Jards Macalé

Jards Macalé, o mais incomum dos artistas no mais comum dos homens

Sem nenhuma pose de astro pop, ele foi o responsável por uma das obras mais inovadoras e transformadoras da nossa música popular

Escrito en Opinião el
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.
Jards Macalé, o mais incomum dos artistas no mais comum dos homens
Jards Macalé durante participação no Que história é essa, Porchat?. Reprodução de vídeo

O pequeno e já extinto Cineteatro Independência, em Santos, estava lotado, quando um sujeito subiu ao palco e avisou: “olha, gente, infelizmente eu venho aqui dizer que o Jards Macalé teve um problema e não vai poder...”.

Neste exato momento, o próprio Macalé irrompeu do meio da plateia gritando: “eu tô aqui, cheguei”. Subiu, tirou o violão da capa e começou aquele que seria um show definitivo na minha, e acredito que na vida de muitos que estavam por lá naquele dia.

Na ocasião, Macalé lançava o álbum “Contrastes”, de 1976. Sabia até então muito pouco sobre ele. Além de ser o compositor, ao lado de Capinam, da fabulosa “Movimento dos Barcos”, eternizada por Maria Bethânia, era também o produtor do lendário álbum “Transa”, gravado em Londres por Caetano Veloso. E só.

O que, então, começou a brotar daquela voz incomum e multifacetada e do seu violão absolutamente original foi um raio de luz. A partir do samba de Ismael Silva, que dava nome ao seu álbum, Jards Macalé distribuía música de todas as partes e jeitos por todos os poros. Ao mesmo tempo, as reunia em um signo único, uma coisa ampla e ancestral que, anos depois, viemos a entender que só poderia ter se dado no Brasil daqueles tempos em diante. E também, é claro, graças a ele, entre outros.

Aula

Aquele show foi uma das maiores aulas que pudemos ter na vida. Macalé foi de Brecht, com a adaptação de Augusto Boal para o “Poema da Rosa”; passou por Louis Armstrong, com “Black and Blue”; o forró malícia de Geraldo Gomes em “Sim ou Não” até “Cachorro Babucho”, de Walter Franco. No final das contas, como se não bastasse, ainda nos apresentou pela primeira vez o reggae, com a sua e de Wally Salomão, “Negra Melodia”.

Sem saber, nem medo de exagerar, estávamos vendo e ouvindo a história. Com sua profusão de truques, em um dado momento, interrompeu o show para falar sobre o cantor e pianista cubano Ignacio Villa, conhecido como Bola de Nieve. Sem mais delongas, disse que era maravilhoso e que todos nós deveríamos ouvir. Com a maior desfaçatez do mundo, saiu do palco, pegou um gravador e o colocou na frente do microfone do seu violão. Diante da incrédula plateia, pôs pra tocar o Bola de Nieve e ficou sentado ao lado, emocionado e fazendo gestos de aprovação. Ao final, pela primeira e única vez na vida, vi uma plateia emocionada aplaudir de pé um gravador no meio de um palco vazio.

Ficou, então, comprovado. Ignacio Villa era, de fato, um gênio, que nos era então apresentado por outro.

Indescritível talento

Os truques e invencionices de Jards Macalé poderiam ter ficado só nisso, não fossem acompanhados sempre de um enorme e indescritível talento. Além de tocar e cantar como ninguém, foi também, acima de um grande compositor, um inventor de músicas. Sua obra, pra lá de original, rendeu gravações de sucesso nas vozes de Gal Costa (o hino “Vapor Barato”, regravado pela banda O Rappa), Elizeth Cardoso, a já citada Bethânia entre muitos outros.

Sua falta de regras, comportamento irreverente e inovador e a postura que jamais chegou perto a de um astro pop lhe renderam dificuldades financeiras e a fama de “maldito” ao longo da vida. Era, por um lado, um homem comum que, no fazer artístico, era o mais incomum de todos.

Certa vez o vi na porta de uma padaria no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, tomando café sozinho. Um menino de uns dez anos ou menos chegou correndo e gritou, com um carregado sotaque carioca: “Macalé!” Ele respondeu sorrindo: “oi, meu camaradinha!”, e ficou brincando com o moleque, enquanto o resto da cidade seguia o seu rumo, alheia a ele e à cena.

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