Segunda Guerra Mundial

Herr Merz tenta diminuir Belém — e desperta um passado que deveria calá-lo

Merz tentou diminuir Belém e engrandecer a Alemanha, mas acabou revelando o abismo entre a verdadeira liderança diplomática e a arrogância vazia de quem esquece que respeito e história são requisitos, não enfeites protocolares.

Escrito en Opinião el
Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.
Herr Merz tenta diminuir Belém — e desperta um passado que deveria calá-lo
O líder conservador Friedrich Merz. RALF HIRSCHBERGER / AFP

Há momentos em que o discurso de um líder revela grandeza. E há outros em que revela apenas o estreitamento de sua visão. As declarações do chanceler alemão Friedrich Merz, durante o Congresso Alemão do Comércio, pertencem a essa segunda categoria — a das frases que diminuem quem as pronuncia. Referindo-se ao Brasil e à cidade de Belém do Pará, sede da COP30, Merz afirmou diante de uma plateia empresarial:

"Senhoras e senhores, nós vivemos em um dos países mais bonitos do mundo. Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: 'Quem de vocês gostaria de ficar aqui?' Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, na noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos".

Não é apenas deselegância. É uma confissão pública de uma visão estreita, alimentada por uma crença antiquada de superioridade nacional. E é aqui que a história se impõe: foi essa mesma rudeza de pensamento, essa falsa superioridade de um país ante outro, que levou seus antepassados, em 1939, a iniciar a Segunda Guerra Mundial e interromper milhões de vidas; foi seu país que ergueu os campos de concentração que assassinaram seis milhões de judeus, além de comunistas, homossexuais, pessoas com deficiência e ciganos. Antes de se vangloriar de sua pátria, Merz deveria olhar para esse passado — tão recente quanto incômodo.

Ao desprezar Belém — uma cidade que o acolheu — Merz não insultou apenas um território: insultou a diplomacia, essa arte tão exigente quanto frágil. A Alemanha sempre reivindicou para si o lugar de potência da razão, da reflexão e da memória histórica. Mas as palavras de seu chanceler enveredam pela trilha oposta: a do paroquialismo soberbo, do elitismo que confunde desigualdade com falta de valor civilizatório.

Belém, com seus desafios e sua beleza visceral, é mais do que um ponto tropical no mapa. É porta de entrada da Amazônia, centro de saberes ancestrais, palco onde a cultura pulsa e resiste. Seus habitantes não precisam de aprovação estrangeira — tampouco de juízos apressados ditos para arrancar risos fáceis de plateias confortáveis. O Brasil não deve pedir licença para existir.

A diplomacia é um exercício de respeito. Um gesto. Uma palavra que pesa. E Merz, ao tentar exaltar a Alemanha às custas de rebaixar o Brasil, rebaixou apenas a si mesmo. A grandeza verdadeira não se afirma diminuindo o outro; constrói-se no reconhecimento da dignidade alheia.

O Brasil não sai menor desse episódio. Nem Belém. Nem a Amazônia. Apenas Merz sai reduzido — e reduzido pelo eco de suas próprias palavras. Porque nenhum país se engrandece quando escurece o mundo ao redor para brilhar sozinho.

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