Bares Brasil afora IX – até São Paulo! – Por Mouzar Benedito
Causos curiosos vividos em bares de todos os tipos espalhados pelo país
Lembranças de alguns bares de São Luís, Touros/Carnaubinha e São Paulo. Como já escrevi um livro de causos sobre bares da Pauliceia, não ia incluir outros dela aqui, mas os causos publicados são de outros tempos. Os deste texto são menos “antigos”.
São Luís (MA)
Na capital maranhense, não tinha nenhum bar preferido... ou melhor até que tinha. Fiquei hospedado na Casa do Estudante de Direito, um casarão antigo, com uma bela fachada azulejada, ao lado do bar mais frequentado por prostitutas e fregueses delas. Era ao lado da zona de prostituição, no centro da cidade.
O que talvez tenha me atraído mais é a conversa com os fregueses, sobre um assunto muito apropriado. É que na época eu pensava em fazer um dicionário de termos sexuais e afins, em todos as cidades que ia procurava esse tipo de bar. E esse foi um dos que me forneceram muitos vocábulos. Mas o mais interessante é que eu não precisava andar muito para chegar a ele, bastava atravessar a rua. Como tocava música alta a noite toda, às vezes não conseguia dormir e ia para lá, me juntava a quem estava me incomodando, me divertia e enriquecia meu vocabulário safado.
Ah... só para constar. Fiz o tal “dicionário” (entre aspas porque não tem o formato e a estrutura de um dicionário), mas não publiquei. Ia ser publicado pelo Toninho Mendes, que editava as revistas “Circo” e “Chiclete com Banana” (com as quais colaborei), além de outras do Angeli, Laerte e Glauco. Ele estava preparando o dito-cujo num livro que incluiria uma seleção de meus “contos eróticos”, que eram mais bandalhos do que eróticos, e morreu repentinamente. E hoje, se fosse publicar, arrumaria muita encrenca, pois o que não faltam nele são sinônimos “politicamente incorretos” para pinto, xoxota, gays etc. Tive uma certa decepção numa coisa: achava que o que deveria ter mais sinônimos era xoxota, mas colhi “apenas” uns 380 no Brasil todo, enquanto pinto deu uns 450.
Touros/Carnaubinha (RN)
A ideia era fazer uma cartilha para escolas municipais do município de Touros, no Rio Grande do Norte. Vi as cartilhas que as professoras leigas utilizavam e era uma maluquice, nada a ver com a região. Havia, por exemplo, para teoricamente despertar a curiosidade das crianças referências a animais e frutas, que deveriam aprender a escrever seus nomes. Animais mamíferos, quais eram? Bode, jegue, cachorro e outros comuns na região? Não: tigre, camelo, leão... E frutas? Caju, coco, maracujá e outras típicas do Nordeste? Não: maçã, pêssego, morango... coisas que nunca viram nem imaginavam como era.
Rodamos o município, incluindo um lugar de nome curioso, São Miguel do Gostoso, que era um povoado de poucas casas em que moravam rendeiras e pescadores e uns anos depois tornou-se lugar turístico sofisticado. Mas escolhemos Carnaubinha, a cerca de 5 ou 6 quilômetros de Touros.
Era um povoado litorâneo, sem ruas definidas, com casas espalhadas no meio de coqueiros. Bonito! Hoje em dia é outro lugar turístico. Na época, nada disso.
Bom, minha função inicial era conversar com todo mundo, especialmente com crianças, para conhecer a cultura e o vocabulário delas. Foi divertido. Depois de uns dias, vivia rodeado de crianças, brincando de fazer mágicas, contando e ouvindo histórias.
Mas o assunto é bar... Tinha só uma venda, que era também o boteco frequentado pelos pescadores. No primeiro dia, parei lá. Para entenderem o que estávamos fazendo, deveria começar com adultos, e acho melhor fazer isso informalmente, bebendo uma cachacinha do que em conversas formais.
Fui pra venda e só tinha o dono e um pescador ali. Conversavam sobre o horror que deveria ser morar em Fortaleza. O único rádio do povoado era o da venda, e umas pessoas iam ouvir lá. E de manhã tinha um programa de crimes, daqueles em que os radialistas ficavam repetindo uma história, falando da maldade do mundo, como os que apareceram na TV depois. Todo mundo ali ficava impressionado. “Todos os dias matam alguém...”, falou o vendeiro com cara de espanto, apesar de ouvir isso direto. Em Carnaubinha havia muitos e muitos anos que não ocorria um crime sequer. Nem digo de morte. Não se roubava. Para quem morava num povoado de uns quinhentos ou seiscentos habitantes e a cidade que conheciam, Touros, devia ter uns três ou quatro mil na área urbana, era difícil entender a criminalidade numa metrópole em que moram mais de um milhão de pessoas.
Ofereci uma cachaça ao pescador e ele, educadamente rejeitou agradecendo. Mas percebi que ele queria. Insisti. Depois de mais um pouco de insistência, aceitou e brindamos. Conversamos um pouco e o convenci a aceitar mais uma. Nesses minutos de conversa já deu pra me inteirar de um pouco do vocabulário local. Conversamos mais, com a participação do vendeiro, ofereci mais uma, mas ele agradeceu dizendo que tinha que consertar uma rede de pesca. Morava pertinho da venda.
Fiquei conversando com o vendeiro e minutos depois apareceu uma menina perguntando se fui eu que paguei duas pingas pro seu pai. Disse que sim e ela me entregou dois lagostins cozidos: “Ele mandou esses tira-gostos”.
