentamento ao imperialismo, não de estratégia de facções criminosas.
As principais organizações criminosas brasileiras têm origem conhecida. O PCC surge no sistema prisional paulista, em meio a massacres e superlotação. O Comando Vermelho nasce em presídios do Rio de Janeiro, a partir da convivência entre presos comuns e políticos na ditadura. As milícias são formadas por agentes de segurança e se consolidam em territórios dominados por grupos paramilitares. Nenhuma dessas trajetórias passa por reuniões do Foro.
Quando Nikolas diz que “o que antes era guerrilha agora é facção” e fala de um “projeto do Foro” infiltrado em presídios, eleições e tribunais, ele não está descrevendo fatos, mas encaixando fenômenos complexos em uma narrativa conspiratória. É a reciclagem de um fantasma útil para atacar qualquer governo de esquerda, em qualquer país, sob a acusação genérica de “aliança com o crime”.
A fantasia da prisão por chamar Moraes de tirano
O deputado também usou o palanque em El Salvador para repetir o roteiro bolsonarista de ataque ao Supremo Tribunal Federal. Nikolas afirmou que, se chamasse o ministro Alexandre de Moraes de “tirano”, poderia ser preso ao voltar ao Brasil. Ele apresentou isso como prova de que o país viveria sob uma “ditadura de juízes” que controlaria o que pode ou não ser dito na internet.
Na prática, não há registro de prisão decretada apenas porque alguém chamou um ministro de tirano. As decisões mais duras do STF nos últimos anos estiveram ligadas a outro tipo de conduta. Organização e financiamento de atos golpistas, incentivo à invasão de prédios públicos, ameaças diretas a autoridades, campanhas coordenadas de desinformação para deslegitimar o processo eleitoral e participação em ataques como os de 8 de janeiro de 2023.
Ao omitir esse contexto, Nikolas se apresenta como vítima potencial de censura por opinião, quando na verdade o que está em disputa é o limite entre liberdade de expressão e práticas que atentam contra a própria democracia. A frase sobre “ser preso por chamar Moraes de tirano” é uma fantasia dramática, usada para justificar o ataque ao Judiciário e vitimizar quem está sob investigação por ameaças reais às instituições.
Quando tudo vira terrorismo
Outra distorção importante diz respeito à discussão sobre classificar facções criminosas como organizações terroristas. No discurso em El Salvador, Nikolas critica o governo Lula por se opor a esse enquadramento, afirmando que outros países latino-americanos já adotaram a medida para enfrentar o “narcoterrorismo”. A sugestão implícita é clara: quem é contra transformar facção em terrorista estaria do lado do crime.
Há um pedaço de verdade no ponto de partida. Integrantes do governo se manifestaram contra o uso da lei antiterrorismo para tratar de facções. Só que a conclusão de Nikolas é enganosa. A oposição não é ao combate às facções, e sim ao risco de inflar a legislação antiterrorismo e abrir brechas para criminalizar qualquer inimigo político sob esse rótulo genérico.
Especialistas em direito penal e segurança pública defendem uma alternativa mais responsável. Aperfeiçoar a legislação específica sobre organizações criminosas, facções e milícias, com aumento de penas, instrumentos de investigação, rastreamento financeiro e cooperação internacional, sem transformar todos os problemas de segurança em “terrorismo”. É uma discussão técnica, complexa, que Nikolas reduz a uma pergunta de botequim para satanizar o governo.
Ao ocultar esse debate e deixar de mencionar que o Brasil já dispõe de leis pesadas contra organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico, o deputado vende ao público externo a falsa ideia de que Lula impediria o enquadramento de facções por simpatia, e não por divergência de estratégia jurídica.
A farsa do país sem freios e contrapesos
Em outro ponto do discurso, Nikolas afirma que o Brasil não tem freios e contrapesos e que o Congresso estaria “de mãos atadas” diante de um Supremo que decidiria sozinho a agenda nacional. Segundo ele, onze ministros não eleitos comandariam o país, sem qualquer forma de controle democrático.
A afirmação é falsa. A Constituição brasileira estabelece uma série de mecanismos de controle recíproco entre os poderes. Ministros do STF são indicados pelo presidente, mas precisam ser sabatinados e aprovados pelo Senado. O Congresso pode alterar leis, aprovar emendas constitucionais que redefinam competências da Corte, instalar comissões de investigação e controlar o orçamento do Judiciário.
Além disso, ministros do Supremo podem responder a processo de impeachment por crime de responsabilidade, um instrumento extremo, mas previsto em lei. O que não existe é poder do Legislativo para reverter decisões em casos concretos julgados pelo STF, justamente porque isso destruiria a independência do Judiciário e abriria espaço para perseguições políticas em sentenças.
Quando Nikolas diz que “não há freios e contrapesos”, o que ele está defendendo, na prática, é a subordinação do STF à maioria política de ocasião. Em vez de um Judiciário autônomo, capaz de limitar abusos do Executivo e do próprio Congresso, ele propõe um tribunal que seja, na prática, um departamento jurídico da coalizão que controla o Parlamento. Vende isso como “democracia”, mas é o caminho oposto.
Linha auxiliar para o projeto autoritário
Reunidos, os elementos do discurso de Nikolas Ferreira em El Salvador formam um roteiro conhecido. Facções apresentadas como parte do governo, um presidente eleito descrito como cúmplice do crime, o Foro de São Paulo transformado em governo oculto do continente, um Supremo redesenhado como “ditadura de juízes” e um país retratado como narcoestado ingovernável.
Não se trata de um debate honesto sobre segurança pública nem de uma preocupação legítima com as vítimas da violência. Trata-se de construir, para consumo internacional, uma narrativa de colapso institucional que justifique soluções de força e concentração de poder, nos moldes do que Bukele implementa em El Salvador: prisão em massa, flexibilização de garantias, ataque a opositores e jornalistas, reeleição em série e desmonte de freios democráticos.
A viagem do deputado mineiro, portanto, não teve nada de “defesa do Brasil”. Foi um ato de política interna travestido de diplomacia, com Nikolas atuando como linha auxiliar no exterior de um projeto autoritário que, no Brasil, já produziu tentativa de golpe, ataque às urnas eletrônicas e invasão de prédios dos Três Poderes. Ao usar um palco estrangeiro para criminalizar governo, Judiciário e instituições brasileiras, ele não fala pelo país. Fala pela sua bolha ideológica, que precisa vender ao mundo a ideia de que a democracia brasileira é o problema, e não a solução.