Estadão, o poço de cinismo que quer Bolsonaro em casa e Lula na cadeia
Em editorial, jornalão moribundo clamou por respeito ao golpista, afinal, ele é ex-presidente. Em 2019, pediu regras de preso comum para Lula
Quem leu o editorial do Estadão nesta terça-feira (18) deve ter ficado muito embasbacado com a visão “humana” do jornalão ao clamar por tratamento especial para Jair Bolsonaro no cumprimento de sua pena, algo diametralmente oposto ao que publicou na mesma página de editoriais quando o preso era o então ex-presidente Lula. A diferença de tom, de argumentos e até de vocabulário é tão gritante que seria cômico se não fosse a prova cabal de que o jornal que se apresenta como “o mais antigo defensor da democracia brasileira” pratica, há anos, o mais descarado “dois pesos, duas medidas”, conforme a coloração política do condenado.
Em janeiro de 2019, o Estadão espremeu toda a sua indignação moral para gritar que Lula já tinha “favorecimento demais” por estar numa sala especial da PF, que “lugar de preso é na cadeia” e que era uma “afronta à igualdade perante a lei” sequer cogitar levar o corpo do irmão morto até uma unidade militar ou permitir um encontro fora do presídio comum. A Lei de Execução Penal, segundo o jornal de então, não dava “direito irrestrito”, e conceder qualquer regalia seria “criar direitos exclusivos” para o “líder petista”. O tom era de escândalo: como ousam tratar um ex-presidente de esquerda com humanidade?
Seis anos depois, o mesmo jornal, na mesma página, com o mesmo estatuto de “defensor do Estado de Direito”, defende exatamente o oposto para Jair Bolsonaro. De repente, “ex-presidente não é um preso qualquer”, a saúde precária (agora sim) deve ser levada em conta, a Papuda é “degradada demais” para um ex-chefe de Estado, e prisão domiciliar não seria indulgência, mas “magnanimidade” que “fortalece a democracia”. O precedente de Lula em cela especial, que em 2019 era prova de escândalo, vira agora argumento de autoridade para justificar tratamento privilegiado ao ex-capitão. A decisão de Toffoli que era “arbitrária” e “criativa” em 2019 torna-se, em 2025, modelo de “prerrogativa inerente ao cargo” quando o beneficiário troca de lado ideológico.
O cinismo atinge níveis estratosféricos quando o jornal de 2025 reconhece que “milhares de presos vulneráveis não recebem cuidado remotamente semelhante” e, em vez de concluir que Bolsonaro deve ter o mesmo tratamento que qualquer outro doente no sistema (ou seja, nenhum cuidado), conclui que a solução é justamente dar a ele o que se nega aos milhares. Em 2019, a desigualdade era motivo para endurecer com Lula; em 2025, a mesma desigualdade vira motivo para abrandar com Bolsonaro. A lógica é cristalina: quando o preso é de esquerda, a desigualdade do sistema justifica igualar por baixo; quando é de extrema-direita, justifica igualar por cima.
E ainda tem a cereja do bolo: em 2019 o Estadão ironizava a possibilidade de o velório virar “comício político” caso Lula saísse da cadeia; em 2025, nem uma linha sobre o risco óbvio de Bolsonaro transformar a prisão domiciliar em QG de campanha permanente, com público na porta, lives diárias e articulação golpista com tornozeleira. O silêncio é ensurdecedor. Aliás, é enlouquecedor.
Não há como ler os dois editoriais lado a lado sem chegar à conclusão inescapável: o Estadão não tem linha editorial, tem lado. Quando o condenado ameaça a ordem liberal-conservadora que o jornal defende, é “preso comum” e deve apodrecer na cela; quando o condenado é aliado histórico da casa, da família Mesquita e do golpismo de 1964 em diante, de repente brotam “prerrogativas”, “magnanimidade” e “civilidade republicana”. A isenção que o jornal tanto ostenta é apenas a máscara que cai toda vez que o interesse de classe fala mais alto que a coerência.
Dois editoriais, seis anos de diferença, um único padrão: Lula deve ser tratado como o pior dos bandidos comuns; Bolsonaro, como vítima de saúde precária que merece conforto humanitário. A hipocrisia tem nome, endereço e CNPJ: O Estado de S. Paulo.