A venda ficou sendo meu ponto de conversa com os adultos. Com as crianças, eu conversava debaixo dos coqueiros. Umas vinte crianças. Um dia uma viu um gravador comigo e me disse que sua irmã mais velha tinha se mudado pra São Paulo, pra um lugar chamado Santo Amaro:
— Ela trabalha numa fábrica de gravadores, a semana inteira. E nos domingos ela vai vender os gravadores na feira...
Sorri... A referência de comércio que tinham ali era uma feira de domingo em Touros. Achavam que em São Paulo devia ser assim também.
Muitas e muitas histórias boas eu ouvi ali, debaixo dos coqueiros e na venda. Até de jangada sendo atacada por navio de guerra alemão durante a guerra. Se fosse contar tudo aqui, daria uma revista inteira.
São Paulo – Sushi da Villa
Não ia colocar aqui nenhuma história de bares de São Paulo, pois já escrevi um livro sobre eles, mas não posso deixar de relembrar duas historinhas mais recentes que já publiquei por aí, uma delas acontecida num restaurante japonês, cujo dono era o Luizão, um paranaense casado com uma pernambucana. Sim, era restaurante, mas para nós era um bar. Somos amigos do então dono dele e íamos lá beber. O Luizão deixava o serviço por conta dos empregados e vinha juntar-se a nós para ficar conversando.
Falando em empregados, todos vinham de dois lugares: Dom Pedro II, no estado do Piauí, e Irecê, na Bahia. Os de Dom Pedro II chegavam aqui sem experiência nenhuma como garçons, aprendiam o serviço com o Luizão e, quando estavam craques, eram garfados por outros restaurantes, numa época de pleno emprego, no segundo mandato do governo Lula e no primeiro de Dilma Rousseff. Tinha mais empregos sobrando do que trabalhadores. E o Luizão pedia aos empregados que chamassem outros conterrâneos.
O Sushi da Villa ficava na esquina das ruas Wizard e Mourato Coelho, na Vila Madalena, era pertinho de casa e virou nosso “escritório” por uns anos. Todas as noites íamos lá beber e conversar. Ficávamos numa área ao ar livre, com vista para as duas ruas, mas uma época começou a chover demais e tínhamos que correr para dentro do restaurante. A Mourato Coelho virava um rio, com a enxurrada cobrindo toda a rua e levando mesas e cadeiras porventura deixadas para trás quando a chuva chegava com toda a força.
Depois de umas noites assim, o Luizão resolveu nos contar a teoria dele sobre o motivo de tanta chuva aqui. Culpa da burocracia no céu, disse ele. A história contada era que na época de secas brabas no Nordeste, muita gente ia a Juazeiro do Norte pedir ao Padre Cícero que mandasse chuva para eles.
Acontece que no céu tinha uma burocracia terrível também, e os emissários demoravam a levar o pedido ao padre milagroso. Ele providenciava então para que chovesse onde moravam os devotos que lhe pediram. Só que eles demoraram tanto esperando a chuva que não vinha que resolveram se mudar para São Paulo. Então, lá no céu, o Padre Cícero procurava saber onde moravam os que pediram chuva e eles estavam em São Paulo, muitos na Vila Madalena, inclusive no seu restaurante. E mandava chuva para eles... aqui! Juntava a chuva dos muitos pedidos feitos ao padre com as que choviam normalmente em São Paulo e o resultado era aquele: verdadeiros dilúvios. Culpa da burocracia celeste, insistia.
... E o Tubaína...
A segunda historinha se passa no Chivitos de Oro... bar na rua Heitor Penteado. Chivitos é o nome de um prato típico do Uruguai, um bifão com batatas fritas, ovo etc. E passaram a fazer sanduíches com o mesmo nome. Um português muito legal, seu Jorge, casou-se com uma uruguaia e abriram o tal bar.
Um ajudante geral, que fazia limpeza e ajudava os garçons quando necessário, tinha o apelido de Tubaína. Um dia, depois de anos de trabalho, ele pediu demissão. O seu Jorge não queria que ele se demitisse, gostava dele, ofereceu aumento, mas não adiantou. Por que se demitiu? Arrumou emprego melhor? Não revelou...
Três ou quatro semanas depois encontrou-se com um garçom do Chivitos e contou:
— Mudei pra uma casa na avenida M’Boy Mirim e o inquilino anterior tinha um caminhão, então fez uma garagem grande. Resolvi aproveitar e transformar em igreja.
— Igreja?! Admirou-se o garçom. Você não entende nada disso. Já leu a Bíblia? Que pregação você faz?
— Em Santo Amaro tem uma igreja Universal e vou lá de manhã. Escuto com atenção o que o pastor fala e à noite repito tudo na minha igreja.
Mais uns dias, foi ao Chivitos e contou que já tinha quarenta fiéis pagando o dízimo. Se cada um ganhasse um salário mínimo, seriam quatro salários mínimos por mês. Bem mais do que ganhava no bar. E alguns ganhavam bem mais que o salário mínimo. A igreja rendia!
Mais dois meses e ele apareceu no Chivitos de novo, pedindo o emprego de volta ao seu Jorge.
— Você falou que a igreja estava dando muito lucro, por que quer voltar a trabalhar aqui?
E ele revelou:
— Estava mesmo. Dava tão certo que incomodou o pastor de uma igreja grande que tem lá perto. Um dia, parou uma Kombi na porta de casa, desceram quatro homens grandes, fortes e mal encarados, e foram logo falando: você vai fechar essa igreja agora. Se não fechar, a gente queima a sua casa com a família dentro.
Enfim... estava “roubando” a clientela do pastor poderoso...
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.